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Chega ao fim, em Copenhague, a 15ª Conferência da Convenção
sobre a Mudança do Clima, COP-15, que as Nações Unidas
instituíram na Cúpula da Terra, no Rio, há 16 anos.
Os pífios resultados revelam a irresponsabilidade dos que se julgam
donos do mundo, gerentes do sistema da ganância. O clima, bem comum
ainda gratuito, não merece deles os cuidados que os bancos, por
exemplo, sempre têm...
Está em jogo a própria sobrevivência dos seres humanos
na Terra. As emissões de dióxido de carbono são hoje
30% mais altas do que na época em que a Convenção
sobre a Mudança do Clima foi firmada. Chegamos a 430 partes por
milhão de CO2 na atmosfera, ultrapassando em muito o limite de
350 partes por milhão que os cientistas dizem ser o limite para
evitar alterações climáticas. No ritmo atual de crescimento,
elas poderiam mais do que triplicar até o fim do século,
o que significa 50% de risco de que a temperatura global suba 5°C.
Com o aquecimento global teremos impactos nos biomas, comprometendo a
forma de vida das populações que os habitam. Espera-se maior
incidência de secas, enchentes e furacões.
Na contramão dessas preocupações, a Câmara
dos Deputados aprovou, na noite de 16/12, um projeto que facilita licenças
ambientais, pode ampliar áreas de desmate e enfraquece o Ibama
e o Conama. Os ruralistas, os empreiteiros, com o surpreendente apoio
do PC do B e do PT - quem te viu, quem te vê... - foram vitoriosos.
Um absurdo contra o qual só nós, do PSOL e do PV, nos insurgimos!
No Brasil, segundo estudiosos da UFRJ, USP, Unicamp e Embrapa, mantidas
as condições do atual modelo econômico, até
o fim deste século a Amazônia sofrerá perda de 40%
da cobertura florestal da área sul-sudeste-leste, que se transformará
em savana. O rio Amazonas terá redução da sua vazão
em até 30%, o rio Paraná em 53% e o rio São Francisco
minguará 70%. No Nordeste, cuja temperatura aumentará até
8ºC, é prevista uma diminuição das chuvas entre
2 e 2,5 milímetros por dia até 2100! Isso afetará
todo o país - lar de um quinto das espécies do planeta,
espaço da maior biodiversidade da Terra.
Os habitantes dos países ricos são os que mais emitem gases
de efeito estufa - um australiano emite 5 vezes mais que um brasileiro.
Enquanto 1,6 bilhão de pessoas no mundo estão excluídas
do acesso à eletricidade - vale dizer, à saúde e
à educação - os norteamericanos consomem 1/4 da energia
mundial. Os 50 países mais pobres do mundo são responsáveis
por apenas 1% das emissões de gases, no entanto são os mais
afetados. Mary Robinson, que foi alta-comissionária de Direitos
Humanos da ONU, estima em 300 mil as mortes relacionadas às mudanças
climáticas em 2008, entre eles os atingidos pela desertificação
na Etiópia e no Quênia.
Ela defende a criação de um fundo para o financiamento de
ações de mitigação e adaptação
para os países pobres e os ditos "emergentes", que serão
equipados para fazer a transição para uma economia de pouco
carbono.
A Conferência de Compenhague tem dificuldade de dar uma resposta
contundente ao risco de aquecimento, pois os representantes dos países
presentes reafirmam o sistema atual de produção e de consumo,
que implica sacrificação da natureza e criação
de desigualdades sociais. Não aceitam questionar uma forma de produzir
e distribuir riquezas baseada no lucro, mesmo que esse sistema coloque
nossa existência em riscos. O que vale é um PIB positivo!
Creem que com algumas regulações e controles a máquina
pode continuar produzindo crescimento material e ganhos, como ocorria
antes da crise.
Leonardo Boff, em seu artigo "Confrontos em Cophenhague", conclama
a que "voltemos à ética do cuidado, buscando o trabalho
sem exploração, a produção sem contaminação,
a competência sem arrogância e a solidariedade a partir dos
mais fracos".
Que forças sociais e indivíduos querem, de fato, buscar
novos rumos para a Humanidade? Sem esse forte movimento da cidadania ativa,
todas as resoluções de Copenhague, mesmo que tímidas,
serão letra morta. Ecocídio.
Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 17 de dezembro de 2009.
Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ
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