GOVERNO LULA É APOSTA PERDIDA

Depois de 18 anos de militância no PT, Chico Alencar resolveu semana passada ir para o P-Sol. Eleito deputado federal em 2002 com quase 170 mil votos - o petista mais bem votado no Estado - , Chico optou por abandonar a força da máquina governamental e buscar espaço, junto com outros cinco parlamentares do PT, no partido comandado pela senadora Heloísa Helena (AL). E refuta qualquer insinuação de oportunismo: "Isso é mais um suicídio eleitoral".
Em entrevista no aprazível gabinete da Lapa, ele contou ao JB todo o processo histórico que culminou com a opção por sair do partido. Devoto de São Francisco, Chico mudou de legenda, mas não de idéias. Segundo ele, o que mudou foi o próprio PT.
Professor de história da UFRJ e autor de mais de 20 livros, entre eles História da Sociedade Brasileira, Chico é um produto do movimento comunitário do Rio: no início dos anos 80 foi presidente da Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio (Famerj).
Chico Alencar carrega no currículo dois mandatos como vereador (1989-1996), um como deputado estadual (1999-2002) e mágoas, como a da campanha à prefeitura em 1996, na qual foi abandonado pela direção do partido. Aos 55 anos, ele se prepara agora para tentar a reeleição para a Câmara.

Leia entrevista de Chico Alencar pelo jornalista Paulo Celso Pereira, do Jornal do Brasil, publicada em 03/10/05

-Diante do desencanto, quero assumir tarefa meio "quixotesca" de dizer que a política é a dimensão suprema do amor próximo.

# Como o senhor avalia a história do Partido dos Trabalhadores?

- O PT é uma construção dos movimentos populares da segunda metade dadécada de 1970 e do início dos anos 1980. Ele é fruto desse processo belíssimo de vivificação da sociedade civil, da luta dos sindicatos, associações de moradores, do renascimento da UNE, das Comunidades Eclesiais de Base e do retorno de muitos exilados políticos, que tinham empunhado armas contra a ditadura, mas fizeram uma revisão crítica do stalinismo e do autoritarismo da esquerda. Foi algo marcante e que dificilmente se repetirá na história. O partido viveu um quarto de século tentando fazer uma ponte entre a sociedade e a ocupação de espaços institucionais. Só que a cabeça institucional foi crescendo e o corpo social ficou esquecido. Tornou-se cada vez mais um partido do aparato estatal e da ocupação de espaços de governo. Isso é importante. Mas manter a tensão crítica entre a base e a cúpula é uma necessidade. A idéia de chegar ao governo e ocupar mais espaços de poder foi ganhando força e a cada campanha de Lula perdia-se um pouco do antigo élan.

# Como foi a evolução das campanhas do partido?

-Em 1989 aconteceu o susto das elites. Uma campanha memorável, pegando R$ 1 na porta das fábricas para fazer as finanças e tendo a TV dos Trabalhadores como produtora independente dos nossos programas.

Chegamos quase lá. Só que 1990 foi a década neoliberal, do desmonte do Estado. As idéias privatizantes ganharam a disputa na sociedade. Até que chegamos a 2002, quando o pragmático superou o programático e o Lula condicionou: "Só me candidato se puder fazer todas as alianças possíveis e se pudermos ter o melhor marketing político". Aí entramos na era Duda Mendonça, que foi uma das razões da nossa desgraça.

# Aderiu à teoria de só disputar para ganhar?

-Exatamente. Depois da memorável campanha de 1996 à prefeitura, Lula foi lá em casa, no meu morro, e disse: "Chico, já me ofereci muito ao povo brasileiro com a nossa marca, nossa cara, que é muito radical, muito autêntica; mas, sem aliança ampla, a gente não ganha. Agora, só sou candidato se for para ganhar. Se o PT ficar enchendo muito o saco para reduzir a base de aliança, só a esquerda, estou fora!" Então ele impôs a aliança com o PL. Lembro-me do 2º Encontro Nacional de Fé e Política, em Poços de Caldas, no início de 2002. Quando Lula entrou no ginásio lotado, o público começou a gritar: "PL não, aliança é com o povão!". E ele, muito habilidoso, falou que depois daríamos razão a ele. Bom, Lula venceu.

# Mal ou bem, a eleição foi a realização de um sonho?

-Fizemos uma festa na Cinelândia. Sublimamos tudo que tinha havido a intervenção contra Vladimir Palmeira em 1998 para o governo do Estado com o apoio a Garotinho, o boicote a minha campanha em 1996. Sublimamos tudo. Lula chegou lá, foi uma tática essas concessões, inclusive ao marketing caro, mas ninguém sabia de esquemas de finanças. Imaginávamos que alguns empresários legalmente tinham contribuído, não sabíamos de nenhum esquema de doleiros nem de paraíso fiscal.

