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Um fantasma ronda a vida saudável e justa a que
todos temos direito: o do retrocesso ambiental do governo Lula. Isso confirma
a sombria realidade mundial, na qual o equilíbrio ecológico,
central para a sobrevivência do planeta, é tratado de forma
secundária, periférica, por quase todos os governos.
A subordinação das políticas públicas brasileiras
ao produtivismo insustentável e aos interesses dominantes do agrobusiness
fica patente na aprovação da Medida Provisória 458.
Sem vetos presidenciais, ela vai legitimar a grilagem de terras na Amazônia,
anistiando aqueles que cometeram o crime de apropriação
de grandes extensões de terras públicas.
O PSOL tem se colocado firmemente contrário a todas as iniciativas,
dos poderes Legislativo e Executivo, que estão desconstruindo os
avanços conquistados pela população brasileira.
Reagimos contra a flexibilização do Código Florestal,
a revogação da legislação que protegia as
cavernas, o auxílio, sem contrapartidas, à poluidora indústria
automobilística e à compra do automóvel individual.
Questionamos o decreto 6.848, que estipula um teto para a compensação
ambiental de grandes empreendimentos.
O senador José Nery, do nosso partido, como nós aqui na
Câmara, declarou voto contrário sobre a Medida Provisória
458, por considerar que ela entrega a maior parte dos 67,4 milhões
de hectares de terras públicas a grileiros, autodenominados empresários
rurais, que ocupam terras que, pela Constituição Federal,
não podem ser objeto de uso capião. "A medida é
um enorme empreendimento imobiliário para poucos, que não
beneficiará quem realmente tem direito às terras públicas
como posseiros, quilombolas, povos indígenas e outros sem-terra,
vítimas do processo da expansão do capital no campo",
afirmou nosso senador. Os grandes produtores (acima de 1.500 hectares),
que são minoria, ficarão com 49 milhões de hectares.
Já os pequenos, que representam 81,1%, ficarão com cerca
de 8 milhões de hectares.
O Procurador Federal do Estado do Pará, Dr. Felício Pontes,
reafirma esse posicionamento: "a MP 458 vai jogar por terra quinze
anos de intenso trabalho do Ministério Público Federal,
no Estado do Pará, no combate à grilagem de terras".
Registro, por fim, a posição de diversas Organizações
Não-Governamentais em importante alerta público:
Contra o desmonte da política ambiental brasileira
As organizações da sociedade civil abaixo assinadas vêm
a público manifestar, durante a Semana do Meio Ambiente, sua extrema
preocupação com os rumos da política socioambiental
brasileira e afirmar, com pesar, que esta não é uma ocasião
para se comemorar. É sim momento de repúdio à tentativa
de desmonte do arcabouço legal e administrativo de proteção
ao meio ambiente arduamente construído pela sociedade nas últimas
décadas. Recentes medidas dos poderes Executivo e Legislativo,
já aprovadas ou em processo de aprovação, demonstram
claramente que a lógica do crescimento econômico a qualquer
custo vem solapando o compromisso político de se construir um modelo
de desenvolvimento socialmente justo, ambientalmente adequado e economicamente
sustentável.
1. Já em novembro de 2008 o Governo Federal cedeu pela primeira
vez à pressão do lobby da insustentabilidade o modificar
o decreto que exigia o cumprimento da legislação florestal
(Decreto 6514/08) menos de cinco meses após sua edição.
2. Pouco mais de um mês depois, revogou uma legislação
da década de 1990 que protegia as cavernas brasileiras para colocar
em seu lugar um decreto que põe em risco a maior parte de nosso
patrimônio espeleológico. A justificativa foi que a proteção
das cavernas, que são bens públicos, vinha impedindo o desenvolvimento
de atividades econômicas como mineração e hidrelétricas.
3. Com a chegada da crise econômica mundial, ao mesmo tempo em
que contingenciava grande parte do já decadente orçamento
do Ministério do Meio Ambiente (hoje menor do que 1% do orçamento
federal), o governo baixava impostos para a produção de
veículos automotores. Fazia isso sem qualquer exigência de
melhora nos padrões de consumo de combustível ou apoio equivalente
ao desenvolvimento do transporte público, indo na contramão
da história e contradizendo o anúncio feito meses antes
que nosso País adotaria um plano nacional de redução
de emissões de gases de efeito estufa.
4. Em fevereiro deste ano uma das medidas mais graves veio à
tona: a MP 458 que, a título de regularizar as posses de pequenos
agricultores ocupantes de terras públicas federais na Amazônia,
abriu a possibilidade de se legalizar a situação de uma
grande quantidade de grileiros, incentivando, assim, o assalto ao patrimônio
público, a concentração fundiária e o avanço
do desmatamento ilegal. Ontem (03/06) a MP 458 foi aprovada pelo Senado
Federal.
5. Enquanto essa medida era discutida - e piorada - na Câmara
dos Deputados, uma outra MP (452) trouxe, de contrabando, uma regra que
acaba com o licenciamento ambiental para ampliação ou revitalização
de rodovias, destruindo um dos principais instrumentos da política
ambiental brasileira e feita sob medida para se possibilitar abrir a BR
319 no coração da floresta amazônica, por motivos
político-eleitorais. Essa MP caiu por decurso de prazo, mas a intenção
por trás dela é a mesma que guia a crescente politização
dos licenciamentos ambientais de grandes obras a cargo do Ibama, cuja
diretoria reiteradamente vem desconhecendo os pareceres técnicos
que recomendam a não concessão de licenças para determinados
empreendimentos.
