Um ato público batizado de "Outra Maré é
possível" reuniu cerca de 500 pessoas na manhã
de domingo, dia 20 de setembro, na Vila do João, na Maré,
na Zona Norte do Rio. O objetivo foi protestar contra a violência
que instituiu o toque de recolher na comunidade, impedindo a presença
de crianças às aulas, por exemplo. Organizada por
entidades locais, entre elas a Redes de Desenvolvimento da Maré,
contou com uma caminhada pelas ruas da região, apresentação
de grupos culturais, programação infantil e participação
do bloco "Se benze que dá". O deputado federal
Chico Alencar (PSOL) destacou a necessidade do fim da violência
para que os moradores possam ter vidas dentro da normalidade. "É
um absurdo o que ocorre na Maré. A população
está refém. Nem mesmo as escolas estão funcionando
plenamente".
O padre João Carlos, da paróquia São José
Operário, afirmou que há três meses suspendeu
as missas noturnas, devido à falta de fiéis: "Cancelei
as celebrações à noite. Outras celebrações,
nas quais reuníamos de 400 a 500 pessoas, hoje mal recebem
100 pessoas. A igreja está toda furada por tiros. É
uma guerra sem fim e sem hora que, por incrível que pareça,
às vezes tem seu pico nas manhãs de sábado".
O religioso afirma que faltam ações de políticas
públicas, assim como diz ser necessária a união
das entidades e da população para conquista de melhores
condições que resultem em paz.
Durante o ato foi realizada uma caminhada pela Vila do João
até o Conjunto Esperança. Entre as reivindicações
estavam a volta da normalidade para o livre trânsito das pessoas
em frases como: "Queremos nossas crianças brincado nas
ruas e nas escolas; Queremos liberdade para de poder chegar e sair
de casa a qualquer hora; Não queremos mais corpos no asfalto;
Não queremos nossas escolas vazias; Não queremos nossas
casas invadidas; Não queremos nossa comunidade às
escuras; Não queremos nenhum tipo de violência e Queremos
a vida do povo da Maré respeitada ante de tudo".
A Maré reúne 16 comunidades, com cerca de 140 mil
moradores. Teve o recrudescimento da violência a partir de
junho, quando dezenas de pessoas foram assassinadas e outras ficaram
feridas. Os moradores afirmam que a violência está
sem controle e se queixam do fato de os governantes ignorarem os
fatos. Os organizadores pretendem, a partir do ato deste domingo,
criar um movimento de luta por "outra" segurança
pública, que assegure os direitos dos moradores da região.
A caminhada teve como fundo musical a voz de Jorge Aragão
com a música O Iraque é aqui, com versos como: "O
Iraque é aqui/Tá pegando aqui dentro/O Iraque é
aqui/O povo tá com medo/E há que se entender / Aqui
tudo é bom, aqui tudo é bom." Outra palavra de
ordem repetida foi "Não, não, não. Não
quero caveirão. Quero meu dinheiro em saúde e educação."
A Maré - Situada entre a Avenida Brasil, Linha Vermelha e
a Linha Amarela, à margem da Baía de Guanabara, as
comunidades da Maré são: Marcílio Dias, Praia
de Ramos, Roquete Pinto, Parque União, Rubens Vaz, Nova Holanda,
Parque Maré, Nova Maré, Baixa do Sapateiro, Morro
do Timbau, Bento Ribeiro Dantas, Conjunto Pinheiros, Vila dos Pinheiros,
Novo Pinheiros, Vila do João e Conjunto Esperança.
O complexo da Maré teve início nas décadas
de 30 e 40 do século passado, com a chegada dos primeiros
moradores à comunidade do Morro do Timbau.