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Leitura e Cidadania
FLIST - Feira Literária de Santa Teresa, maio de 2009
 

A leitura como decifração de enigmas

"O ato de aprender a ler é aprender a pensar, e pensar é uma forma de ação. Assim, apesar dos vovôs e vovós das antigas cartilhas serem dignos de todo respeito, aves e ovos dignos de todo cuidado, o camponês precisa saber como se escreve o nome da foice com que corta o capim e a cana, o pedreiro o nome do tijolo com que constrói a casa, a cozinheira os nomes com que condimenta o feijão e a farinha. Desenhando em letras e palavras a dor que o pobre sentia na carne - mas sem esquecer os desenhos do sonho e da esperança! - Paulo Freire inventou um Método, o seu, o nosso, o Método que ensina ao analfabeto que ele é perfeitamente alfabetizado nas linguagens da vida, do trabalho, do sofrimento, da luta, e só lhe falta traduzir em traços, no papel, aquilo que já sabe e vive no seu cotidiano. Maiêutico, socrático, Paulo Freire ajuda o cidadão a descobrir, por si, o que traz dentro de si. E, neste processo, aprendem o professor e o aluno: a um lavrador ensinei como se escreve a palavra arado; e ele me ensinou como usá-lo! - disse um professor rural. (...) O rei espanhol Afonso VI teria dito certa vez: se Deus tivesse pedido a minha opinião antes de criar o mundo, eu teria aconselhado alguma coisa bem mais simples, descomplicada. Paulo Freire, de certa forma, descomplicou o ensino. Embora Deus nada lhe tenha perguntado (isto é o que consta oficialmente, mas no íntimo estou convencido de que perguntou sim, porque eles conversavam muito!), Paulo criou alguma coisa mais simples, mais humana do que as complicadas formas autoritárias de ensino que obstaculizavam o aprendizado. Com ele aprendemos a aprender. (...) Meu semelhante a mim se assemelha, mas não sou eu; a mim se assemelha: com ele me pareço. Dialogando aprendemos, ganhamos os dois, o professor e o aluno, pois alunos somos todos, e professores também. Existo porque existem. Minha identidade sou eu e são os outros. Para que se escreva em uma página branca é necessário um lápis preto; para que se escreva em um quadro negro é necessário que o giz tenha outra cor. Para que eu seja, é preciso que sejam."
Augusto Boal

"Frequentar livrarias para brincar de ver figuras e ler é uma felicidade gratuita. Já passou pela sua cabeça que livrarias são "playcenters"? Brincam as idéias com as palavras, brincam os olhos com as imagens, brinca o nariz com os cheiros cheios de memórias que moram nos livros, brinca o tato, os dedos acariciando o papel liso como se fosse a pele do corpo amado... Literatura é isso: quando alguém, deixando de usar as palavras como ferramentas com funções práticas, se põe a usá-las como se fossem brinquedos ou instrumentos musicais."
Rubem Alves

A criação do mundo
(revista e diminuída)

E no princípio era o verbo
depois o advérbio e o composto
veio então a raiz quadrada
povoar de teoremas as águas
do cérebro
com toda ciência - e muita, mas
muita paciência - criou
toda matéria que há
separando a geografia o mar
da terra
lá pela hora do recreio
vieram a arte e a história
dar seus palpites e foi depois da sétima aula
que o Professor descansou
não sem antes passar dois
mil anos de lição de casa
para que todos aprendessem
um pouco de tudo que há no mundo
e não levassem bomba no fim do ano.
Ulisses Tavares

A escrita como expressão e troca humanas

"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada."
Clarice Lispector

Razões de Ser

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
Preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.

Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá do céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.

A aranha tece teias
peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas
Tem que ter por quê? Paulo Leminski


"Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isso é quanto a vida vale... Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. (...) Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas (...) Por que escrevo, se não escrevo melhor? Mas que seria de mim se não escrevesse o que consigo escrever, por inferior a mim mesmo que nisso seja? (...) Começo porque não tenho força para pensar, acabo porque não tenho alma, para suspender. Este livro é a minha covardia."
Fernando Pessoa

"Não tenho nenhum intuito especial ao escrever estas linhas, não tenho nenhum objetivo, não tenho em vista nenhum fim. Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sinto sem o saber dizer; que essa coisa tão rara neste mundo - uma alma - se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que eu fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me."
Florbela Espanca

Por que escrevo?
porque sou pouca e mínima
embora vária,
Porque não me basto.
Escrevo para compensar a falta,
porque não quero ser só raiz e haste
e preciso do outro
para dar sombra e fruto.
Olga Savary

"Inquietações coincidem entre o escritor e os seus leitores... porque você escreve? é a primeira e universal indagação. Um escritor respondeu que se parasse de escrever morreria. Portanto, escrevia para não morrer. Uma mulher dizia que escrevia para não enlouquecer. Outra revela o que faz para ser amada. Sou das que escrevem como quem assobia no escuro: falando do que me deslumbra ou assusta desde criança, dialogando com o fascinante - às vezes trevoso - que espreita sobre nosso ombro nas atividades mais cotidianas."
Lya Luft

"A ânsia de expressão e de clareza de pensamento nos faz usar muito mais palavras do que as necessárias, nos faz repetir frases ou idéias já ditas: nos faz ser redundantes. Pode sintetizar. Mestre Drummond já dizia que escrever é cortar palavras. E é. Tem vocação para escrever? Não consulte livro algum por ora. Escreva, dê curso ao fluxo interior. A correção virá depois. Começamos a escrever para exorcizar os próprios fantasmas. Só depois descobrimos a literatura.

Texto ágil, claro e preciso são virtudes. Não se apresse. A pressa é inimiga da velocidade e a angústia é a matéria-prima do escritor. Inclusive a angústia sobre o próprio talento. Perdê-la é secar a fonte. Mantê-la incomoda, mas impulsiona. Prossiga. E deixa a etapa crítica para depois.

Depois de o texto escrito dormir, vale acordá-lo lentamente, deixá-lo espreguiçar-se e começar a correção. Várias vezes. Vários dias. Anos será melhor. Escritor é excretor. Excreta o texto. Depois deve ser leitor implacável."
Artur da Távola

   
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