A internet se tornou
um espaço para protestar e, às vezes, mobilizar as
pessoas em torno a questões que dizem respeito à nossa
vida em sociedade. Divulgam-se denúncias de corrupção,
análises sobre as políticas governamentais, abaixo-assinados
de proteção ao meio ambiente, convocatórias
para atos de rua.
Os meios para isso se multiplicaram: além do tradicional
e-mail, agora temos o twitter, os blogs, orkut e tantas outras ferramentas.
Isso torna as informações mais acessíveis,
democratizando um pouco o debate político.
Por outro lado, corre-se o risco de substituirmos a boa prática
democrática da organização presencial e das
ações públicas por um clique em nosso computador.
Nada substitui a confraternização dos que lutam por
alguma mudança na sociedade. É importante olhar nos
olhos, trocar impressões, e construir coletivamente alternativas
globais de transformação social.
Por isso é oportuna a reflexão apresentada por Adelécio
Freitas, um cidadão que não conheço, em mensagem
que correu blogs e listas na internet sobre a crise que vive o Senado.
Adelécio pode existir ou ser um personagem, dúvida
recorrente no universo virtual. Mas, com pseudônimo ou não,
ele expressa de forma brilhante a omissão que muitos "cidadãos"
brasileiros apresentam frente aos escândalos que mais uma
vez voltam à cena política brasileira.
Sarney e Eu, *por Adelécio Freitas (um BMB legítimo).
Algumas semanas atrás recebi um email sobre uma manifestação
na frente do Congresso Nacional pedindo "Fora Sarney".
Na hora fiquei bastante animado, encaminhei o email para toda a
minha lista de contatos e pensei que finalmente as pessoas iriam
se indignar e reagir à tanta sujeira.
No dia da manifestação me bateu uma preguiça...
após um longo dia de trabalho o cansaço me venceu
e, afinal, quem iria sentir a minha falta?
No dia seguinte eu procurei eufórico, nos sites de jornalismo,
sobre a tão falada manifestação que foi toda
planejada em comunidades virtuais e bastante divulgada pelo twitter.
Para a minha surpresa não existia nenhuma manchete, nem ao
menos uma nota de rodapé . Resolvi entrar em uma das comunidades
do orkut que organizaram a manifestação, e para a
surpresa de todos, apenas cinqüenta pessoas se dispuseram a
ir para a frente do Congresso.
Apenas 50 pessoas? Sendo que eu sozinho divulguei para mais de 1000?
Que povo mais acomodado, pensei indignado. Porque será que
eles não foram?
Não demorou muito para a ficha cair. Eles não foram
pelo mesmo motivo que eu não fui. Esperava que "alguém"
fosse no meu lugar.
Recostei-me na poltrona em frente à televisão e olhei
para a janela do meu apartamento, que refletia a minha imagem. Fiquei
olhando para mim e para a minha confortável inércia.
Foi quando de súbito, eu tive a arrebatadora visão
daquilo que sempre procurei e nunca encontrei, o meu verdadeiro
papel na sociedade.
"Que bunda- mole!!!".
Finalmente, depois de tantos anos de crise existencial, pude perceber
que eu era uma peça importante na sociedade, um legítimo
Bunda-mole brasiliense (ou BMB).
Existem bundas-moles municipais e estaduais, mas eu tenho orgulho
de dizer que sou um bunda-mole federal!! Nas minhas viagens de férias
sempre algum engraçadinho vinha falar: "De Brasília,
ne....Já tem conta na Suíça?". Eu ficava
indignado, falando que eu era um funcionário público
concursado, que pagava os meus impostos, enquanto o povo que roubava
vinha de fora e blá blá blá. Mas agora eu vejo
com nitidez que eu tenho um papel importante nesse cenário.
Eu, como um legítimo BMB, ajudei a criar esta barreira de
proteção que mantém os verdadeiros FDP livres
para fazerem o que bem entenderem.
Eu acho que as coisas estão bem do jeito que estão.
Tenho dinheiro todo mês para pagar a prestação
do meu carro 1.0 e do meu apartamento de dois quartos, frequento
uma academia para queimar o meu excesso de ociosidade, tenho meu
smart phone comprado na feira do Paraguai, e no final do ano ainda
vou ficar um mês em uma casa de praia alugada junto com a
minha família para a incrível experiência de
assarmos como batatas na areia... Mais BMB impossível!!
Nas sextas-feiras, eu me sento com os meus amigos em um barzinho
e, depois do terceiro copo de cerveja, soltamos toda a nossa indignação
contra a patifaria que rola solta em Brasília. Cada um conta
um caso de um amigo próximo que enriqueceu da noite para
o dia às custas do dinheiro público (o difícil
é disfarçar aquela pontinha de admiração
pelo "ixperto"). Depois traçamos os planos para
endireitar o país. Planos que vão embora pelo ralo
do mictório antes de pagar a conta. BMB de carteirinha!!
