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Senhor Secretário de Transportes do Estado do Rio de Janeiro:
 


Em artigo no jornal O Globo de 26/09/2009 o senhor diz sua opinião sobre a "covardia das pessoas em transformar tragédia em exploração política". Na verdade, essas pessoas são representantes do povo e foram eleitas para defender os direitos da população e assegurar que o Poder Público cumpra com suas obrigações.
Eu gostaria de saber qual seria sua opinião se estivesse em meu lugar? O senhor disse, no dia seguinte ao acidente, enquanto eu sepultava minha filha, que "se o sistema de freios tivesse falhado, teria havido uma catástrofe maior". O que seria para o senhor uma catástrofe maior? O senhor acha que para minha família essa tragédia foi pequena?
Não é responsabilidade do transporte público transportar pessoas em segurança? O senhor fala de dor, mas sabe o que é isso? Se soubesse teria cuidado e zelo com o transporte de seres humanos, não tomaria a modernização como desculpa, diante de tantas evidências de falhas no sistema de freios, com todos os problemas que haviam acontecido e como a AMAST já havia alertado quando entrou com ação civil pública.
Como o senhor termina o artigo falando em dor, vou lhe dizer o que me dói muito mais, realmente: é a covardia de ver a irresponsabilidade deste governo fazendo testes com a vida humana, tendo permanecido com o "bonde modernizado" funcionando depois dos acidentes ocorridos. Colocando, com isso, em risco toda população de um bairro, transeuntes e turistas que usam os bondes como meio de transporte e lazer. Até que minha filha, como uma dessas cobaias, tivesse sua vida ceifada no auge dos seus 29 anos, com todo um futuro pela frente...
O que me dói muito também é saber que nós, cidadãos, que pagamos nossos impostos, portanto mantemos o Estado, somos tratados sem nenhum respeito e com grande descaso.
Quando esta tragédia que se abateu sobre minha família não apareceu ninguém do Poder Público para nos dar nenhuma assistência, sequer para prestar solidariedade. Tive que ir para o Rio de Janeiro acompanhada de um irmão e amigos, sem nada conhecer nesta cidade, para cumprir a triste missão de buscar o corpo de minha filha para o sepultamento.
Minha filha Andréa era um ser humano pleno em todos os sentidos, uma jovem linda, feliz, cheia de planos para sua carreira, uma pessoa que não admitia injustiças, sempre preocupada com as questões sociais, cheia de amigos.
Era uma professora nata e me dizia sempre: "mãe, é isso que eu gosto de fazer". Por isso me dói também ouvir que minha filha "pulou do lado errado", como o senhor disse, ficando para ela a culpa pela própria morte!
Mas confio em Deus, como diz o Salmo 23: "o Senhor é meu pastor e nada me faltará".
Hoje, o que nos resta, - a mim, meu marido e minha outra filha - é somente chorar a perda e a saudade de nossa querida e muito amada Andréa. Isso sim, é o que muito, muito, muito nos dói.

Maria Aparecida de Jesus Resende
Mãe da professora morta no acidente de 6/08 em
Santa Teresa no Rio de Janeiro.

   
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