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Pronunciamento
(Do Sr. Deputado Chico Alencar, PSOL/RJ)
Após 15 dias de ocupação, os estudantes da Universidade
de Brasília deixaram a reitoria na sexta-feira passada. Antes de
entregar o prédio, fizeram um mutirão para limpá-lo.
Essa iniciativa se coaduna com o espírito de cuidado com o patrimônio
público que prevaleceu durante todo o processo de ocupação.
Afinal, foi para defender a Universidade Pública que o movimento
- que nos enche de esperança - se organizou.
Após 40 anos dos movimentos estudantis de 68, os estudantes da
UnB recuperam o exemplo daqueles jovens que lutaram por mudanças
profundas no Brasil e no mundo. As inúmeras denúncias envolvendo
o Reitor Timothy Mulholland levaram os estudantes a exigir a sua saída
e a convocação de eleições paritárias.
Além disso, a comunidade discute formas de participar mais ativamente
na gestão dos recursos da universidade. A democracia é essencial
para garantir a transparência.
O movimento foi vitorioso: o Reitor e o vice-Reitor renunciaram e a comunidade
está debatendo os mecanismos para convocação de novas
eleições. Contudo, além dessas vitórias concretas,
o ganho simbólico é imenso. A força e capacidade
coletiva de transformar uma conjuntura foi posta em ação.
A Universidade saiu fortalecida. Parabéns aos estudantes da UnB!
Sr. Presidente, o dia 22 de abril é considerado oficialmente a
data do descobrimento do Brasil. Quando Cabral aqui chegou, no entanto,
as terras já eram ocupadas por nações indígenas,
com pluralidade considerável de culturas, línguas, costumes
e sistemas políticos. Como é possível considerar
que a chegada de Cabral tenha sido um ato inaugural? Não é
verdade. O europeu invadiu um território povoado.
Depois de 508 anos, os índios lutam pela manutenção
de suas identidades e por territórios que lhes assegurem a vida.
A crítica do general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia,
à demarcação da área indígena Raposa
Serra do Sol, considerando-a uma ameaça à soberania nacional,
foi contestada pelo líder indígena Jecinaldo Saterê
Mawé, presidente da Coordenação das Organizações
Indígenas da Amazônia Brasileira: "Nós não
somos um perigo à segurança nacional. Existe meia dúzia
de arrozeiros que são terroristas, mas nós ajudamos a defender
a fronteira".
Segundo Jecinaldo, os índios querem conviver com dignidade e respeito
dentro da sua cultura. Ele defende que as comunidades indígenas
precisam ter diálogo com os setores empresariais, mas que não
devem aceitar que as empresas apenas façam propaganda. As comunidades
indígenas defendem a floresta contra o desmatamento: "São
180 povos. 21% da Amazônia e 65% das terras preservadas são
Terras Indígenas. Nós não queremos construir um país
dentro do Brasil, queremos proteger nossa cultura" diz Jecinaldo.
O atual modelo de desenvolvimento não vai salvar a Amazônia.
A luta dos povos indígenas diz respeito a toda sociedade brasileira.
Séculos de aniquilamento e usurpação precisam ser
reparados.
Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 24 de abril de 2008.
Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL-RJ
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