# Isso nunca passou pelo Diretório Nacional ?

-Não. Há três meses perguntei ao Delúbio Soares quem era Marcos Valério e ele disse que era apenas um amigo. No ano passado, antes das eleições municipais - quando o esquema estava montado para que a base aliada tivesse pelo menos metade das prefeituras do país e ao um vereador em cada um dos municípios - , propus no Diretório que aprovássemos resolução para prestar contas em tempo real. O Delúbio se insurgiu e cunhou uma frase que ficou famosa:

"Transparência assim também já é burrice. Ninguém vai fazer, por que vamos fazer?"

# O partido já era outro?

- Foi a tragédia do PT. Justo no seu grande teste, que era ser governo da República, o partido caiu em contradições e começou a ir celeremente na contramão da própria história. Nós não estamos saindo do PT, o PT é que saiu de si mesmo. O PT é que começou, como já aconteceu em vários partidos de esquerda do século 20, a fazer uma inclinação cada vez mais rápida para o centro e para a direita e a ter uma autonomização cada vez maior do governo em relação ao partido.

Símbolo disso é o Lula não ter ido votar nas eleições internas. Ele cada vez é menos petista, mas quer cada vez mais que o PT fique subordinado ao governo. José Genoino não foi presidente do PT, foi ministro sem pasta.

# Como chegou à decisão de sair do partido?

-Fiquei fazendo um inventário da minha atuação. Não tive um momento de alegria para comemorar nesse mandato que eu esperava ser o mais gratificante. Esse, que devia ser o governo das nossas vidas, foi o governo da nossa tragédia. Já chorei muito. Quando olho as novas gerações indagando "O que aconteceu?" e vejo que cada vez mais terei de dizer que fracassamos, sinto uma dor terrível. Esses dois anos e oito meses foram uma via crucis. Então, apostamos tudo na recuperação do partido, para que se tornasse a consciência crítica do governo. Mas perdemos. Na eleição, metade dos 300 mil votou pela continuidade do que está aí. Hoje, o Campo Majoritário e suas sublegendas já têm 51% do Diretório, sem contar o Movimento PT que sempre vota com eles. Por isso digo que, se o bom Raul Pont vencer, vai presidir mas não terá como dar a direção certa ao partido. Então decidimos mudar de enxada para continuar o plantio. Não dá mais para ser petista dentro do PT.

# E o P-Sol é um caminho?

-Escolhemos não fazer a opção mais fácil. Recebemos convites do PSB, do PPS e do PDT. Só que a cultura petista nos ensina a fazer partidos com base social e militância viva. Esses partidos são muito convencionais, acomodados à ordem institucional. O P-Sol é uma construção inaugural de ex-petistas. Mas só que a história é que vai dizer se temos ou não razão.

# E as acusações de oportunismo eleitoral?

-Isso é algo de que não podemos ser acusados. O PT vai cair muito no ano que vem, mas num cenário catastrófico elegerá pelo menos 45 deputados. E o P-Sol, num cenário muito otimista, fará no máximo 10 deputados. Teremos 30 segundos de TV. Como pode ser chamado de oportunismo eleitoral? Isso é um suicídio eleitoral.

# Como é seu relacionamento com Lula?

-Eu tenho... Eu tinha uma amizade pessoal com o Lula muito grande. Sei que ele sempre gostou muito de mim e vice-versa. Politicamente nunca batemos de frente. Mas hoje esse relacionamento não existe. Soube que ele estava muito magoado especialmente comigo e com o Valter Pinheiro. E também estou muito magoado com ele, então empatou. Fomos nos distanciando, mas não demonizo o Lula, não o considero um inimigo da classe trabalhadora. Não consigo. Acho que ele perdeu uma chance histórica. O governo Lula é uma aposta perdida, é uma promessa não realizada. Essa dor vou carregar para o túmulo. É um fracasso meu também. Meu filho costumava perguntar "Qual foi o melhor presidente do país?" E eu dizia: "Nenhum, o melhor mesmo está para chegar, Luiz Inácio Lula da Silva". Hoje, acho que morrerei sem responder essa pergunta.

# A política piorou nos últimos anos?

-Piorou. Porque os elementos que mais se agregaram à política foram o desencanto e o conformismo. Então comenta-se: "Se nem o Lula conseguiu mudar, se o PT está aí comprando voto, ninguém conseguirá mais nada". O maior dano é fazer com que as pessoas comuns desacreditem na política como meio de mudar suas vidas. É o maior dano da era Lula: ele, que é produto do crescimento da consciência política da classe trabalhadora, provocou uma despolitização pelo desencanto e pelo descrédito.