As deliberações
da noite de 26/8 na Câmara dos Deputados - com a maioria dos
deputados cheios do "gás" da liberação
das emendas individuais -merecem análise . Se o Acordo Santa
Sé /Governo Brasileiro já era questionável
em vários aspectos, o acordão com setores evangélicos
(não a totalidade), patrocinado por quase todos os partidos,
à exceção do PSOL, foi um absurdo.
O PL 5.598 - que "Dispõe sobre as Garantias e Direitos
Fundamentais ao Livre Exercício da Crença e dos Cultos
Religiosos" - é de autoria de George Hilton (PP/MG,
ligado à Igreja Universal do Reino de Deus), foi apresentado
em julho e tramitou numa celeridade inédita. E, com o relator
Eduardo Cunha (PMDB/RJ), avançou a toque de caixa em plenário,
sem ter sido sequer proposto no colégio de líderes.
.
É o "liberou geral": agora, quem quer que invente
uma 'instituição religiosa' terá sua organização
obrigatoriamente reconhecida pelo Estado no simples ato de criação,
independentemente de lastro histórico e cultural, doutrina,
corpo de crença. É o super-mercado aberto da "fé".
E a "instituição" poderá modificar
à vontade suas instâncias. E suas atividades gozarão
de todas as isenções, imunidades e benefícios
- fiscais, trabalhistas, patrimoniais - possíveis e imagináveis.
Além dos templos, vão atuar - sem qualquer supervisão
do Poder Público - na educação, no comércio,
nas comunicações... Declarando que "perseguem
fins de assistência e solidariedade social", vale tudo.
Parece que foi proclamada, irresponsavelmente, à meia noite
de ontem, a "República Mercantil Religiosa Eleitoral
do Brasil".
Com poucas vozes dissonantes, defensoras do Estado Laico: algumas
logo desautorizadas pelo PDT e pelo PV, a de três ou quatro
parlamentares ligados a denominações religiosas históricas
e nós, do PSOL, sem discrepâncias.
O PT, que já se auto-proclamou laico e republicano, mais
uma vez negou a si mesmo e calou, e consentiu, e articulou o esquemão
do incontrolável poder temporal a quem, em nome de Deus,
faz negócio com a generosa crença da nossa gente.
Pelo aprovado ontem, se confirmado pelo Senado, agora com o aparato
público também.
Impróprio o projeto, inexistente o debate, escandalosa a
tramitação.