"Trinta anos mudam muitas coisas na vida dos
homens, e às vezes fazem uma vida toda".
(O homem em revolta - Albert Camus)
Pouquíssimos são os homens e mulheres de minha geração
que não sonharam com um mundo diferente, mais justo. Entretanto,
(...) somente alguns decidiram lançar-se na luta, sacrificando
a própria vida.
A minha história pessoal é bastante conhecida para
voltar de novo às relações da escolha que me
levaram à luta armada. Apenas sei que éramos milhares,
e que alguns morreram, outros estão presos, e muitos exilados.
Sabíamos que podia acabar assim. Quantos foram os exemplos
de revolução que faliram e que a história já
nos havia revelado? Ainda assim, recomeçamos, erramos e até
perdemos. Não tudo! Os sonhos continuam!
Muitas conquistas sociais que hoje os italianos estão usufruindo
vieram graças ao sangue derramado por esses companheiros
da utopia. Eu sou fruto desses anos 70, assim como muitos outros
aqui no Brasil, inclusive muitos companheiros que hoje são
responsáveis pelos destinos do povo brasileiro. Eu na verdade
não perdi nada, porque não lutei por algo que podia
levar comigo. Mas agora, detido aqui no Brasil, não posso
aceitar a humilhação de ser tratado de criminoso comum.
(...)
Além de tudo, é surpreendente e absurdo que a Itália
tenha me condenado por ativismo político e no Brasil alguns
poucos teimam em me extraditar com base em envolvimento em crime
comum. (...)
E frente ao fato das enormes dificuldades de ganhar essa batalha
contra o poderoso governo italiano, que usou de todos os argumentos,
ferramentas e armas, não me resta outra alternativa a não
ser desde agora entrar em GREVE DE FOME TOTAL, com o objetivo de
que me sejam concedidos os direitos estabelecidos no estatuto do
refugiado e preso político. Espero com isso impedir, num
último ato de desespero, esta extradição, que
para mim equivale a uma pena de morte. Sempre lutei pela vida, mas
se é para morrer, eu estou pronto, mas nunca pela mão
dos meus carrascos. (...)
Agradeço aos companheiros que desde o início da minha
luta jamais me abandonaram. E àqueles que chegaram de última
hora, mas que têm a mesma importância. (...) Como última
sugestão, eu recomendo que vocês continuem lutando
pelos seus ideais, pelas suas convicções. Vale a pena!
Espero que o legado daqueles que tombaram no front da batalha não
seja em vão. Podemos até perder uma batalha, mas tenho
convicção de que a vitória nesta guerra está
reservada aos que lutam pela generosa causa da justiça e
da liberdade.