Os anos passam e as conversas vão mudando: PC Farias, anões
do orçamento, precatórios, privatizações,
dólar na cueca, mensalão, sanguessugas, vampiros,
Lulinha Gamecorp, Daniel Dantas, o dono do castelo, Petrobras, e
agora a cereja do bolo, ele, o único, o inigualável
Sarney! Sarney é como um ícone do atraso nacional
(clientelismo, fisiologismo, nepotismo, coronelismo, apropriação
da máquina pública, desvio de verbas públicas
etc), mas o que seria do Sarney sem a legitimidade dos BMB´s?
O que seria da ilha da fantasia, dos cabides de emprego, dos lobistas,
do QI (quem indicou), dos cargos de confiança, dos funcionários
fantasmas, dos atos secretos, sem a nossa apática presença?
Imaginem se no nosso lugar estivessem aqueles sul-coreanos malucos
que iam para a rua protestar partindo pra cima da polícia,
ou aqueles jovens em Seattle que furavam um forte esquema de segurança
da OMC para protestarem contra a globalização!
O BMB precisa ter o seu papel reconhecido, somos nós que
deixamos tudo correr frouxo, somos nós que damos uma cara
de democracia a este coronelismo em que vivemos. O nosso poder aquisitivo
acima da média nacional protege o Congresso e os palácios
da miséria e da violência que fervilham em nosso entorno.
Bundas-moles: vamos exigir os nossos direitos! Precisamos finalmente
mostrar a nossa cara. Nunca antes na história deste país
o 'bundamolismo' foi tão grande. Seja ele de centro, de esquerda
ou de direita. 'Bundamolismo' no movimento estudantil chapa-branca,
nos sindicatos que só vão para a frente do Congresso
para pedir aumento e nos artistas que se acomodaram no conforto
dos patrocínios oficiais.
Vamos exigir que se crie em Brasília o 'Museu do Bundamolismo
Nacional' na Esplanada dos Ministérios: uma enorme bunda
branca de concreto, que irá combinar muito bem com a arquitetura
de Niemeyer.
Assistimos de nossas poltronas o Brasil tomar o rumo da mediocridade,
sem um projeto à altura do seu papel de grande potência
ambiental do planeta, que pode liderar a nova economia limpa e inclusiva
que irá gerar milhões de empregos. Mas que faz o contrário,
age como a eterna colônia de exportação de matéria-primas,
fazendo vista grossa para o colosso chinês que irá
nos engolir com a sua máquina movida à destruição
ambiental e desrespeito aos direitos humanos, para criar uma efêmera
ilusão de prosperidade às custas de nossa biodiversidade
e da nossa água doce (estes sim, os nossos bens mais valiosos).
A 'bundamolização' é muito mais eficaz do
que o autoritarismo. Ela pode ser eletrônica, através
de novelas, vídeo cassetadas, big brotheres e cultos picaretas.
Pode ser química, com cerveja, maconha ou antidepressivos.
E também pode ser ideológica, com receitas milagrosas,
e debates calorosos que sempre desaparecem em um clicar de mouse.
Vivemos em uma sociedade anestesiada e chapada, sem rumo, imersa
em ilusões baratas.
O 'bundamolismo' nos une, não segrega ninguém, é
a democracia verdadeira, que brilha por debaixo de uma crosta de
hipocrisia e ignorância. E como toda ideologia que se preze,
nós temos o nosso avatar, o nosso guru. Aquele que nos trás
para a realidade e mostra quem realmente somos, revela o nosso eu
profundo, a nossa essência.
Obrigado, Sarney! Só você para tirar as minhas dúvidas
e me mostrar o mundo real por trás das ilusões. Sarney,
nós somos duas faces da mesma moeda. Somos Yin e Yang. Nós
somos os pilares deste país, um não existiria sem
o outro. A sua cara de pau só existe porque do outro lado
está a minha babaquice.
Bundas-moles de todo o país, uni-vos!!
Vamos celebrar a nossa mediocridade, vamos sair às ruas
gritando: Viva Sarney!! Viva Collor!! Viva Maluf!! Viva Roriz!!
Viva Gim Argello!! Viva Renan Calheiros!! Viva Romero Jucá!!Viva
o FHC!! Viva a República das bananas do Brasil!!!
Mas isso é pedir demais para um bunda-mole. Vou voltar para
a minha poltrona, o Jornal Nacional já vai começar.
Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 02 de setembro de 2009.
Chico Alencar
Deputado Federal, PSOL/RJ