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Resolução ao DN do PSOL sobre o momento
político:
Os trabalhadores não devem pagar a conta da crise
A crise econômica mundial chegou com força ao Brasil. Os
dados divulgados sobre a queda do PIB mostram que a crise, que atinge
as principais economias capitalistas do mundo, já chegou ao país
e é uma das mais graves da história.
O governo Lula errou fragorosamente ao não prever os impactos imediatos
da crise sobre os brasileiros. Primeiro Lula falou em "marolinha",
agora tem subestimado seus efeitos. Todas as previsões foram desmentidas
pelos fatos e o governo toma iniciativas que beneficiam os capitalistas
enquanto o povo amarga o aumento do desemprego e da miséria.
Se alguém ainda tinha dúvidas, a queda do PIB de 3,9%,
a retração do consumo das famílias em 2%, a queda
dos investimentos em 9,6%, fica claro que o próprio governo continua
subestimando o impacto da crise econômica e mantém o mesmo
modelo econômico que torna o país mais vulnerável
aos seus impactos. A onda de desemprego começou forte em dezembro
com o anúncio de 654 mil demissões. Os efeitos imediatos
foram sentidos nos setores mais vulneráveis da força de
trabalho, como as mulheres, os negros e os jovens, como apontaram os dados
do IBGE de demissões concentradas
nessas faixas da população. Mas, o ano começou com
demissões em empresas reconhecidas e nos últimos meses se
estendeu para empresas de ponta, como foi o caso das 4.270 demissões
na EMBRAER.
O PSOL apoiou e vem apoiando todas as lutas contra as demissões
e se fez presente tanto nas assembléias da EMBRAER para prestar
solidariedade aos trabalhadores da empresa, como tem agido para ampliar
politicamente o fato. Foi a bancada do PSOL que pautou a audiência
com o presidente Lula e a audiência pública na Câmara.
O caso da EMBRAER mostra que no espectro
político-partidário, para além da luta sindical,
é o PSOL que tem as melhores condições de se apresentar
como uma alternativa de esquerda para os trabalhadores.
A diminuição dos juros pelo Banco Central, da ordem de
1,5%, mostra quanto a ortodoxia neoliberal comanda a política econômica
do governo Lula e mantém os juros nas alturas, quando todos os
países do mundo os reduzem. Isso mostra que os bancos ditam regras
e reagem ferozmente a qualquer possibilidade de perda e o governo adota
a linha da "menor resistência", entregando na prática
a definição da taxa de juros nas mãos do capital
financeiro. Contra todas as evidências em contrário o Brasil
continua o campeão dos juros altos no mundo, mesmo comparado às
economias
em situação pior e que baixaram os juros numa proporção
bem maior.
O governo Lula não se prepara para os impactos da crise com medidas
efetivas como a queda substantiva da taxa de juros, a diminuição
do superávit primário para ampliar os gastos nas áreas
sociais ou um giro na política econômica neoliberal. E trabalha
com o falso pressuposto que o país
está mais preparado para enfrentá-la e terá reflexos
menores que as economias capitalistas centrais.
Isso faz com que o modelo econômico neoliberal seja mantido em
suas premissas principais como a alta taxa de juros, a dívida pública
como corolário de nossa dependência e o câmbio sobrevalorizado.
O governo Lula atende às pressões dos setores dominantes
para responder à crise. De concreto só operou medidas para
salvar bancos, montadoras e empreiteiras. E não protege os trabalhadores
e os mais prejudicados com a crise, que perderam seus empregos e têm
seus salários rebaixados.
Isso tem levado o governo a respostas inseridas no modelo econômico
ditado pelos interesses do capital. Quando adota uma política de
despejar recursos do Estado na economia o faz a partir da pressão
daqueles mesmos setores que tiveram altos lucros no passado e participaram
da especulação financeira. Os bancos pressionam para não
pagarem os custos da crise que eles mesmos
desencadearam e são atendidos através da liberação
do compulsório, da redução de impostos e da política
de juros extorsivos do Banco Central. O agronegócio pressiona e
é agraciado com políticas de proteção aos
exportadores. As montadoras tiveram lucros altíssimos no passado,
estão
capitalizadas a ponto de enviarem 11 bilhões de remessas de lucro
ao exterior para compensar as dificuldades das matrizes, desencadeiam
demissões e férias coletivas e o governo ainda despeja recursos
sem nenhuma contrapartida social ou garantia do emprego. Enquanto isso
os governosLula e Serra despejaram 8 bilhões de reais em ajuda
para as montadoras. Ou seja, o governo e os trabalhadores brasileiros
passaram a financiar os prejuízos das matrizes no exterior.
