|
Os êmulos da vida contemporânea - o poder,
o prestígio e o dinheiro - nos levam, muitas vezes, a esquecer
a nossa própria fragilidade. Somos seres pequenininhos, transitórios,
com prazo de validade e muitos defeitos de fabricação. O
nosso Adão Pretto tinha poucos. Ele cumpriu algo que o Presidente
Fernando Lugo, também um homem de trajetória mística,
religiosa, ex-bispo católico no Paraguai, disse agora no Fórum
Social Mundial: "Meus amigos de infância, que permanecem até
hoje - e esses são os mais fiéis -, lembram sempre que não
devemos perder duas virtudes fundamentais: a simplicidade e a humildade".
O Deputado Adão Pretto, o camponês Adão Pretto, o
membro das comunidades eclesiais de base Adão Pretto, o líder
sindical dos trabalhadores rurais e dos sem terra Adão Pretto estava
aqui, no seu quinto mandato, sem perder um milímetro da simplicidade
e da humildade, sem se inebriar com o poder, mesmo quando o seu partido
chegou à Presidência da República. Adão é
um exemplo. Adão merece a consideração de todos aqueles
que querem uma representação política mais autêntica,
algo de que nosso país tanto carece.
Adão - e todos nós, de certa forma, temos uma "sina"
vinculada ao nosso próprio nome - era pioneiro, na primordial atitude
de não perder a ligação com a terra, o barro do qual
somos feitos, a luta pela Reforma Agrária, com a busca da justiça.
Pretto, no sobrenome de origem italiana, com seus olhos muito azuis, que
enxergavam para além das aparências, também tinha
um compromisso fundamental contra o racismo, contra toda forma de discriminação.
Onde houvesse um clamor popular lá estava o Adão, acolhendo,
como poucos, os movimentos sociais. Nas celebrações da CNBB,
o Adão sempre lá, com a sua fé, o seu despojamento
e a sua combatividade. O Parlamento brasileiro e, mais do que ele, o povo
brasileiro perdem não propriamente um representante, mas um filho
dileto das suas próprias lutas.
Cumprindo a exortação de São Francisco de Assis,
a nós resta a única maneira concreta de homenagear aqueles
a quem admiramos: fazer o que eles fizeram. Cada um de nós - e
digo isso pela pequena e aguerrida bancada do PSOL, com quem Adão
tinha ótimas relações - tem o dever de ser um pouco
Adão Pretto, neste Parlamento e nas lutas da nossa gente.
Deus o acolha na Sua luz. Adão, humaníssimo, é húmus
que fecundará sementes de um amanhã mais justo.
Câmara dos Deputados, 11/02/09
Chico Alencar
PSOL/RJ
|