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ENTREVISTA ESCLARECEDORA/CHICO ALENCAR

Entrevistadores: Carlos Azevedo, Sérgio de Souza, Thiago Domenici,
Renato Pompeu, Roberto Manera, Wagner Nabuco.
Carlos Azevedo - Sua trajetória no PT foi de 1987 até
2005?
É. Uma longa trajetória. Mal comparando, é como na
vida afetiva, na qual temos relações mais marcantes, duradouras
e pelo tempo de convivência têm um peso muito relevante. Diria
que, do ponto de vista de um casamento político, meu tempo no PT
é inesquecível, mais para o bem do que para o mal. Mas foi
um processo extremamente doloroso.
Sérgio de Souza - Quando e por que começa seu estranhamento
com o PT?
No meu caso, no PT, o impasse mais significativo foi com minha candidatura
à prefeitura em 1996, quando a cúpula do partido, Gushiken,
José Dirceu, Lula, insistia que o partido tinha de se abrir. O
Rio sempre foi uma moeda de troca, pro PT fazer acertos nacionais, dentro
de um campo que incluía os chamados partidos progressistas. Na
militância, as bases e as convenções sempre batiam
de frente. Então, em 1996 havia essa orientação,
mas o partido fortemente optou por uma candidatura própria à
prefeitura, por uma aposta ousada, contra todas as possibilidades e contra
o núcleo duro da direção nacional. Apesar disso,
deu certo. Lula só foi no último comício, a três
dias da eleição. Até fez uma autocrítica,
dizendo que tinha que ter apoiado antes.
Com o Zé Dirceu já tinha tido alguns arranca-rabos. Por
ali começou, dois anos depois teve uma intervenção
direta pra tirar a candidatura de Vladimir Palmeira e impor a aliança
com o PDT do Garotinho. Vai criar cobra pra te picar lá no Butantã...
Em 2002, quando me candidatei a deputado federal, a gente viveu uma contradição.
Havia um movimento de base, de ruptura com o peleguismo, e o Lula candidato
mais uma vez; dessa vez vitorioso.
Também houve a nossa célebre reunião, na qual até
acabei sendo protagonista quando perguntei para o Delúbio (tesoureiro
do PT): "senhor tesoureiro, e esse tal de Marcos Valério?"
Sabia apenas que a Articulação (tendência majoritária
do PT) tinha esquemas, algumas campanhas pareciam milionárias.
"É apenas um amigo meu, que quer colaborar com o partido."
Então - disse eu - na próxima campanha eleitoral, em 2004,
vamos colocar todas as nossas contas de campanha em tempo real".
E ele falou uma frase que ficou famosa: "Ô, Chico, transparência
demais é burrice". Norberto Bobbio (cientista político
italiano) diz: "A democracia é o regime da transparência
e nela não pode haver nenhum segredo". É ou não
é uma contradição?
Carlos Azevedo - Você acha que o PT passa por essa transformação
depois de entrar nesse descensão? Em que medida descensão
influencia?
Suponho que essa relação é sempre dialética.
Há quem diga que partido político é necessariamente
uma estrutura institucional e, quanto mais tempo passa nas estruturas
formais, disputando eleições, ocupando cargos, mandatos
parlamentares ou executivos, vai arrefecendo sua pujança mudancista,
revolucionária. Haveria uma incompatibilidade entre partido e revolução...
Carlos Azevedo - Enfraquece sua relação com as raízes
populares?