Nesta conjuntura, marcada pela crise econômica, a direita conservadora
capitaneada pelo PSDB e DEM, mas com a sustentação de "parapartidos"
na imprensa burguesa e até mesmo na Justiça resolveu desencadear
uma ofensiva sobre os setores populares e de esquerda e sobre tudo aquilo
que possa representar contrariedade com seus interesses. Segue a mesma
lógica o
posicionamento do Jornal Folha de São Paulo em caracterizar o período
da ditadura militar como "ditabranda". O governo Lula e o bloco
de sustentação do governo, encabeçados pelo PT faz
o mesmo jogo da velha direita e aceita estes ataques, quando não
é protagonista direto dos mesmos, a exemplo das declarações
de Lula contra o MST, da perseguição contra o delegado Protógenes
Queiroz e a defesa de propostas de reforma partidária que tentam
restringir o espaço dos partidos políticos de esquerda.
Foi isso que esteve por trás da ofensiva de criminalização
dos movimentos sociais, cuja perseguição do MST pelo governo
do RS, com o fechamento de escolas conveniadas com o movimento, é
um retrato. Neste momento, o PSOL se solidariza com o Movimento dos Trabalhadores
Sem-Terra e com outros movimentos do campo que têm sido criminalizados
e reafirma seu compromisso com a luta pela reforma agrária.
A ofensiva conservadora da qual a direção do PT faz parte,
além da velha direita, também procura criminalizar o delegado
Protógenes Queiroz, cuja finalidade principal é desmoralizar
a Operação Satiagraha e salvar o banqueiro Daniel Dantas.
Isso fez ressuscitar a CPI dos Grampos que de nenhum indiciado se transformou
na CPI da Operação Satiagraha. Isso é uma completa
inversão de valores que liberta corruptos e acusa servidores públicos
por sua ação. O PSOL também se solidariza com o delegado
Protógenes Queiroz, o Juiz Fausto de Sanctis e o Procurador Rodrigo
de Grandis e exige a prisão imediata de Daniel Dantas, já
decretada pela justiça e ainda não cumprida.
O PSOL também é vítima da ofensiva conservadora
que visa destruir qualquer iniciativa à esquerda no espectro político.
Nossa companheira Luciana Genro é atacada pelo PSDB porque, cumprindo
seu dever, revelou graves denúncias de corrupção
sobre o governo de Yeda Crusius. E nosso companheiro Chico Alencar, sob
o qual não pesa nenhuma irregularidade, vem sendo atacado
por sua trajetória de transparência e ética na política.
O PSOL não se calará e reafirma o apoio aos nossos parlamentares
que sofrem ataques da direita conservadora.
A crise econômica abre um novo cenário a ser respondido
pelo PSOL. A primeira questão diz respeito ao debate político.
As cartilhas da doutrina neoliberal foram rasgadas pelo mundo afora nos
vultosos recursos que os Estados capitalistas despejaram para salvar o
setor financeiro. Tratou-se de
uma intervenção estatal totalmente pragmática para
socorrer o sistema, para que não vá à bancarrota.
Mas, se abriu no imaginário popular e no debate político
a idéia de que é bom o Estado intervir na economia, ao contrário
do que os neoliberais preconizavam. A retomada do papel do Estado e a
questão das estatizações voltaram à ordem
do dia. E os setores populares e progressistas devem travar um forte embate
ideológico, assentado em várias experiências na América
Latina, pois do contrário essas intervenções serão
apenas destinadas a socializar os prejuízos e salvar o capital.
A segunda questão diz respeito às alternativas que disputarão
as saídas para a crise, o que exige do PSOL a apresentação
de uma plataforma e a construção de uma alternativa política.
A questão a ser respondida é como fazer isso e qual a tática
necessária para enfrentar esta conjuntura.
