Nesta terça-feira
(25/8), a partir das 10h, a Comissão de Defesa dos Direitos
Humanos e da Cidadania da Alerj promoveu um debate entre autoridades
públicas, acadêmicos, parlamentares, funkeiros e a
sociedade civil que, ao final, resultou na consolidação
de um novo consenso em torno do funk. Este passa a ser reconhecido
como algo mais do que um gênero musical, como a manifestação
cultural mais importante do Rio de Janeiro na atualidade.
"Essa audiência foi muito importante porque reflete um
novo patamar no debate público em torno do funk. O funk hoje,
aqui, deixa de ser um caso de polícia. Essa é uma
página virada. O funk passa a ser tema de políticas
públicas nas áreas da Cultura e da Educação",
afirmou o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), presidente da
Comissão de Direitos Humanos, ao lembrar que na semana passada
intermediou reunião dos funkeiros, organizados na Associação
dos Profissionais e Amigos do Funk (APAFunk), com o comandante-geral
da Polícia Militar, coronel Mário Sérgio, que
resultou na promessa de uma nova conduta policial em relação
ao funk.
Marcelo leu, durante a audiência, ofício do presidente
da Alerj, Jorge Picciani, anunciando a votação de
dois projetos de lei propostos pelo mandato. Um prevê a revogação
de lei de autoria do deputado cassado Álvaro Lins, em vigor,
que tem sido usada pela polícia para reprimir o funk. Outro
projeto prevê o reconhecimento do funk como manifestação
cultural. A votação vai ocorrer em sessão extraordinária,
às 18h30 do próximo dia 1º/9.
Em nome do governo estadual, as secretárias de Cultura, Adriana
Rattes, e de Educação, Tereza Porto, assumiram o compromisso
público não só de reconhecer o valor do funk
para a sociedade como também a viabilização
dos meios para garantir a sua livre expressão cultural no
Rio de Janeiro.
"Gosto muito de baile funk", disse Adriana Rattes. "O
reconhecimento do funk como manifestação cultural
é um grande avanço institucional. O que se promove
hoje é um novo marco legal das políticas públicas
em relação ao funk, que envolve o reconhecimento também
do seu valor transformador. O funk tem a potência de transformar
a sociedade. Isso não é parceria nem intenção,
é compromisso", afirmou secretária estadual de
Cultura. "Reconhecer o funk como manifestação
popular, como linguagem, como cultura, é coisa óbvia",
disse Tereza Porto. "É claro que vai ser revogada essa
lei (que concede à PM o poder de censurar o funk)",
concluiu a secretária de Educação.
Metade da vida dedicada ao funk, o presidente da APAFunk, MC Leonardo,
afirmou: "A polícia não é o caminho. A
gente não precisa procurar o comandante de um batalhão
pra dizer que é um trabalhador. Ninguém aqui quer
o funk sob a tutela da polícia. O funk é democrático
e pagamos um preço alto por isso. A nossa luta é pela
unificação dos funkeiros, para que esqueçam
um pouco as suas carreiras, as suas empresas e se unam para lutar
pelo direito à cultura do Rio de Janeiro", disse MC
Leonardo, depois de lembrar da época em que, sem espaço
para trabalhar como funkeiro, teve que mudar de profissão
e dirigir táxi.
Para a artista Fernanda Abreu, o momento é favorável
para uma mudança de perspectiva do poder público em
relação ao funk: "Hoje, as autoridades estão
reconhecendo o funk como algo que é importantíssimo
e estratégico para o país". O antropólogo
Hermano Vianna, um dos primeiros a desenvolver estudos sobre o funk,
revelou que o gênero movimenta R$ 10 milhões mensais
no Brasil, embora em um contexto adverso e de bastante informalidade.
"Não conheço ação tão repressiva
contra qualquer outra manifestação cultural como ocorre
com o funk. Hoje, essa audiência, é sinal de que isso
pode mudar", disse o antropólogo Hermano Vianna.
A antropóloga Adriana Facina lembrou que a perseguição
ao funk ocorre hoje tal como já se deu com o samba, numa
época em que era tratado na mídia como algo "pernóstico,
negróide, ridículo" ou de "pretalhada",
expressões usadas em artigos de jornais quando Pixinguinha
e seus músicos viajaram para apresentações
na Europa no início do século passado. "Proibir
os bailes funks faz parte de um processo de criminalização
de jovens pobres, favelados, a maioria negra. É necessário
garantir aos pobres o direito de se expressar, jovens que a sociedade
vê como lixo, como se fosse melhor se não existissem.
O funk tem que ser assunto de cultura e não de polícia.
Essa é uma luta pela liberdade de expressão e pela
diversidade cultural", defendeu Adriana Facina.
O Legislativo e o Executivo federais também foram representados
na audiência. O deputado federal Chico Alencar (PSOL) comparou
a situação do funk na sociedade com a das milícias,
para mostrar que é possível, por meio da luta, promover
uma mudança de paradigmas na sociedade: "Está
acontecendo com o funk o que aconteceu com a negação
das milícias". O ministro da Cultura, Juca de Oliveira,
enviou a sua mensagem por carta: "Impedir que funkeiros se
reúnam em torno de sua música, de sua dança,
de suas festas é um remédio inadequado contra a criminalidade.
(...) Não podemos reprimir o funk, nem discriminá-lo
com preconceitos, tampouco proibir de qualquer modo a sua existência
e as particularidades de sua formação cultural".
Também participaram da audiência os parlamentares Alessandro
Molon , Paulo Melo e Luiz Paulo Corrêa da Rocha.
E, como não poderia deixar de ser, o funk entremeou os discursos
ao longo de toda a audiência. Os raps do Silva, da Liberdade
e Tá tudo errado, entre outros, tornaram-se trilha sonora
da discussão em torno da necessidade de estabelecer políticas
públicas que garantam a livre expressão do funk no
estado. "É som de preto, de favelado, mas quanto toca,
ninguém fica parado, tá ligado", lembrou Marcelo
Freixo, em citação dos versos de Som de preto, da
dupla Amilckar e Chocolate.
Fonte: Agência
Estado