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PARA FAZER TODA A DIFERENÇA!
 

Vera Siqueira

(discurso do deputado federal Chico Alencar ao ser indicado, por aclamação, como candidato do PSOL e da Frente Rio Socialista à prefeitura do Rio – Câmara Municipal, Salão Nobre, 20/6/08)

Boa tarde, boa luta! Começamos bem, com este Salão Nobre repleto de gente simples e combativa, e esta mesa sem o desequilíbrio de gênero tão comum na política institucional: as queridas Heloísa Helena, nossa presidente, e Vera, nossa vice, representam a indispensável força feminina.

Acolho esta honrosa missão política sem qualquer pretensão messiânica, mas com muito entusiasmo. Com realismo face às dificuldades, mas sem perder a dimensão do sonho, da utopia, sem o que a política se corrompe. O Rio não pode continuar sendo um maravilhoso cenário para uma humanidade tão machucada, inclusive pela farsa dos que pretendem governá-lo.

O centenário da morte do carioca e afro-descendente Machado de Assis me fez lembrar que ele escreveu que “a vida política não difere muito da vida dos namorados”. Este é o nosso maior desafio na campanha que vai começar: produzir o reencantamento, o enamoramento pela política, hoje degenerada, em grande má parte, em politicagem, negociata, mentiras, arranjos de cúpula.

Esta nossa convenção, e todas as plenárias que a antecederam, fazem a diferença. Foram momentos apaixonados, de tensão e vigor, com esta culminância de tesão! Esta forma de fazer política não é rejeitada pela população – só não é muito conhecida...

O fato de realizarmos a oficialização de nossa chapa de vereadores e da majoritária da nossa Frente Rio Socialista, da coligação PSOL/PSTU, aqui na Câmara tem um significado especial para mim: serei o único candidato a prefeito que, quando vereador, junto com nosso “jovem há mais tempo” Eliomar Coelho, participou da elaboração da Lei Orgânica do Rio, expressão local do ascenso dos movimentos populares nos anos 80, e do Plano Diretor Decenal, que o atual prefeito não quis atualizar, desprezando os direitos da população fixados em lei, como de hábito. Ali aprendemos, em fortes embates, com as galerias cheias, que a luta faz a lei e que o fundamental é a responsabilidade social, à qual a responsabilidade fiscal tem que estar subordinada. De lá para cá, vimos que o desafio é fazer descer o bonito e justo que está no papel para a vida real, para o cotidiano do cidadão.

Campanha eleitoral, para nós, não é algo distinto da nossa batalha diária: todos aqui, sem exceção, somos militantes de movimentos por moradia, saúde, ambiente saudável, educação pública de qualidade, segurança para todos, direitos dos trabalhadores, participação estudantil. Aqui estão lutadores sociais! Que levarão para a campanha este diferencial, esta autenticidade. Não seremos forasteiros à cata de votos! Nem teremos cabos eleitorais pagos, recebendo trocados e quentinhas para segurar caras e números que escondem corações carreiristas e busca de bons empregos para aumentar patrimônio, além de impunidade criminal travestida de imunidade parlamentar.

Nossa Frente faz toda a diferença porque consolidada em princípios que nortearão nosso programa de governo popular e socializante. E para um legislativo realmente representativo, onde as maiorias sociais se tornem maiorias políticas e possam enfrentar as máfias que dominam nossa cidade, em especial na especulação imobiliária e nos transportes coletivos.

Para nós, PPP quer dizer participação popular permanente. E descentralização, com conselhos populares nos 160 bairros, nas mais de 700 favelas e nas 33 regiões administrativas. Praticaremos a transparência absoluta dos recursos públicos. Recursos que serão aplicados com inversão de prioridades e opção preferencial pelos empobrecidos e injustiçados da cidade, alvo de tanta demagogia e manipulação. Faremos um governo independente, que dialogará sem mesquinharias e sem rebaixamentos com outras instâncias de poder. Estabeleceremos metas para serem avaliadas semestral e publicamente. Ao contrário do que os conservadores e reacionários de todos os matizes, até disfarçados de “esquerda”, repetem, queremos ser pressionados, governar sob pressão e controle popular: para que o discurso em favor dos oprimidos vire ação concreta e transferência de recursos, materiais e simbólicos, para os “de baixo”, que fazem esta cidade funcionar. Sem eles não nos locomoveríamos, não teríamos teto, prédios – onde sequer subiríamos - ruas, comida, roupas, jornais, serviços. São os trabalhadores que fazem o Rio, e por isso têm direito à cidade!

Fazer um governo e ter uma Câmara norteados por estes princípios pressupõe um renascer da cidadania carioca que precisamos estimular. Promover esta verdadeira revolução urbana necessita do fim do torpor, da anestesia, da inação, do individualismo, resgatando a rebeldia e o alegre espírito crítico e mobilizador tão característico nosso. Só assim reconfiguraremos a cidade como espaço público, lugar de encontro e confronto dos citadinos. Só animando a reconstituição de sujeitos políticos coletivos – povo organizado nas ruas, bairros, escolas, locais de trabalho, e voltando às praças para clamar e reclamar – efetivaremos a socialização dos meios de governar, nosso compromisso fundamental.

Não tem jeito: todos são no governo o que foram na campanha. Se queremos prefeitura e mandatos de vereadores honestos e participativos, temos que fazer uma campanha participativa e franca, honesta, “franciscana e clara”. Assim faremos. Juntaremos o saber de especialistas e interessados que já deram uma base para nossos programas setoriais com o sentir sofrido da gente anônima, que abordaremos pedindo opinião sobre os problemas de cada bairro e da cidade, e os caminhos de solução. Não iremos às ruas simplesmente com o surrado “vote em mim”, mas com o desafiador “o que v. considera melhor para a vida carioca?”.