6. Diante desse clima de desmonte da legislação ambiental,
a bancada ruralista do Congresso Nacional, com o apoio explícito
do Ministro da Agricultura, se animou a propor a revogação
tácita do Código Florestal, pressionando pela diminuição
da reserva legal na Amazônia e pela anistia a todas as ocupações
ilegais em áreas de preservação permanente. Essa
movimentação já gerou o seu primeiro produto: a aprovação
do chamado Código Ambiental de Santa Catarina, que diminui a proteção
às florestas que preservam os rios e encostas, justamente as que,
se estivessem conservadas, poderiam ter evitado parte significativa da
catástrofe ocorrida no Vale do Itajaí no final do ano passado.
7. A última medida aprovada nesse sentido foi o Decreto 6848,
que, ao estipular um teto para a compensação ambiental de
grandes empreendimentos, contraria decisão do Supremo Tribunal
Federal, que vincula o pagamento ao grau dos impactos ambientais, e rasga
um dos pontos principais da Declaração do Rio sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento, assinada pelo País em 1992, e que determina
que aquele que causa a degradação deve ser responsável,
integralmente, pelos custos sociais dela derivados (princípio do
poluidor-pagador). Agora, independentemente do prejuízo imposto
à sociedade, o empreendedor não terá que desembolsar
mais do que 0,5% do valor da obra, o que desincentiva a adoção
de tecnologias mais limpas, porém mais caras.
8. Não fosse pouco, há um ano não são criadas
unidades de conservação, e várias propostas de criação,
apesar de prontas e justificadas na sua importância ecológica
e social, se encontram paralisadas na Casa Civil por supostamente interferirem
em futuras obras de infra-estrutura, como é o caso das RESEX Renascer
(PA), Montanha-Mangabal (PA), do Baixo Rio Branco-Jauaperi (RR/AM), do
Refúgio de Vida Silvestre do Rio Tibagi (PR) e do Refúgio
de Vida Silvestre do Rio Pelotas (SC/RS).
Diante de tudo isso, e de outras propostas em gestação,
não podemos ficar calados, e muito menos comemorar. Esse conjunto
de medidas, se não for revertido, jogará por terra os tênues
esforços dos últimos anos para tirar o País do caminho
da insustentabilidade e da dilapidação dos recursos naturais
em prol de um crescimento econômico ilusório e imediatista,
que não considera a necessidade de se manter as bases para que
ele possa efetivamente gerar bem-estar e se perpetuar no tempo.
Queremos andar para frente, e não para trás. Há
um conjunto de iniciativas importantes, que poderiam efetivamente introduzir
a variável ambiental em nosso modelo de desenvolvimento, mas que
não recebem a devida prioridade política, seja por parte
do Executivo ou do Legislativo federal. Há anos aguarda votação
pela Câmara dos Deputados o projeto do Fundo de Participação
dos Estados e do Distrito Federal (FPE) Verde, que premia financeiramente
os estados que possuam unidades de conservação ou terras
indígenas. Nessa mesma fila estão dezenas de outros projetos,
como o que institui a possibilidade de incentivo fiscal a projetos ambientais,
o que cria o marco legal para as fontes de energia alternativa, o que
cria um sistema de pagamento por serviços ambientais, dentre tantos
que poderiam fazer a diferença, mas que ficam obscurecidos entre
uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e outra. E enquanto
o BNDES ainda tem em sua carteira preferencial os tradicionais projetos
de grande impacto ambiental, os pequenos projetos sustentáveis
não têm a mesma facilidade e os bancos públicos não
conseguem implementar sequer uma linha de crédito facilitada para
recuperação ambiental em imóveis rurais.
Nesse dia 5 de junho, Dia do Meio Ambiente, convocamos todos os cidadãos
brasileiros a refletirem sobre as opções que estão
sendo tomadas por nossas autoridades nesse momento, e para se manifestarem
veementemente contra o retrocesso na política ambiental e a favor
de um desenvolvimento justo e responsável.
Assinam: Amigos da Terra / Amazônia Brasileira; Associação
Movimento Ecológico Carijós - AMECA; Associação
de Preservação do Meio Ambiente e da Vida - APREMAVI; Conservação
Internacional Brasil; Fundação de Órgãos para
a Assistência Social e Educacional - FASE; Fórum Brasileiro
de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento
- FBOMS; Fórum das ONGs Ambientalistas do Distrito Federal e Entorno;
Greenpeace; Grupo Ambiental da Bahia - GAMBA; Grupo Pau Campeche; Grupo
de Trabalho Amazônico - GTA; Instituto do Homem e Meio Ambiente
da Amazônia - IMAZON; Instituto de Estudos Socioeconômicos
- INESC; Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia - IPAM; Instituto
Socioambiental - ISA; Instituto Terra Azul; Mater Natura; Movimento de
Olho na Justiça - MOJUS; Rede de ONGs da Mata Atlântica;
Sociedade Brasileira de Espeleologia; Via Campesina Brasil; WWF Brasil.
Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 10 de junho de 2008.
Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ
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