Vai criando estruturas. Mas no Brasil - aí é tese de um
historiador menor - o peso da institucionalidade é muito grande,
inclusive pra luta da esquerda. Todas as nossas lutas mais marcantes da
geração cinqüentona e sessentona tiveram um viés
de institucionalidade: Anistia, Diretas Já, Constituinte. Aquele
Brasil bonito das Diretas Já produziu as maiores manifestações
de massa com sentido político da nossa história. Mas mesmo
antes, a própria Aliança Libertadora Nacional de 1935 tinha
um conteúdo de institucionalidade, um programa de reformas. Também
a luta pela democratização no fim do Estado Novo; o Manifesto
dos Mineiros não era socialista nem revolucionário, mas
um duto de liberdades democráticas que muita gente progressista
assimilou. O movimento das reformas de base no Jango, também pelo
viés da institucionalidade. O movimento pela legalidade contra
as tentativas de golpe, de impedir a posse do vice-presidente que estava
na China. Até no plano cultural, de mudanças mais profundas
na sociedade, o movimento modernista, que acontece em São Paulo
(1922) e não na capital federal, que era o Rio, um pouco pra fugir
do oficialismo, também não deixa de ter conexões
com a institucionalidade da época, questionando a dominação
oligárquica.
Renato Pompeu - O que o PSOL traz de novo nessa situação?
Por que a mídia, quando cobre o PSOL, só fala das denúncias
de corrupção. Eu, por exemplo, não sei o que o PSOL
entende por socialismo e liberdade. Se é algo semelhante a Cuba,
se algo semelhante à Venezuela ou se é algo semelhante à
Suécia. Então eu gostaria que fosse explicitado isso. No
que o PSOL é novo.
O PSOL é um partido político em formação.
Nasce do acúmulo de contradições e decepções
sobretudo com o PT. A gente tem alguns elementos fortes do PT pré-delubiano,
vamos chamar assim, em termos de organizar um partido por núcleos,
ter uma interlocução muito forte entre as direções
e a base, um chamamento à participação, sobretudo,
os setores da juventude, uma busca de inserção não
diretiva nos movimentos sociais, aprendendo com eles, para romper com
aquela idéia do partido condutor, do partido de vanguarda. Uma
revisão, inclusive, de certas categorias que a esquerda marxista-leninista
consolidou muito, mas que no século 21 não têm mais
cabimento. Porque a estrutura de classes da sociedade, embora ainda haja
opressão, exploração e alienação, não
é a mesma do século passado, de vinte, trinta anos atrás.
O que é a classe operária hoje, o que é o povo, essas
categorias todas? Então, o PSOL está nesses setores, está
em constituição. Realizou seu primeiro congresso em agosto
passado, no Rio, e aprovou o primeiro documento básico, se propondo
a enfrentar o desafio de um partido que se quer socialista, mas reconhece
que não há um paradigma socialista no mundo de hoje. A experiência,
por exemplo, do velho Partidão (comunista) tinha o farol da União
das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o ícone da
Revolução Russa. Hoje não. A gente reconhece que,
por exemplo, a China reúne hoje o que há de pior no capitalismo,
que é a espoliação violenta da mão-de-obra,
com o que há de pior no socialismo real, que é o autoritarismo
e o controle total da sociedade pela máquina estatal. Por outro
lado, Cuba, experiência exitosa e admirável em muitos aspectos,
não superou ainda essa realidade de não produzir novas lideranças
e mecanismos de oxigenação da própria sociedade com
a diversidade dela. Que deve ser, inclusive, partidária. Não
é um axioma verdadeiro que, tendo liberdade partidária,
o socialismo acaba. E, se for isso, é grave; é uma contradição.
A gente está num processo - o mundo, os trabalhadores, a população,
os que não estão satisfeitos - nessa idéia neoliberal
fortíssima, de que a história acabou e que o capitalismo
liberal, que é o capitalismo puro e duro, tem as respostas máximas
para a sociedade do ponto de vista das oportunidades econômicas
e das liberdades democráticas. Aí o PSOL tem alguns elementos
como contribuição para isso, que não vai ser tarefa
de um partido só, nem de uma só formação social,
como a brasileira. Isso é uma tarefa mundial, planetária,
de todas as forças vivas que acreditam em outro mundo possível
que não esse hegemonizado pelo capital. Isso é um paradigma
da esquerda. A socialização dos meios de produção,
hoje, tem de caminhar junto com a socialização dos meios
de governar e com a socialização da informação.
