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Dom Hélder, um dos líderes da Teologia da
Libertação, foi substituído no arcebispado de Olinda
e Recife por Dom José Cardoso Sobrinho em 1985, e desde então
um rigoroso expurgo de sua obra social e política vem sendo realizado:
foram fechados o Instituto de Teologia de Recife e o Seminário
Regional Nordeste II, fundados por Dom Hélder, considerados formadores
de religiosos esquerdistas.
Todos os antigos colaboradores de Dom Hélder foram retirados ou
se retiraram de suas funções.
Dois exemplos: padre Reginaldo Velloso, muito ligado ao seu antecessor,
era o pároco de uma das principais paróquias onde ocorre
anualmente, na festa de Nossa Senhora da Conceição, uma
grande peregrinação popular, com cerca de um milhão
de pessoas. Ligado às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), tinha
grande prestígio político.
Foi destituído de todas as suas funções, acusado
de desvirtuar a Igreja Católica e de conspirar contra o arcebispo.
Hoje está casado e continua ligado aos movimentos da Teologia da
Libertação.
Já o padre Edwaldo Gomes, para marcar os 50 anos de sacerdócio,
titular que era há 36 anos da paróquia do bairro de Casa
Forte, em Recife, celebrou missa na companhia de dois bispos anglicanos,
uma celebração ecumênica, como tentou explicar.
Dom José Cardoso Sobrinho pediu a Roma uma punição
para o padre, pois, pelo Código Canônico, bispos anglicanos
não podem participar de ritos da Igreja Católica.
Mesmo tendo pedido desculpas públicas, o padre Gomes foi afastado
por três meses da função de pároco.
Enquanto se tratava de uma disputa entre tendências da mesma Igreja
Católica, era possível que ambos os lados tivessem detratores
e defensores.
Mas a decisão de seguir ao pé da letra uma norma da Igreja
Católica - todo aborto merece uma excomunhão - sem levar
em conta as circunstâncias, que permitiram o aborto duplamente legal
- a concepção fora fruto de um estupro e a gravidez de gêmeos
colocava em risco a vida da mãe - e que poderiam, na interpretação
religiosa, servir de atenuantes, o arcebispo José Cardoso Sobrinho
demonstrou uma insensibilidade que não se coaduna com uma vida
cristã.
A repercussão, até internacional, política, cultural
e ética do caso, demonstra que a atitude radical do chefe da Igreja
Católica em Recife a coloca em flagrante distanciamento com o sentimento
generalizado da população brasileira, que ela deveria representar.
Essa "excomunhão genérica" que o arcebispo decretou
pode gerar até problemas jurídicos à luz do Direito
Canônico, lembra o deputado Chico Alencar, do PSOL, líder
católico ligado à Teologia da Libertação.
O nada piedoso prelado, ironiza Alencar, se alguém recorrer de
sua decisão de grande violência simbólica, terá
que detalhar no Vaticano, circunstância por circunstância,
ação por ação, o nome de cada um dos "envolvidos",
entre eles o maqueiro que levou a criança à sala de cirurgia,
a enfermeira que esterilizou os materiais, os médicos que fizeram
exame prévio na menina, o motorista da ambulância, a diretora
do hospital onde ocorreu o procedimento.
Por outro lado, confrontado com o fato de que o padrasto estuprador não
estava sendo punido pela Igreja, Dom José Cardoso deu mais uma
demonstração de insensibilidade ao afirmar que "tirar
a vida de um inocente" é pior que o ato de estuprar.
A comparação absurda torna inevitável a lembrança
da frase de Paulo Maluf que ficou eternizada no mundo político,
quando deixou escapar um comentário completamente absurdo que definia
bem seus valores morais: "Estupra, mas não mata", exclamou
Maluf num debate sobre a violência urbana, dando gradações
para a barbárie, assim como Dom José Sobrinho, sem nenhuma
piedade, arvora-se no direito de definir que um estupro é menos
grave do que a tentativa de salvar a vida de uma criança já
arrasada pela tragédia.
Que fé cristã é essa que coloca a estupidez do estupro
e os direitos da menina vítima, que precisa de paz e amparo para
se curar desse tremendo trauma, em segundo plano? Além de a decisão
radical revelar uma alma nada bondosa, o arcebispo de Olinda e Recife,
tão preocupado com as disputas políticas dentro da Igreja
Católica, deveria ter pensado que as igrejas neopentecostais, especialmente
a Igreja Universal do Reino de Deus, que têm posição
muito mais aberta que a católica nessa questão da interrupção
da gravidez, agradeceriam o ultraconservadorismo.
A Igreja já voltou atrás muitas vezes, e mais recentemente
até o Papa já retrocedeu de várias decisões
pelo clamor público. No século XVI, um papa decidiu "excomungar"
os fumantes, mas a força do lobby tabagista derrubou essa medida
drástica.
Seria encorajador para os católicos que a decisão radical
e desprovida de humanidade de excomungar os que participaram da decisão
e da cirurgia do aborto fosse reconsiderada por Dom José Cardoso
Sobrinho.
Sua luta contra os religiosos "progressistas" da Igreja Católica
poderia continuar sem que representasse uma visão desumanizadora
da Igreja Católica. Seria apenas a expressão conservadora
da Igreja, atualmente predominante.
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