O PSOL tem tomado iniciativas em várias frentes e alcançado
visibilidade no cenário político. O Partido já afirmou
sua imagem de combate à corrupção. Foram do PSOL
as principais iniciativas nesse terreno. A ação da bancada
do PSOL gerou uma forte pressão da opinião pública
pela transparência na verba indenizatória da Câmara,
como foi o caso do deputado Edmar Moreira (DEM). Foi ação
do PSOL/RS a revelaçao de esquemas de corrupção no
governo Yeda Crusius. O PSOL tem se somado à linha de frente da
defesa da apuração na operação Satiagraha
e pela prisão do banqueiro Daniel Dantas, em defesa do trabalho
do delegado Protógenes Queiroz.
Mas, é no campo da crise que a ação do Partido deve
ter maior impacto, a exemplo das importantes iniciativas em relação
aos trabalhadores demitidos da EMBRAER e ao projeto contra o desemprego.
Foi o PSOL, a partir de uma iniciativa do nosso companheiro Ivan Valente,
que propôs a CPI da Dívida Pública. A atividade realizada
no Fórum Social Mundial foi um importante pontapé para uma
campanha mais ampla que vise instalar efetivamente a CPI e mostrar para
os trabalhadores e a opinião pública a necessidade de abrir
a caixa preta da dívida no Brasil. Os números são
incontestáveis e mostram que a sangria dos recursos nacionais continua.
Em 2008, somente em juros e amortizações foram gastos R$
282 bilhões, o que significa 30,6% do orçamento do país.
Se juntássemos tudo aquilo que foi gasto com educação
(2,57%), saúde (4,81%), habitação (0,02%) saneamento
(0,05%), segurança pública (0,59%) não chegaríamos
nem a um terço do montante gasto com a dívida.
A questão da dívida pública assumirá relevância
ainda maior, resultado da crise, pois com a redução da arrecadação
de impostos e isenções haverá uma forte pressão
dos recursos do Estado que ampliará sua dívida. O governo
não pode continuar destinando quase metade do orçamento
em pagamentos de juros, amortizações e rolagem da dívida.
Esta iniciativa do PSOL vem conquistando a adesão do MST, de setores
da Igreja, Pastorais Sociais, do movimento sindical, de economistas, nas
universidades. Mas, é preciso que o PSOL esteja à frente
de uma campanha pela instalação imediata da CPI da Dívida.
Sua efetivação só ocorrerá se conseguirmos
organizar, em conjunto com outros setores, uma mobilização
da
sociedade pela sua instalação. A CPI além de ser
uma resposta efetiva para a crise, possibilita ao PSOL se articular com
setores combativos dos movimentos sociais e nos conecta com as ações
mais progressivas na América Latina, como o processo de auditoria
da dívida do Equador.
Isso abre o debate sobre como as forças de esquerda, socialistas
e do campo progressista devem enfrentar a crise. Abre espaço para
a discussão de alternativas e se amplia a audiência para
nossas teses. O PSOL deve ser protagonista na ampliação
da unidade entre os trabalhadores. O lema
"unidade com todos aqueles que lutam" deve orientar a ação
partidária nesse período e deve guiar também a ação
do PSOL no movimento sindical, popular e estudantil. O PSOL já
tem a marca da luta contra a corrupção, o que deve continuar
a provocar as iniciativas do partido. Mas, o momento conjuntural exige
ainda mais que as ações do partido em relação
à crise econômica, em defesa do emprego, do salário,
dos direitos sociais e contra as demissões adquiram centralidade
e principalidade. Isto também sinaliza para amplos setores que
o PSOL busca construir uma plataforma unitária do ponto de vista
dos trabalhadores para enfrentar a crise baseadas nos pontos já
elencados na última Executiva Nacional e que serão mais
desenvolvidos.
No momento atual em que se aguça a disputa entre os dois principais
partidos do bloco de poder (PT e PSDB), com a antecipação
do calendário eleitoral, com Dilma e Serra procurando polarizar
as eleições de 2010, o PSOL deve procurar apresentar e construir
uma plataforma comum de todos os lutadores do povo e dos trabalhadores
para enfrentar a crise. E deve disputar nos
movimentos sociais e no movimento sindical com a influência das
entidades do governismo que, ao precisarem poupar o governo da crise,
não poderão alertar os trabalhadores de sua gravidade. Isso
torna necessário para o PSOL e as forças de esquerda a apresentação
de uma candidatura alternativa de esquerda para encarnar uma plataforma
de mudanças para enfrentar a crise.
