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Pronunciamento
(Do Sr. Deputado Chico Alencar, PSOL/RJ)
Não há política educacional fora do contexto social,
alheia às forças que, dominantes, orientam os rumos da sociedade
de maneira mais geral. Desta forma, a política educacional é,
quase sempre, reprodutivista, isto é, consolida os valores hegemônicos
na sociedade. Ou, mais raramente, transformadora, analítico-crítica,
em permanente confronto com as práticas e os valores que prevalecem
na formação social na qual o sistema educacional está
inserido.
O neoliberalismo é o capitalismo puro e duro, que afirma o dogma
do mercado total e consolida a etapa da financeirização
do capital. Trocando em miúdos, arriscando-me a ser simplista:
a produção variadíssima de mercadorias - quanto mais
descartáveis, melhor - e a ideologia do consumo contínuo
como sentido de vida marcam nosso tempo. E o setor bancário-rentista,
em combinação com os papéis nas frenéticas
bolsas de valores, é o segmento novo da classe dominante, aliado
da burguesia industrial, agrária e comercial. Os eixos do sistema
capitalista estão mais
azeitados do que nunca: acumulação, competição,
alienação do trabalho, individualismo. Assim, afirmam os
neoliberais, a roda da economia gira bem, e quanto menos "Estado"
(Poder Público) para regular, fiscalizar, "emperrar",
melhor. Tudo é negócio, perspectiva de ganho, dinamismo
mercantil. "There's no alternative!", avisou a dama-de-ferro
do novo capitalismo, Margareth Thatcher, há quase 20 anos.
Nesse contexto, a Educação vai deixando de ser um direito
básico, universal, que todos, sem exceção, devem
fruir, e torna-se um mero "serviço", cuja extensão
é objeto de negociação na Organização
Mundial do Comércio. Os "escolões", empreendimentos
negociais que vendem educação, vão surgindo, e alguns
têm pretensão expansionista, formando, como os supermercados,
redes mundiais. A hegemonia neoliberal, entretanto, começa a dar
sinais de cansaço,
sobretudo nas áreas ditas periféricas do planeta, as mais
espoliadas, onde os índices de miséria e pobreza permanecem
altos. A eleição de governos de viéis popular e esquerdista
em "nuestra America" é um sinal. Maleável e atento,
o sistema capitalista busca uma face mais humanizada (até nas conversações
dos "donos do mundo", os grandes financistas e seus Bancos Centrais
e presidentes, reunidos anualmente em Davos, no Forum Econômico
Mundial).
Aqui e ali, experimenta-se uma espécie de neoliberalismo mitigado,
com seus reflexos nas políticas setoriais: assistencialismo forte
para "acalmar" as massas excluídas, neopeleguismo sindical,
neopopulismo político e... políticas educacionais ambíguas,
com o estado gerencial, "necessário" - sem exageros de
estatismos, claro. Este parece ser o rumo do Brasil na Era Lula. Exemplo:
a UNESCO recomenda um gasto mínimo de 6% do PIB com educação.
O Plano Nacional de Educação, aprovado no Congresso Nacional,
definia 7%. FHC vetou, Lula jamais mobilizou seu governo e sua enorme
base de sustentação para derrubar esse veto: nosso gasto
não passa de 3,7% com educação. A linha permanente
é de parceria com a iniciativa privada, como bem revela o PROUNI,
com suas isenções tributárias, bolsas e afagos à
"pilantropia".
O Estado é o facilitador, o coordenador, o viabilizador dos negócios
na educação, e a "qualidade" deve ser aferida
com indicadores gerais ("provinhas" e "provões"),
alheios à dinâmica fundamental de cada uma das 170 mil unidades
educacionais do país - ter ou não um projeto político-pedagógico
em cada uma, alinhavado democraticamente, é o menos importante...
Sem estímulo para pensar o todo, os subsujeitos dessa educação
vivem uma espécie de participação tutelada. Política
educacional ambígua, que aponta, freireanamente, para elementos
críticos, de conscientização, mas também dá
continuidade ao processo conformista-privatizante de FHC. Política
educacional em disputa.
Cumpre aos não saciados, não adaptados à ordem capitalista,
crentes num "outro mundo possível e necessário",
afirmar princípios e, cotidianamente, vivenciá-los na sua
prática educacional (que é sempre política). Afinal,
na sociedade brasileira ainda há 12% de analfaabetos, 37 milhões
de analfabetos funcionais e 47% das escolas onde crianças e jovens
ficam menos de 4 horas
por dia. O contraponto à política neoliberal na educação
é a defesa da educação pública, laica, científico-tecnológica
e humanística, da socialização solidária do
saber, da formação para o trabalho como criação
e fonte contínua de conhecimento, da pedagogia dos hábitos
cognitivos
progressivos mas perenes, da dimensão ética - de compromisso
social - e histórico-cultural. Para que não continue acontecendo
com milhões de brasileiros o que o grande Lima Barreto, no início
do século passado, escreveu de seu personagem Isaías Caminha:
"não, eu não soube arrancar de minha natureza o grande
homem que desejei ser; abati-me diante da sociedade, não me revelei
com força, vontade e grandeza... Senti bem a desproporção
entre o meu destino e os meus desejos".
Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 10 de junho de 2008.
Chico Alencar
Deputado Federal/PSOL-RJ
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