E já lançamos aqui um desafio: que todos os outros candidatos se comprometam a não gastar mais de R$ 400 mil na campanha majoritária. Para nós e para o cidadão comum isso já é dinheiro à beça, mas quem olhar os gastos declarados – sem contar o “por fora”, o caixa 2 – da eleição municipal passada, em 2004, sob a égide ainda oculta do “mensalão”, vai ficar boquiaberto: o Bittar, do PT, consumiu R$ 4 milhões e 100 mil, o César, vitorioso pelo PFL, gastou R$ 2 milhões 784 mil e os outros, Conde, Crivella e Jandira, superaram em muito o milhão de reais! Especialistas dizem que candidatura para ser “viável” no Rio vai precisar agora de R$ 10 a 12 milhões! Isso é um escândalo, um abuso insuportável de poder econômico, uma mercantilização absoluta e espúria da política, além da sua oligopolização total! Fizemos as contas, tirando supérfluos, e afirmamos aqui, junto com o desafio aos contendores: dá para se chegar com qualidade de propostas aos 4 milhões e 500 mil eleitores do Rio com até R$ 400 mil. É claro que não entram aqui aqueles contingentes de cabos eleitorais pagos, a “compra” de espaços residenciais para colocar milhares de placas e outros esquemas ilegais para se captar consciências e votos.

Desafiamos também os outros, das campanhas endinheiradas, a não aceitar doações de empresários de ônibus, mesmo como pessoas físicas, de empreiteiros com expectativas de obras públicas e de banqueiros. Desafiamos os demais e, por coerência, assim o faremos. Chega de campanhas milionárias, enganadoras, comprometidas e corrompidas! Quem gasta tanto para se eleger vai querer “tirar o prejuízo” depois, e o contribuinte é quem pagará. Que a Justiça Eleitoral, tão zelosa nessa pré-campanha e tão correta em impugnar candidatos com “ficha suja”, também vigie os gastos exorbitantes que se repetirão.

Na disputa, nossa postura será de respeito às pessoas dos adversários, sem dúvida, mas de forte combate às suas idéias e ao que representam. Os projetos, diferentes, brigarão, na política. Combateremos a exploração financista da boa fé da nossa gente humilde, que faz ligação perigosa de religião com negócios e ocupação de espaços políticos, nesse neopentecostalismo populista que se agarra nas estruturas do Estado para promover benemerência. Às vezes com resultados letais, como dolorosamente acabamos de ver. Questionaremos um certo “socialismo de aparelho”, que dissocia doutrina de prática e, em crescente incoerência, está sempre em todos os governos, como os de Moreira, Garotinho, Lula, e, na Agência Nacional de Petróleo, autoriza os leilões das bacias sedimentares. Duvidaremos da modernidade associada ao privatismo tucano, um verde furta-cor de tantas cores que se dilui. Lembramos também que podem surgir candidaturas sob o signo da fraude, marionetes da cúpula, perdendo até prazos legais e depois, na farsa despudorada, alterando datas no próprio Diário Oficial. Partidos que contemporizam com práticas corruptas, renegando sua própria história, não merecem o voto da população. Campanha é também lugar para a memória das “tenebrosas transações” de nossa história recente, que se repetem.

A esperança, que, creio, praticamente todos nós aqui referendamos, emocionados, há cinco anos e meio, virou lambança. Mas não foi destruída, pois mora em nós, que fazemos política com idéias e causas. Ao contrário de outros, não somos lulo-dependentes. Vamos enfrentar todas as máquinas: municipal, estadual, federal, universal, global. Com a força da militância e dos nossos valores de igualdade e justiça.

Já podemos afirmar, queridos companheiros e companheiras, algumas vitórias! A própria forma de conduzir essa aliança programática e a nominata que vai encarná-la reintroduz na degradada cena política carioca um elemento novo: o resgate da ideologia nesse ambiente da pequena política e do pragmatismo rebaixado comandado por neocoronéis e caciques manipuladores. Do nosso lado estarão a juventude e o povo trabalhador que apostam na dimensão libertadora da política, contra o fisiologismo reinante e seus jovens e desfibrados representantes, “sangue novo” e anêmico na velha política.

Sim, seremos guerrilheiros, desarmados e idealistas, contra exércitos de mercenários! A história mostra que muitas vezes, em nuestra América Latina, na África e na Ásia da exploração colonial e imperialista, os mais fortes e bem equipados perdem, pois não têm a energia da convicção, não sabem o que fazem. Vamos consolidar, com engenho e criatividade, um programa de mudanças qualitativas para o Rio, engajados, nas ruas, para que todos percebam isso, por mínimo que seja o tempo de tv e rádio que tivermos. Elegeremos uma bancada de vereadores combativa e ética! E vamos estar no 2º turno, para polarizar com o projeto continuísta e conservador, qualquer que seja sua face.

Encerro com uma confissão de limitação: não assumo essa tarefa sozinho, recuso a solidão do candidato, mesmo compartilha com nossa vice – de beleza também interior nessa estampa morena. Aqui firmamos o compromisso de sermos muitos num projeto comum, e só assim, solidários, caminharemos. Com um crescente voluntariado das pessoas de bem. Lá atrás citei Machado de Assis. Pois termino com Fernando Pessoa, artífice de versos que traduzem, como poucos, o que vai no fundo de nossa alma. Recorro ao patrício para expressar, com sincera humildade, o que sinto nesse momento em que sou oficializado candidato à prefeitura do nosso amado Rio:

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

Vamos juntos!

Chico Alencar, Rio de Janeiro, 20 de junho de 2008.

   
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