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A leitura como decifração de enigmas
"O ato de aprender a ler é aprender a pensar, e pensar é
uma forma de ação. Assim, apesar dos vovôs e vovós
das antigas cartilhas serem dignos de todo respeito, aves e ovos dignos
de todo cuidado, o camponês precisa saber como se escreve o nome
da foice com que corta o capim e a cana, o pedreiro o nome do tijolo com
que constrói a casa, a cozinheira os nomes com que condimenta o
feijão e a farinha. Desenhando em letras e palavras a dor que o
pobre sentia na carne - mas sem esquecer os desenhos do sonho e da esperança!
- Paulo Freire inventou um Método, o seu, o nosso, o Método
que ensina ao analfabeto que ele é perfeitamente alfabetizado nas
linguagens da vida, do trabalho, do sofrimento, da luta, e só lhe
falta traduzir em traços, no papel, aquilo que já sabe e
vive no seu cotidiano. Maiêutico, socrático, Paulo Freire
ajuda o cidadão a descobrir, por si, o que traz dentro de si. E,
neste processo, aprendem o professor e o aluno: a um lavrador ensinei
como se escreve a palavra arado; e ele me ensinou como usá-lo!
- disse um professor rural. (...) O rei espanhol Afonso VI teria dito
certa vez: se Deus tivesse pedido a minha opinião antes de criar
o mundo, eu teria aconselhado alguma coisa bem mais simples, descomplicada.
Paulo Freire, de certa forma, descomplicou o ensino. Embora Deus nada
lhe tenha perguntado (isto é o que consta oficialmente, mas no
íntimo estou convencido de que perguntou sim, porque eles conversavam
muito!), Paulo criou alguma coisa mais simples, mais humana do que as
complicadas formas autoritárias de ensino que obstaculizavam o
aprendizado. Com ele aprendemos a aprender. (...) Meu semelhante a mim
se assemelha, mas não sou eu; a mim se assemelha: com ele me pareço.
Dialogando aprendemos, ganhamos os dois, o professor e o aluno, pois alunos
somos todos, e professores também. Existo porque existem. Minha
identidade sou eu e são os outros. Para que se escreva em uma página
branca é necessário um lápis preto; para que se escreva
em um quadro negro é necessário que o giz tenha outra cor.
Para que eu seja, é preciso que sejam."
Augusto Boal
"Frequentar livrarias para brincar de ver figuras e ler é
uma felicidade gratuita. Já passou pela sua cabeça que livrarias
são "playcenters"? Brincam as idéias com as palavras,
brincam os olhos com as imagens, brinca o nariz com os cheiros cheios
de memórias que moram nos livros, brinca o tato, os dedos acariciando
o papel liso como se fosse a pele do corpo amado... Literatura é
isso: quando alguém, deixando de usar as palavras como ferramentas
com funções práticas, se põe a usá-las
como se fossem brinquedos ou instrumentos musicais."
Rubem Alves
A criação do mundo
(revista e diminuída)
E no princípio era o verbo
depois o advérbio e o composto
veio então a raiz quadrada
povoar de teoremas as águas
do cérebro
com toda ciência - e muita, mas
muita paciência - criou
toda matéria que há
separando a geografia o mar
da terra
lá pela hora do recreio
vieram a arte e a história
dar seus palpites e foi depois da sétima aula
que o Professor descansou
não sem antes passar dois
mil anos de lição de casa
para que todos aprendessem
um pouco de tudo que há no mundo
e não levassem bomba no fim do ano.
Ulisses Tavares
A escrita como expressão e troca humanas
"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir
o irreproduzível, é sentir até o último fim
o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é
também abençoar uma vida que não foi abençoada."
Clarice Lispector
Razões de Ser
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
Preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá do céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias
peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas
Tem que ter por quê? Paulo Leminski
"Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual!
Tudo isso é quanto a vida vale... Se escrevo o que sinto é
porque assim diminuo a febre de sentir. (...) Como todos os grandes apaixonados,
gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre
inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio
externo, deixando que as palavras me façam festas (...) Por que
escrevo, se não escrevo melhor? Mas que seria de mim se não
escrevesse o que consigo escrever, por inferior a mim mesmo que nisso
seja? (...) Começo porque não tenho força para pensar,
acabo porque não tenho alma, para suspender. Este livro é
a minha covardia."
Fernando Pessoa
"Não tenho nenhum intuito especial ao escrever estas linhas,
não tenho nenhum objetivo, não tenho em vista nenhum fim.
Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes
descosidos monólogos, leia o que sinto sem o saber dizer; que essa
coisa tão rara neste mundo - uma alma - se debruce com um pouco
de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o
que eu fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me."
Florbela Espanca
Por que escrevo?
porque sou pouca e mínima
embora vária,
Porque não me basto.
Escrevo para compensar a falta,
porque não quero ser só raiz e haste
e preciso do outro
para dar sombra e fruto.
Olga Savary
"Inquietações coincidem entre o escritor e os seus
leitores... porque você escreve? é a primeira e universal
indagação. Um escritor respondeu que se parasse de escrever
morreria. Portanto, escrevia para não morrer. Uma mulher dizia
que escrevia para não enlouquecer. Outra revela o que faz para
ser amada. Sou das que escrevem como quem assobia no escuro: falando do
que me deslumbra ou assusta desde criança, dialogando com o fascinante
- às vezes trevoso - que espreita sobre nosso ombro nas atividades
mais cotidianas."
Lya Luft
"A ânsia de expressão e de clareza de pensamento nos
faz usar muito mais palavras do que as necessárias, nos faz repetir
frases ou idéias já ditas: nos faz ser redundantes. Pode
sintetizar. Mestre Drummond já dizia que escrever é cortar
palavras. E é. Tem vocação para escrever? Não
consulte livro algum por ora. Escreva, dê curso ao fluxo interior.
A correção virá depois. Começamos a escrever
para exorcizar os próprios fantasmas. Só depois descobrimos
a literatura.
Texto ágil, claro e preciso são virtudes. Não se
apresse. A pressa é inimiga da velocidade e a angústia é
a matéria-prima do escritor. Inclusive a angústia sobre
o próprio talento. Perdê-la é secar a fonte. Mantê-la
incomoda, mas impulsiona. Prossiga. E deixa a etapa crítica para
depois.
Depois de o texto escrito dormir, vale acordá-lo lentamente, deixá-lo
espreguiçar-se e começar a correção. Várias
vezes. Vários dias. Anos será melhor. Escritor é
excretor. Excreta o texto. Depois deve ser leitor implacável."
Artur da Távola
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