Neste momento o PSOL envidará todos os esforços pelo Dia
Nacional de Lutas que ocorrerá no dia 30 de março. O PSOL
orienta toda a sua militância a somar esforços a essas atividades
que ocorrerão em várias cidades e categorias do país.
O ato é unitário e as forças do governismo também
disputarão que o governo Lula não tem nada a ver com a crise.
O PSOL orienta sua militância para apresentar nossas bandeiras,
nosso visual e nossa plataforma para enfrentar a crise e disputar na luta
nossa visão política. O PSOL nacional jogará esforços
e recursos materiais, mobilização e visual que viabilizem
esta ação unitária.
Como parte da semana de luta votada no Fórum Social Mundial, o
PSOL está também impulsionando um ato nacional no RJ, em
02 de abril. Neste ato apresentaremos nossas propostas para a crise e
reafirmaremos a importância da unidade de ação para
combatê-la, propondo que o caminho iniciado no dia 30 de março
tenha continuidade. Neste ato apresentaremos a necessidade
da luta de massas e da construção de uma alternativa política
para o país. Dada a repercussão alcançada pela ofensiva
de mídia com o rebatimento em várias instituições
para livrar o banqueiro Daniel Dantas e abafar a repercussão da
operação Satiagraha, alavancada agora pela prorrogação
da CPI dos Grampos, convocando o delegado Protógenes Queiroz, na
lógica do investigador se transformar em investigado, entendemos
que o fato terá grande repercussão. Nesse sentido, o PSOL
deve liderar uma campanha para desmistificar essa manipulação,
tanto no depoimento do dia 01 de abril quanto no ato do Rio de Janeiro
no dia 2.
A reorganização do movimento sindical e o debate em torno
da reconstrução dos instrumentos de luta dos trabalhadores
será feito nesse cenário. O seminário do campo de
esquerda, Intersindical, Conlutas, Pastorais Sociais, Prestistas, MTL,
MTST no Fórum Social Mundial teve como desdobramento a iniciativa
comum de provocar um ato contra a crise, que gerou uma ação
que
desencadeou uma unidade mais ampla. O seminário também mostrou
a necessidade de superar o atual estágio de unidade dos setores
combativos e avançar para um instrumento superior à simples
dinâmica de somatória de aparelhos, construído na
luta e com unidade pela base.
É possível, necessário e decisivo aproveitar esse
momento de crise econômica e fortalecer os instrumentos de luta
dos trabalhadores. A crise tem mostrado que as entidades que mantêm
uma relação servil com o governo, como é o caso da
CUT e da Força Sindical, enfrentarão profundas contradições
no caso de uma alteração significativa da conjuntura. Mas,
também tem mostrado que
atitudes baluartistas e sectárias não encontram eco entre
os trabalhadores. É preciso armar o partido para enfrentar esse
desafio e dotá-lo de condições para ser protagonista
nesse processo de unidade.
O Partido de conjunto precisa estar atento para as conseqüências
da crise que já repercutem numa parcela da classe trabalhadora
e deve publicizar e emprestar todo seu apoio contra as demissões,
em que os patrões procuram resolver a crise jogando-a sobre as
costas dos trabalhadores.
O PSOL deve aglutinar forças com todos aqueles que lutam e fortalecer
a luta dos trabalhadores para enfrentar a crise. Será da capacidade
do partido de unir esses setores e se postular como alternativa política
na conjuntura através da força, do simbolismo e da expressão
de Heloísa Helena que aqueles sem-terra, sem direitos e "sem
voz" ou que não estão representados por suas entidades
atreladas à defesa incondicional do governismo poderão se
conformar como força política. A hora é de lutar
para os trabalhadores não pagarem a conta da crise. A hora é
de construir uma plataforma de luta dos setores populares. E a iniciativa
política deve ser do PSOL.
São Paulo, 21 de março de 2009.
Diretório Nacional do PSOL
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