Quer dizer, o PSOL se afirma na perspectiva do pluralismo, na perspectiva
do socialismo com democracia, que a nosso juízo o capitalismo neoliberal
não viabiliza plenamente. Agora, sem modelo é muito duro.
É evidente que experiências como a da Venezuela, tirando
um pouco o personalismo do Chávez, como a da Bolívia, que
tem uma riqueza maior, o movimento ao socialismo e as características
do próprio líder maior que é o Evo, como o Equador
do Rafael Correa, são experiências que nós prezamos
muito.
Sérgio de Souza - Qual é a diferença, ou diferenças,
entre o programa inicial do PT e o programa do PSOL?
A diferença básica é de momento histórico.
O PT nasceu na crítica ao socialismo então existente. Lembro-me
de um encontro nacional em São Paulo, quando tinha acabado de ocorrer
o massacre da praça da Paz Celestial. E o encontro teve uma forte
marca de denúncia. Agora as experiências concretas de um
partido que sempre afirmou esse ideário ético-político
socializante, com a experiência do poder central no Brasil, nos
mostram seu fracasso. É uma diferença significativa. Para
chegar ao poder, o PT trouxe para o governo o PRB da Igreja Universal.
Roberto Manera - O PSOL saiu do PT ou foi expulso?
Alguns foram expulsos diretamente, como a Heloísa Helena, a Luciana
Genro, o Babá e o João Fontes, que hoje está no PDT.
Esses três eram deputados federais. Votaram contra a reforma da
Previdência, foi nosso primeiro drama. E nós ficamos em um
caminho intermediário no grupo, de não votar a favor da
reforma constitucional. Aí fomos punidos com uma suspensão
e outros foram expulsos. Depois o contencioso foi aumentando e, em 2005,
um novo grupo saiu. Volto a dizer, tendo chegado ao poder da República,
sair e começar um novo partido é uma tarefa que eu não
vou dizer heróica, mas é duríssima. Porque o esquema
político está muito consolidado com os partidos de clientela.
Partidos de idéias e causas estão fora de moda. As empreiteiras
dão dinheiro para todos. Os bancos dão para os pólos
principais. E o PSOL fez a opção, pela qual a Heloísa
se bateu muito, de não receber de qualquer empresário. Nosso
estatuto não chega a proibir isso, mas proíbe receber de
bancos e de empreiteiras que tenham obras com o governo. Na nossa campanha
de 2006, nenhum empresário, como pessoa jurídica, estava
autorizado a dar qualquer centavo. Então foi paupérrima,
por escolha nossa. Não tem que chiar, ajoelhou, tem que rezar!
Há elementos para dizer que esse financiamento que está
mantido no Brasil é a porta da corrupção política
- e com ela você fica de rabo preso. E as corporações
cobram, cobram... Você perde a independência. O PT entrou
direto nesse tipo de política.
Roberto Manera - Com seus programas tão semelhantes, os partidos
políticos parecem monolíticos e, no entanto, a opinião
coletiva dos partidos é de uma variabilidade absurda. Um cara que
ontem defendia isso, amanhã se coloca contra porque outro grupo
está no outro extremo da gangorra. Não tem sido isso?
Eu acho que o PT exacerbou essas incoerências. Agora, sinceramente,
no Brasil, aí concordando em partes com você, há partidos
como o PSB, o PDT, o próprio PPS, o PT, o PSTU, o PC do B, o PSOL
que têm um aspecto semelhante no seu programa. Todos esses, sem
exceção, falam de socialismo, da importância do Estado,
da importância do controle social, da participação,
da organização dos trabalhadores, dos explorados, oprimidos,
vilipendiados e tal. E dessa meta de construir uma sociedade diferente,
socialista. O programa, para falar do programa, - o papel aceita tudo,
é verdade -, os programas do PSDB, do PFL, do DEM, do PTB, e até
com nuances um pouquinho mais para retórica trabalhista, do PP,
do PL, hoje PR, do PMDB, estão num outro campo da economia de mercado,
da democracia liberal como a realização plena do seu ideário.
