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Derretimento partidário
 

Os deputados distritais decretaram recesso da ética até 10 de janeiro. Os corruptos pegos em flagrante ganharam um 'indulto de natal' nas investigações. Mas nós não ficaremos inebriados com os festejos da cumplicidade espúria.
Afinal, abriu-se a 'Caixa de Pandora': a revelação do mensalão no Governo do Distrito Federal, capitaneado por José Roberto Arruda (ex-PSDB, eleito pelo DEM), sucessor de Joaquim Roriz (ex-PMDB, hoje PSC) também nessas práticas, carimba a vergonha: todos os grandes partidos brasileiros - e muitos pequenos também - são sócios nada honorários do clube da degradação política nacional, mantido pela "contribuição" de empresas prósperas em propinas e tráfico de influência. É o 'poder dissolvente do dinheiro' de que já falava o velho Marx...
Às cenas patéticas de altas autoridades da capital da República recebendo maços de notas somam-se discursos hipócritas, sem cerimônias com a mentira: do "não sei de nada" lulista à "perplexidade" arrudista, passando pela "injustiça" azereda. A "piada de salão" delubiana, materializada em panetones natalinos, confirma-se com a reabilitação - através do voto dos filiados - de muitos demiurgos das malfeitorias petistas na direção nacional do partido.
A vacina eficaz contra a "naturalização da corrupção", porém, precisa ir além da epiderme: as transações com a dinheirama ilícita são induzidas e estimuladas pelo modelo político vigente no Brasil. Modelo que tanto FHC quanto Lula criticaram mas não tiveram coragem para reformar, face à negativa de suas bases de sustentação parlamentar. Quinze anos de omissão e leniência só agravaram a corrupção e a descrença na política. Diversos segmentos dos não envolvidos diretamente nessa rede podre assumem uma espécie de neoconformismo esclarecido: "não há outro jeito de se fazer política no Brasil"...
Em aparente paradoxo, nosso modelo político conservador e corrompido, formalmente representantivo, com eleições bienais e pluripartidarismo, ancora-se no ambiente de grandes mudanças no capitalismo brasileiro. As megafusões, incorporações e aquisições de empresas reconfiguram a elite econômica e política dominante. Delfim Netto, mago das finanças na ditadura e reciclado na política da democracia formal e banal, afirmou recentemente que "Lula salvou o capitalismo brasileiro". Isso porque em todos esses processos há ativa participação do Estado na constituição dos novos "global players". Oi/Brasil Telecom na telefonia, Braskem/Petrobras na petroquímica, Brasil Foods no setor de alimentos, Pão de Açúcar incorporando Casas Bahia, Votorantim/Aracruz no papel e na celulose, CSA na siderurgia, Itaú/Unibanco e BB/Nossa Caixa no setor financeiro, em que os cinco maiores bancos concentram 80% das lucrativas movimentações: nesses e em outros "arranjos produtivos" neomonopolistas, o BNDES, terceiro maior banco de fomento do mundo, e/ou os Fundos de Pensão, geridos por sindicalistas, estão presentes. Fortes em investimentos, carentes em transparência, apenas retóricos em precauções ambientais.
A modernização conservadora do capitalismo brasileiro, se tem na figura do megaempresário Eike Batista a personificação dos "novos" tempos, não necessitou, até o momento, de uma repaginação da sua dinâmica política: as práticas patrimonialistas, mesclando autoritarismo, demagogia e clientelismo, e imbricando interesses privados e públicos, seguem firmes, sustentando governos e viabilizando os negócios nos quais têm expertise: captura de sufrágio, vitórias eleitorais.
Todos, "modernos" e "atrasados", navegam nas águas aparentemente tranquilas da economia com boa inserção internacional e retomada interna. A hegemonia desse produtivismo financeirizado, acolitado por políticas sociais que ampliam o assistencialismo para os grandes contingentes de excluídos, reproduz a nova dominação.
Nesse cenário, a atividade política institucional torna-se um teatro repetitivo. Os partidos, com raras exceções, não representam projetos nacionais vinculados a interesses de classes. Enquanto a cidadania crítica e as organizações coletivas autônomas fenecem, o personalismo avulta. E o dinheiro, equivalente geral, rege políticas públicas, campanhas, razões e corações. Tudo estimula, tudo polui, tudo corrompe.
Na mitologia grega, Pandora, ao abrir a caixa de segredos, viu-se envolta num turbilhão de maldades que acometiam a vida humana: guerra, inveja, falsidade, doença, morte. Assustada, conseguiu fechá-la antes que o pior dos males se espalhasse: a desesperança, o desencanto.
Em 2010, a Campanha da Fraternidade Ecumênica vai lembrar um alerta de Jesus, relatada no Evangelho de Mateus: "vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro!". Quantos, na vida pública nacional, se sentirão interpelados?

Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 16 de dezembro de 2009.
Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ

   
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