versão para impressão     fonte menorfonte padrãofonte maior
Viagem à raiz
 

Este fim de semana, o terceiro do Advento deste 2009, foi, para mim, de reencontro com raízes piauienses e brasileiríssimas. Em Teresina, Beneditinos - onde meu avô, Cesário de Alencar, foi "intendente" - e em Alto Longá, onde nasceu meu pai, reencontrei e conheci parentes, participei de fecundas reuniões e conversas e tomei posse como imerecido membro da Academia Longaense de Letras, Cultura, História e Ecologia, presidida pelo meu dedicado anfitrião, dr. José Itamar. Na capital, além do bom debate com o(a)s companheiro(a)s que, com idealismo incomum, constroem o PSOL, visitei o Instituto Dom Barreto, que adotou, no passado, livros de minha autoria, e vivi a emoção de conhecer o Memorial Professor Marcílio Rangel de Farias, educador apaixonado, "o homem que tinha um menino no bolso", como testemunha sua irmã, Maria do Socorro Rangel.
Com gratidão pela homenagem a meu saudoso pai, escolhido como patrono da Cadeira 9 da Academia Longaense, recupero alguns dados biográficos dele: Francisco Rodrigues de Alencar nasceu em 13 de junho de 1900, em Alto Longá, e faleceu em 6 de outubro de 1963, no Rio de Janeiro. Aos 25 anos deixou sua terra natal e foi para o Rio de Janeiro. Autodidata, trabalhou na Revista Agricultura e Pecuária, editada pelo Ministério da Agricultura, do qual era servidor, e em diversos jornais da então capital federal, como o Correio da Manhã, o Diário de Notícias, A Noite e O Dia. Sua vocação maior era escrever. Seu grande prazer, ler. Tinha uma biblioteca com mais de mil livros, muitos deles com dedicatória de seus autores, como Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Viriato Correia, Gilberto Freyre e Gustavo Barroso. Jamais esqueceu sua terra, o Piauí, de cujas belezas e características culturais era um abnegado propagador. Era também uma espécie de referência para os piauienses que chegavam à Cidade Maravilhosa, acolhendo, hospedando, orientando, apoiando os novatos. Embora nunca tenha se candidatado a cargo eletivo, tinha largo círculo de relações entre políticos como Armando Falcão, Tancredo Neves, Petrônio Portella e os irmãos Claudio, Alfeu e Sigefredo Pacheco, além de seu sobrinho Álvaro. Era admirador de Carlos Lacerda mas, como o próprio ex-governador da então Guanabara, suponho que, se fosse vivo, logo se decepcionaria com os caminhos tomados pelos que deram o golpe de 1964.
Dele herdei, apesar de minhas limitações, o senso de justiça e de solidariedade, o gosto pela escrita e o amor pelas coisas simples da vida. Minha mãe e sua esposa, ainda viva, nonagenária, Jacintha Garcia Duarte de Alencar, Dona Nina, é paulista do interior, de Santa Rosa de Viterbo, onde mora. O casal teve, antes de mim, a filha Maria Amélia Garcia de Alencar, professora de História da UFG e da Católica de Goiás, onde reside. Demos ao nosso pai, que adorava crianças, cinco netas e um neto: Gabriela, Joanna, Emanuel, Ana, Lia e Nina - os quatro últimos meus filhos, graças à Angela e Claudia, suas mães. As duas netas mais velhas, filhas de minha irmã com Marco Aurélio Luz e Steven Heim, por sua vez, já geraram três bisnetos (dois meninos, uma menina) ao velho e bom Rodrigues de Alencar. Continuados natais, vida que se segue, com as bênçãos de Deus!
Nas proximidades do Dia dos Pais de 1996 escrevi o que a volta a Alto Longá, "a cidade dos humildes", nesse 12 de dezembro de 2009, me fez atualizar:

Meu pai se foi
quando eu tinha 13 anos,
mas continua aqui , em quietude sem fim,
no que sou agora
e no que faço com o que fazem de mim.
Meu pai, raiz,
continua no gosto bom e ruim
pela farinha, pela política, pela canção,
pela pré-ocupação,
pelo carinho que às vezes vem ,
refazendo-me em sins.
Essa raiz, meu pai,
afunda no sentimento nor-destino,
nossa árida destinação sertaneja
de ser tão só e não, tão só ser,
amizades, amores,
vidas secas que precisam florescer.
Meu pai, Velho Chico,
partiu há 46 anos,
mas suas águas irrigam
todas as terras da minha existência,
todos os risos dos meus filhos,
toda esperança no que há de brotar.
Meu pai, sem idade, é tudo isso, somente:
saudade, semente.

Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 15 de dezembro de 2009.
Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ

   
Gabinete no Rio de Janeiro:
Av. Mem de Sá, 23 - sobrado - Lapa
CEP: 20230-150
Telefones: (021) 2232-4532 / 2232-4413
Gabinete em Brasília:
Câmara dos Deputados
Anexo IV - gabinete 848 CEP: 70160-900
Telefone: (61) 3215-1848/3215-2848
3215-3848/3215-5848