Pode ler lá. Agora, isso é pouco, e aí você
tem toda a razão. O que conta mesmo, e, aliás, essa é
uma afirmação clássica de esquerda, é a prática:
a prática é o critério da verdade. Talvez o grande
mal para a esquerda que o PT tenha causado, os segmentos dominantes do
PT, tenha sido o de a prática não coincidir com o ideário.
Mas há muita gente séria, boa, cada vez mais desiludida,
no PT.
Roberto Manera - E vocês estão de braços abertos
para eles?
Claro que estamos. Há uma hegemonia no PT que dá a fisionomia
do partido hoje, que tem uma incoerência entre o programa e a prática,
entre a intenção e o gesto, entre o proclamado e o praticado,
sem constrangimentos agora. Isso é que é terrível.
Às vezes, os bons companheiros que ainda sobrevivem na bancada
do PT, em Brasília, pedem para nós poucos, Ivan Valente
daqui de São Paulo, Luciana Genro do Rio Grande do Sul, e eu. Falam:
"Pô, pega firme nisso aí que vocês têm condição,
a gente não pode bater tanto". Porque tem a tal desgraçada
governabilidade parlamentar. Alguém tinha feito uma pergunta também
aguda: será que o que acabou como expressão não é
a forma "partido político"? Eu digo que não. Não
se inventou ainda outro instrumento que não o partido político
para fazer uma disputa com um mínimo de regras e ocupar espaços
do poder institucional que, volto a dizer, não é todo o
poder.
Sérgio de Souza - Que contradições são
essas?
O Ivan Valente, do PSOL, chega lá e diz: "Assina aqui a CPI
dos cartões". "Claro. Sem dúvida." "Agora,
assina aqui a CPI da dívida pública." Teve até
petista indo tomar cafezinho... Só temos setenta assinaturas, dificilmente
iremos conseguir. E as isenções fiscais, que são
uma farra? Eu até anotei, estava conversando com o ex-petista Paulo
Ruben Santiago. Uma coisa impressionante, a farra dos incentivos fiscais.
Veja: só de renúncias fiscais, nós chegamos a cerca
de 65 bilhões e 500 milhões de reais. Uma vez e meia os
gastos com saúde pública no Brasil nos últimos quatro
anos. E olha outra posição histórica do PT: nas assembléias,
nas câmaras, qualquer governo que propunha isenção
fiscal, aqui ou ali, a gente contestava. Afinal, a livre iniciativa não
tem que se constituir sem o "papai Estado"? E, no entanto, tem
uma farra tremenda desse tipo aí. Então tem muita coisa
que o PSOL verbaliza, faz, e a mídia grande não dá
a menor bola, não interessa. Mas pelo menos falam que a gente denuncia
o "acordão" da CPI dos cartões, e que a gente
tomou uma iniciativa contra o Renan, senão ninguém tomaria.
E, no mínimo, o cara saiu da presidência. Então eu
acho que o PSOL cumpre um pequeno mas importante papel.
Roberto Manera - O que você acha que resultaria da auditoria
da dívida?
O resultado seria um reforço da idéia de você criar
um fórum internacional dos países do Terceiro Mundo, dos
países "de baixo", para rediscutir mundialmente as relações
vigentes.
Thiago Domenici - O Lula sempre falou que peitaria o status quo quando
chegasse no poder; agora, alguns integrantes do próprio partido
e até do governo dizem que quando se chega no poder - e eles chegaram
- a máquina não permite você peitar da mesma maneira
como faz no discurso, que a prática não permite. Você
acha isso? Ou você acha que ele nunca teve a intenção
de fazer o que falou?
Não. O Lula não é um quadro - e nem poderia ser,
talvez só seja o Lula no que há de meritório na sua
trajetória - orgânico da esquerda. Uma pessoa que conviveu
muito com ele me disse: "Olha, nessa convivência eu descobri
que o Lula não tem ideologia".
