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Um partido que aspira ser inteiro
 

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados e todos os que assistem a esta sessão ou nela trabalham:
Transcrevo artigo de minha autoria, publicado pelo Jornal do Brasil em 25/07/09, quando se realizou o II Congresso Estadual do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). O texto transcreve a trajetória deste que ousa afirmar-se como "um novo partido contra a velha política".

Um partido que aspira ser inteiro
Partido político, no Brasil, costuma ser um amontoado de interesses difusos (às vezes confusos) para desfrute das benesses do poder. Do antigo PSD, que de social e democrático pouco tinha, dizia-se ser "uma ostra incrustrada na nau do Estado". Por isso ganhou a definição antológica de sua ontologia "nem a favor nem contra, muito pelo contrário". Sempre à sombra do poder, sempre apoiando o poderoso de plantão. Não seria exagero enxergar nessa postura a do PMDB atual, que é o maior partido do país. Mas, além do governismo atávico de quase todos, é de espantar a falta de doutrina, de princípios, de coerência ideológica da quase totalidade de nossos partidos, passados 25 anos do último processo de democratização. O pragmatismo sem limites vigente faz adversários mortais de ontem abraçarem-se hoje, despudoradamente. As legendas só têm existência real no período eleitoral, quando saem à cata do que lhes dá nervo e vida por quatro anos: os votos do eleitorado. Fora desse "tempo da política", sua existência é meramente cartorial ou burocrático-institucional, nos teatros sem povo dos parlamentos municipais, estaduais e nacional.
O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), nascido há 5 anos, ousa afirmar-se como "um novo partido contra a velha política". Numa conjuntura extremamente adversa, originário da decepção com o "transformismo" e com o fiasco moral da experiência petista - que passou, no governo federal, a aderir às linhas de política econômica e de alianças que sempre condenara -, o PSOL busca resgatar antigas e saudáveis tradições da esquerda: disputar espaço na institucionalidade sem desvincular-se dos movimentos sociais, seu principal nutriente; não acomodar-se à ordem vigente e às seduções das mordomias do poder; operar em torno de idéias e causas, e não de acertos palacianos e cargos; cobrar permanentemente moralidade pública, baseada na austeridade e na transparência, sem fazer, entretanto, "cruzadismo moral" ou posar como "vestal"; estimular permanentemente a organização consciente e autônoma da população; manter o horizonte utópico de uma sociedade igualitária e substancialmente democrática, a sociedade socialista.
É nessa perspectiva que o PSOL realiza agora o seu II Congresso Nacional. A partir de nove alentadas teses (ver síntese em WWW.chicoalencar.com.br), que analisam desde a crise global até as realidades locais e as lutas específicas de gênero e comportamento, além de traçar cenários para 2010, os militantes são chamados ao debate. Estes envolveram, até agora, nada menos que 11.200 filiados, em mais de 500 reuniões por todo o Brasil. Dos Congressos Estaduais em curso sairão os delegados ao Congresso Nacional, marcado para o final de agosto em São Paulo.
Em linhas gerais e resumidas, o PSOL considera que a crise do capitalismo, embora muito profunda, não é "naturalmente" terminal. O sistema tem muitos modos e meios de sobrevivência. Mas sua essência é predatória: a crise não é só financeira e social, com o desemprego que provoca, mas também ambiental, ecológica. Um novo padrão de desenvolvimento precisará ser radicalmente sustentável e distributivista. Para o PSOL, o governo Lula, apesar da inegável popularidade do presidente, desconstituiu a vida partidária mais plena e deu continuidade, na macroeconomia, à linha de FHC, com o superávit primário sendo o eixo de suas políticas. É um governo que assegura a manutenção de lucros extraordinários para os banqueiros e a adesão acrítica dos mais pobres, com políticas compensatórias e assistencialistas. A corrupção, embora inerente ao sistema do lucro e do afã consumista-individualista, precisa ser combatida pontualmente, em cada situação que se revele. É paradoxal que Lula e o PT estejam empenhados hoje na sustentação do tradicional esquema do patrimonialismo, do fisiologismo, do clientelismo. Tudo em nome de uma "governabilidade" que dispensou e dispersou, tragicamente, as forças sociais de mudança presentes na primeira vitória de Lula, em 2002.
O PSOL, na auto-análise que o II Congresso propicia, reconhece também sua própria debilidade, com seu ainda incipiente enraizamento social e sua fraca presença nos movimentos populares e sindicais, muitos deles cooptados pelo oficialismo. Mas insiste em constituir-se pela base e em manter, através de seus parlamentares, uma permanente interlocução com a sociedade. Também considera que carece de direções mais ativas, orgânicas, e de núcleos locais vivos, que resgatam a boa política da sua contrafação grosseira, que é a politicagem demagógica, o eleitoralismo - geradores do imenso desencanto da população.
Uma certeza será ratificada no II Congresso do PSOL: o de que há, na sociedade brasileira, especialmente entre o povo trabalhador - aí incluída a classe média e a juventude - espaço para um partido autenticamente de esquerda, de massas e de militância, popular e democrático.
Chico Alencar é deputado federal (PSOL-RJ) e professor de Histórica (UFRJ)
Agradeço a atenção,

Sala das Sessões, 5 de agosto de 2009.
Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ

   
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