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Caro amigo Augusto Boal:
 

- Vou visitar o Boal, ele anda meio tristinho… - disse-me Maura, após a bonita caminhada na Zona Oeste neste 1º de maio, Dia Internacional dos Trabalhadores. Na concentração, um esquete, montado por jovens e pescadores, sobre os delitos ambientais e trabalhistas do megaempreendimento da Companhia Siderúrgica do Atlântico, na baía de Sepetiba, trouxe forte a sua lembrança, querido amigo.

Pedi à Maura que levasse um bilhete para você. Ali eu desejava saúde, paz e bem. E pedia, saudoso, seu retorno pleno às batalhas do dia a dia, que carecem de sua militância criativa. Não houve tempo para o manuscrito chegar às suas mãos, que vi entrelaçadas e frias, no crematório do Caju. Mais uma vez, pela última vez com seu corpo mortal, como o de todos nós, você estava em cena. Você protagonista, nós doloridos antagonistas deste espetáculo "do qual ser vivente algum pode escapar", como lembrou, há oito séculos, nosso compadre solar, aquele de Assis.

"O teatro é a primeira invenção humana, que nasce quando o ser humano descobre que pode observar-se a si mesmo, ver-se em ação, em situação", você nos ensinou. E riu do Parlamento - no caso, a Câmara Municipal do Rio, onde exercemos mandatos juntos, na mesma bancada - que nega, hipocritamente, ser um baita teatro: "teatro é conflito, contradição, contradição, enfrentamento, medição de forças".

Boal, como precisamos de sua disciplina, de sua inventiva, de sua ousadia, de sua generosidade! Você que rompeu com as más tradições da impontualidade, dos chavões, da ortodoxia, do egoísmo ilustrado de tantos de nós, da esquerda…

Você ´teatralizou` a obra do amigo Paulo Freire: da Pedagogia do Oprimido ao Teatro do Oprimido. Salas de aula e tablados da libertação! Paulo tão irmão que você, Boal, transvivenciou para o patamar da transcendência no mesmo 2 de maio, 12 anos depois do professor. Juntos num outro nível de vínculo, que não alcançamos, Paulo e Augusto observam, da eternidade, sua semeadura no tempo: "o ato de educar é rebeldia que implica denúncia da situação desumanizante e anúncio de sua superação", escreveu Freire. E você completou: "o oprimido deve ser ajudado a refletir sobre sua própria ação na ficção teatral, o que possibilitar-lhe-á autoativar-se para começar a mudá-la em sua vida real". Ambos souberam cumprir suas existências docentemente.

Cidadão, você nos mostrou, em suas andanças pelas esquinas vadias, escolas públicas, assentamentos de desterrados e clínicas psiquiátricas do planeta que todo ser humano é digno de cuidado e de ser possibilitado como tal. Fama, prestígio e poder nunca lhe seduziram. Como você gostava de dizer, seu teatro "é o da primeira pessoa do plural, ainda que seja absolutamente preciso começar pelo relato individual". Augusto humanista e humanizador, entusiasmado, apaixonado - "uma paixão é uma pessoa ou uma idéia que vale, para nós, mais do que a nossa própria vida".

Augusto Boal de vida plena e engajamento irrenunciável. "Embaixador" mundial do teatro, pela Unesco, onde você, há um mês, reiterando a indignação com a "globalização do lucro e do sabido, a favor da globalização do saber", nos desafiava a construir um outro mundo possível, "com nossas mãos, entrando em cena, no palco e na vida".

A sua despedida foi muito sofrida, Boal, pois você, incompatível com a morte, simboliza inteligência, luz, ação (só agora percebidas pelas câmeras da grande televisão…). Augusto pai amado, que o pranto de seus filhos Julian e Fabian e de tanto(a)s amigo(a)s só confirmava. Mas houve, como no seu teatro, o contraponto: esse adeus é sempre um 'até um dia`, ou um 'até breve`, como o parceiro Amir Haddad expressou: "acho que sou o próximo da fila…". Cecília, sua companheira de tanta estrada, deu o tom maior: "o que o Boal merece é ser lembrado pelo que fez, pelo que lutou. Memória de esperança, de alegria!"

Meu caro amigo, seus discípulos do Centro do Teatro do Oprimido o continuarão. E nós, apesar das limitações que você nos ajudou a em parte superar, também.

Adeus,

Chico Alencar

PS: Arena Conta Zumbi contou, há mais de quatro décadas, sua própria saga, Boal: "longe num tão longe além do mar,/ Zumbi guerreiro diz adeus pra quem vai ficar/ diz pra sua gente não desesperar/ Zumbi se foi, partiu, mas vai voltar/ Em cada negrinho que chorar…/ Zumbi meu pai, Zumbi meu rei, última prece que rezou/ foi da beleza de viver: Olorum Didê!"


   
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