Carlos Azevedo - Ou seja, ele tem uma ideologia.
É, nesse sentido: não ter uma ideologia socialista de esquerda;
o Lula é um pragmático extraordinário. Alguns companheiros
dele, das antigas, de sindicato, falavam que nas reuniões (que
foi a universidade do Lula), num momento agudo de greve, se discutia e
tal, deliberava-se uma reunião e ele tinha que encaminhar como
a maior liderança. Antes de ir lá para o palanque falar
para a multidão, ele preferia dar uma percorrida no meio da massa
mesmo, para sentir o pulsar ali, e aí ele tinha a capacidade, admirável
como método, de acabar conduzindo uma mediação muito
pragmática que permitisse, por exemplo, se fosse o caso, sair da
greve sem muita dificuldade, ou continuar na greve, mas já abrindo
a porta para a negociação com o patrão. Quer dizer,
o Lula é um pragmático. Se ele tem de conversar com o pior
inimigo, que já não é mais inimigo, ele pega o telefone,
e depois conta: "Eu fiquei invocado, liguei e falei: 'Bush, qual
é a tua?' ". Você quer mais pragmatismo que isso? Só
que pragmatismo que tenta conciliar preservação da Amazônia
com agronegócio, ampliação da fronteira agrícola,
eucalipto, soja, transgênicos, fica difícil. A ministra Marina
Silva acaba virando uma marca muito bonita, muito charmosa até,
mas é sempre derrotada. Você achar que pode fazer política
de mudança com aliados de partidos que têm como lideranças
Jader Barbalho, Romero Jucá, Renan e outras oligarquias que tais
aí, Quércia, Sarney, fica difícil. É aquilo
que eu falei, parece que não há mais nem constrangimento.
Isso é pragmatismo. O Brasil, não por acaso, é considerado
por Condoleezza Rice como o exemplo de um processo de democratização
confiável ao império. É ou não é?
Sérgio de Souza - Agora, dentro do governo, os homens do PT
têm esse pensamento único?
Não. Há contradições. Por isso que eu considero
que os governos não são iguais.
Sérgio de Souza - Seria bom você citar pessoas, políticos,
ministros, para o leitor ter uma noção do que ocorre no
centro do poder.
Eu continuo a acreditar na idéia da hegemonia. Você tem uma
política hegemônica dentro do governo, que é, nas
suas linhas gerais, a chamada política neoliberal.
Sérgio de Souza - Quem sustenta isso e quem é contrário
dentro do governo?
Há pontos de tensão e questionamento de alguns. Se você
pega a votação na Comissão Nacional de Biotecnologia,
que decidiu por sete votos a quatro liberar as sementes do milho transgênico,
patenteadas apenas pela Bayer e pela Monsanto... Isso é um aspecto
pontual de uma decisão que envolve todas essas visões. Os
ministérios do Meio Ambiente, da Saúde...
Sérgio de Souza - Quem faz parte dessa comissão? São
todos do PT?
Não. São os ministérios do governo. Mas aí
você já tem uma revelação.
Renato Pompeu - Mas vamos esclarecer: que ministros votaram contra
essa decisão da CTNBio?
Um deles foi o Ministério da Saúde.
Renato Pompeu - Quem é?
O Temporão. Ele é da cota do PMDB, mas nunca foi militante
do PMDB, é um cara da reforma sanitária, daquelas origens
lá dos sanitaristas do Rio. E também o Ministério
do Meio Ambiente, a Marina Silva. Os que votaram a favor da liberação
foram os ministérios da Agricultura, da Justiça, da Defesa,
das Relações Exteriores, do Desenvolvimento, da Ciência
e Tecnologia e da Casa Civil. De qualquer forma, foi sete a quatro. Esse
é um dos embates que o governo tem no seu interior, mas que não
gera nenhuma seqüela. Quer dizer, a aceitação da política
que tem como fiador o próprio Lula é hoje geral, os focos
de resistência diminuem cada vez mais e o chamado desenvolvimentismo
que o Mantega poderia representar está inteiramente assimilado
pelo setor do capital financeiro, pela ortodoxia que o Meirelles, do Banco
Central, representa. Não há mais embates, a política
de juros está devidamente acomodada. É impressionante a
lógica do poder para essa geração de petistas. Ela
sempre acaba determinando, em última instância, um acerto.
