10 de dezembro de 2009
Do Brasil de Fato
"Somos todos Sem Terra, e todos os Sem Terra somos nós.
Ali, nas estradas, marchando, desatando nós. Se Sem Terra
nada somos, e sem os Sem Terra? Que será de nós".
Assim o sociólogo Mauro Iasi abriu a noite em que cerca de
400 pessoas prestaram solidariedade ao MST. Parlamentares, intelectuais,
ativistas e estudantes lotaram o auditório da Associação
Brasileira de Imprensa (ABI) na quarta-feira (9/12), para condenar
a perseguição ao movimento.
As falas das muitas autoridades presentes eram uníssonas.
A criminalização ao MST representa a condenação
das lutas sociais e a inviabilização da atuação
de todos os movimentos. "Não constitui um fenômeno
qualitativamente distinto da criminalização da pobreza,
e suas estratégias de sobrevivência no capitalismo
transnacional do trabalho", afirmou o jurista Nilo Batista.
A todo momento, alguém lembrava a importância da solidariedade
ao MST. A força dos setores progressistas da sociedade depende
do combate à perseguição ao movimento.
Com a conivência dos três poderes, conduzida pela mídia
comercial, a construção da imagem negativa do MST
está entranhada na sociedade brasileira. A associação
entre seus militantes e criminosos se tornou frequente. "O
discurso assumiu contornos incomuns mesmo para essa direita",
afirmou o professor da UFRJ Roberto Leher. A estratégia política
seria aproveitar o episódio da Cutrale - em que sem-terras
derrubaram 16 pés de laranja numa fazenda grilada pela empresa
- para estigmatizar o movimento e instalar Uma Comissão Parlamentar
Mista de Inquérito (CPMI) contra o MST.
Também se ressaltou a necessidade de unidade na atuação
e a preocupação com as lutas futuras. "Temos
o compromisso de fazer com que nossos filhos sejam todos sem-terrinhas.
A luta não está só em nosso tempo", advertiu
o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). Além dele, também
estiveram presentes os parlamentares Alessandro Molon (PT), Paulo
Ramos (PDT) e Inês Pandeló (PT), entre outros.
Carlos Walter evocou o economista chileno Rafael Agacino para defender
a tese de que a criminalização das lutas sociais estrutura-se
na condenação do coletivismo. "O maior êxito
das políticas neoliberais não foi a flexibilização
da moral, ou a abolição das barreiras alfandegárias.
Foi a desconstrução da idéia de sujeito coletivo",
disse. O intelectual considera que a pressão sobre o MST
mira na tentativa de construir sujeitos coletivos.
A dirigente do MST Marina dos Santos resumiu o espírito
dentro do movimento. "Nós não vamos ceder um
milímetro na luta contra o Capital no campo. Não vamos
ceder um milímetro em todas as lutas para que o povo brasileiro
construa uma sociedade mais justa". Foi aplaudida de pé.
Antes do evento, houve a exibição de um vídeo
de apoio ao movimento, filmado no Uruguai. Personalidades como o
escritor Eduardo Galeano, e o recém-eleito presidente José
Mujica, da Frente Ampla, manifestaram solidariedade. Entre as falas,
apresentações artísticas animaram o enfeitado
salão. Os músicos Lucio Sanfilippo e Tiago Prata demonstraram
sintonia com o tema. Apresentaram belas versões de "Funeral
de um lavrador" e "Assentamento", de Chico Buarque.
MC Leonardo, o Coletivo de Hip Hop Lutarmada e os MC´s Delírio
Black e Mano Zeu também se apresentaram.
O ato foi organizado por movimentos sociais parceiros, junto a
centrais sindicais e mandatos parlamentares. Há alguns meses,
simpatizantes de todo o mundo já haviam elaborado, em solidariedade,
um "Manifesto contra a violência do agronegócio
e a criminalização das lutas sociais". Assinaram
o documentos Chico Buarque, Boaventura de Souza Santos, Antonio
Candido, Luiz Fernando Veríssimo, Sebastião Salgado,
Noam Chomsky, István Mészáros e Eduardo Galeano,
entre outros.
A mesa do evento reuniu alguns dos intelectuais e militantes mais
conhecidos na luta pelos direitos humanos. Além dos já
citados, o jurista Nilo Batista, o professor Roberto Leher e a coordenadora
do MST Marina dos Santos, também tiveram assento na mesa
a professora Virgínia Fontes, o magistrado Geraldo Prado,
os militantes da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência
Marcia Jacintho e Deley de Acari, o jornalista Mario Augusto Jakobskind
e a professora Anita Prestes.