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Diante do temor provocado pelo risco de pandemia da Influenza
A - H1N1 (gripe dos porcos), transcrevo o esclarecedor artigo de Mauro
Santayana, publicado no Jornal do Brasil, em 01/05/2009.
A gripe dos porcos e a mentira dos homens
"A gripe que assusta o mundo se iniciou em La Glória, distrito
de Perote, a 10 quilômetros da criação de porcos das
Granjas Carroll, subsidiária de poderosa multinacional do ramo,
a Smithfield Foods. La Glória é uma das mais pobres povoações
do país. O primeiro a contrair a enfermidade (o paciente zero,
de acordo com a linguagem médica) foi o menino Edgar Hernández,
de 4 anos, que conseguiu sobreviver depois de medicado. Provavelmente
seu organismo tenha servido de plataforma para a combinação
genética que tornaria o vírus mais poderoso. Uma gripe estranha
já havia sido constatada em La Glória, em dezembro do ano
passado e, em março, passou a disseminar-se rapidamente.
Os moradores de La Glória - alguns deles trabalhadores da Carroll
- não têm dúvida: a fonte da enfermidade é
o criatório de porcos, que produz quase 1 milhão de animais
por ano. Segundo as informações, as fezes e a urina dos
animais são depositadas em tanques de oxidação, a
céu aberto, sobre cuja superfície densas nuvens de moscas
se reproduzem.
A indústria tornou infernal a vida dos moradores de La Glória,
que, situados em nível inferior na encosta da serra, recebem as
águas poluídas nos riachos e lençóis freáticos.
A contaminação do subsolo pelos tanques já foi denunciada
às autoridades, por uma agente municipal de saúde, Bertha
Crisóstomo, ainda em fevereiro, quando começaram a surgir
casos de gripe e diarréia na comunidade, mas de nada adiantou.
Segundo o deputado Atanásio Duran, as Granjas Carroll haviam sido
expulsas da Virgínia e da Carolina do Norte por danos ambientais.
Dentro das normas do Nafta, puderam transferir-se, em 1994, para Perote,
com o apoio do governo mexicano. Pelo tratado, a empresa norte-americana
não está sujeita ao controle das autoridades do país.
É o drama dos países dominados pelo neoliberalismo: sempre
aceitam a podridão que mata.
O episódio conduz a algumas reflexões sobre o sistema agroindustrial
moderno. Como a finalidade das empresas é o lucro, todas as suas
operações, incluídas as de natureza política,
se subordinam a essa razão. A concentração da indústria
de alimentos, com a criação e o abate de animais em grande
escala, mesmo quando acompanhada de todos os cuidados, é ameaça
permanente aos trabalhadores e aos vizinhos. A criação em
pequena escala - no nível da exploração familiar
- tem, entre outras vantagens, a de limitar os possíveis casos
de enfermidade, com a eliminação imediata do foco.
Os animais são alimentados com rações que levam 17%
de farinha de peixe, conforme a Organic Consumers Association, dos Estados
Unidos, embora os porcos não comam peixe na natureza. De acordo
com outras fontes, os animais são vacinados, tratados preventivamente
com antibióticos e antivirais, submetidos a hormônios e mutações
genéticas, o que também explica sua resistência a
alguns agentes infecciosos. Assim sendo, tornam-se hospedeiros que podem
transmitir os vírus aos seres humanos, como ocorreu no México,
segundo supõem as autoridades sanitárias.
As Granjas Carroll - como ocorre em outras latitudes e com empresas de
todos os tipos - mantêm uma fundação social na região,
em que aplicam parcela ínfima de seus lucros. É o imposto
da hipocrisia. Assim, esses capitalistas engambelam a opinião pública
e neutralizam a oposição da comunidade. A ação
social deve ser do Estado, custeada com os recursos tributários
justos. O que tem ocorrido é o contrário disso: os estados
subsidiam grandes empresas, e estas atribuem migalhas à mal chamada
"ação social". Quando acusadas de violar as leis,
as empresas se justificam - como ocorre, no Brasil, com a Daslu - argumentando
que custeiam os estudos de uma dezena de crianças, distribuem uma
centena de cestas básicas e mantêm uma quadra de vôlei
nas vizinhanças.
O governo mexicano pressionou, e a Organização Mundial de
Saúde concordou em mudar o nome da gripe suína para Gripe-A.
Ao retirar o adjetivo que identificava sua etiologia, ocultou a informação
a que os povos têm direito."
Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 13 de maio de 2009.
Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ
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