Cobrar dos governos federal, estadual e municipal ações
para garantir a preservação do meio ambiente e o respeito
aos direitos dos trabalhadores da região, foi o resultado
da audiência pública realizada nesta segunda-feira,
dia 14, na Assembléia Legislativa (Alerj) para debater a
instalação da Companhia Siderúrgica do Atlântico
(CSA), em Santa Cruz. Convocada pela Comissão de Direitos
Humanos da Câmara dos Deputados, contou com a participação
do seu presidente, deputado Luis Couto (PMDB/CE), de Chico Alencar
(PSOL/RJ), Marcelo Freixo - Presidente da Comissão de Direitos
Humanos da ALERJ e do vereador Eliomar Coelho (PSOL/RJ), pescadores
e lideranças de movimentos sociais.
Frente a denúncias de que a Polícia Federal, a Marinha
e o Ibama têm atuado na repressão aos pescadores da
região, com acusações infundadas de práticas
contra o meio ambiente, Luis Couto afirmou que, é necessário
apuração imediata. Para o deputado "progresso
sem respeito aos direitos sociais, humanos e trabalhistas, não
pode ser progresso". Ratificou ainda a necessidade de envolvimento
dos Ministérios Públicos Federal e Estadual e das
Defensorias Públicas na apuração das irregularidades
denunciadas contra o meio ambiente e direitos trabalhistas. "A
CSA tem que ter maior monitoramento das empresas que contrata para
sua instalação".
Houve também questionamento quanto aos financiamentos do
BNDES a mega projetos que desrespeitariam as legislações
vigentes.
Chico Alencar afirmou que marcará audiências com os
ministros da Justiça, Tarso Genro e do Meio Ambiente, Carlos
Minc, para expor os problemas. De Genro buscará a reorientação
da ação da Polícia Federal e de Minc o reposicionamento
do Ibama. No âmbito estadual os deputados cobrarão
do Instituto Estadual da Água (Inea) informações
sobre o monitoramento da qualidade da água na baía
de Sepetiba, que segundo foi denunciado na audiência, não
é realizado desde 2006.
Também serão cobrados esclarecimentos das Secretarias
Estadual e Municipal de Saúde sobre a incidência de
doenças respiratórias e de pele. De acordo com registros
citados do Hospital Estadual Pedro II, 60% das crianças moradoras
de um conjunto habitacional próximo à empresa estão
com bronquite.
Sandra Quintela - economista do PACS (Instituto de Políticas
Alternativas para o Cone Sul) fez uma crítica ao modelo de
negócio da CSA, que será focado na exportação:
"Será um produto sem valor agregado. Tudo será
exportado para ser beneficiado na Alemanha e EUA. Será este
tipo de desenvolvimento que se deseja para o Rio de Janeiro?"
Eliomar Coelho também apontou beneficiamento à empresa
sem contrapartidas: "Foi um escândalo o que aconteceu
na Câmara. A maioria absoluta dos vereadores aprovou as isenções
de impostos sem que a empresa tenha que dar nada em troca para a
sociedade. Nessa obra falta preocupação com o ser
humano. Tínhamos que ter um Estudo de Viabilidade Social,
antes de deixá-la se instalar."
Segundo os dados apresentados, 8070 pescadores estão com
suas fontes de renda comprometidas e de forma indireta o empreendimento
afeta a população local que vive de atividades ligadas
ao turismo e à pesca artesanal.
Visita surpresa - Pela manhã Chico Alencar e Luis Couto,
acompanhados pela Coordenadora do Programa de Proteção
aos Defensores dos Direitos Humanos da Secretaria Especial dos Direitos
Humanos da Presidência da República, Clarissa Jokowski
e de Marisa Dreys, da Comissão de Direitos Humanos da Polícia
Rodoviária Federal, fizeram uma visita surpresa às
instalações da CSA. Foram recebidos pelo diretor jurídico
da empresa, Pedro Teixeira que os acompanhou na vistoria ao canteiro
de obras. Ele afirmou que as denúncias de irregularidade
são infundadas, e que para o setor de transporte contratam
empresas legalizadas, fiscalizam as condições dos
veículos e a documentação dos condutores.
Uma equipe de jornal que acompanharia a visita às obras foi
impedida de trabalhar nesta etapa. Chico apontou a contradição
entre o discurso e a prática da empresa: "Qual o tipo
de transparência a empresa defende se proíbe o acompanhamento
da visita pela imprensa?"
O empreendimento- A Companhia Siderúrgica do Atlântico
(TKCSA) foi lançada em 2006, com previsão de iniciar
a produção em 2009, prazo estendido para 01 de julho
de 2010. É um conglomerado industrial, siderúrgico
e portuário numa parceria entre a Vale e a alemã Thyssen
Krupp. Contará com uma usina siderúrgica, com capacidade
para produzir dez milhões de toneladas de placas de aço
semi elaboradas por ano; uma usina termoelétrica e um porto
com dois terminais. Será a maior planta siderúrgica
da América Latina.