Carlos Azevedo - Em 2002, quando o Lula ganhou a primeira vez, você
achava que ia ser diferente?
Acreditava sinceramente. Claro que as sinalizações começavam
a preocupar.
Thiago Domenici - Mas você já sabia que ele era um pragmático.
Sim. Sabia que era um pragmático, mas a gente apostava naquilo
que a eleição dele reavivou, que foi a chamada força
social de mudança. Eu lembro do discurso do Lula na posse: "Mudança
é a palavra-chave, reforma política, reforma tributária,
reforma econômica". O nosso Frei Betto falava: "Vamos
conjugar agora uma nova gramática do poder". Tinha todo esse
ânimo e eu acreditando piamente. "Esse é o governo dos
nossos sonhos." Meus filhos perguntavam: "Quem foi o melhor
presidente da República?" Eu falava: "Está chegando
agora". Aliás, é uma pergunta também muito estreita.
De repente, no período oligárquico, Rodrigues Alves foi
razoável. O Getúlio Vargas pode ser o céu e o inferno.
Juscelino tem aspectos aqui e ali. O Jango, para mim, foi o melhor dentro
do contexto. Talvez por isso tenha sido brevíssimo. Mas a gente
acreditava. "O processo liderado pelo Lula vai instituir uma democracia
de alta intensidade e uma República efetivamente mudancista no
Brasil. E vai politizar o nosso povo." Hoje o povo está menos
politizado. Está lendo menos, está perdendo o espírito
crítico. A gente tem uma certa anestesia geral e poucas certezas.
Roberto Manera - Mas o que você acha que causa essa anestesia?
É o contexto internacional. O capitalismo neoliberal, na sua fase
financeira, na sua hegemonia, na revolução tecnológica,
tem a ver com isso também. Incrível e admirável em
muitos aspectos, eles exacerbam o individualismo de uma maneira trágica.
Nós estamos tendo de recuperar algumas coisas da Revolução
Francesa, como a idéia de cidadania participativa, de controle
social do poder. Há uma espécie de grande monarquia do invisível
e uma reconstituição, com todos os elementos da modernidade,
de um império inabalável.
Sérgio de Souza - De onde vocês tiram essa percepção
de que a juventude está anestesiada?
Eu digo que há uma indução à anestesia e absolutização
do presente.
Sérgio de Souza - Mas há uma efervescência na
periferia, a gente percebe daqui da redação. Então,
por isso eu pergunto de onde vem essa percepção.
Em primeiro lugar, há uma percepção da predominância
da valoração e da indução da sociedade ao
consumo imediato como sentido de vida. Claro que um mercado muito importante
é o da juventude, porque ela massifica, se mobiliza e você
tem um poder. Mas a gente vive a domesticação dos símbolos
de rebeldia, de mudança para uma outra sociedade, de outras relações.
É incrível como esse sistema transnacional, mundializado,
capitalista, tem uma capacidade fantástica de fazer tudo virar
mercadoria. Uma grande anestesia do ponto de vista de que não há
mais capacidade de mudar a História e você não deve
se interessar pela sua constituição como ser histórico
e entender o seu momento. É evidente que há focos crescentes
de contestação a isso, de busca da sua raiz, inclusive de
formação étnica nas periferias, na juventude. Mas
a gente vê um desinteresse...
Sérgio de Souza - Pelos partidos, né?
É, pelos partidos, mas há também uma cultura, e é
claro que nós contribuímos para isso, que estimula o desencanto
e a não-participação. Eu vejo no Congresso Nacional,
como via na Assembléia Legislativa, como via na Câmara dos
Vereadores, ou seja, a história vem de longe. Quando temos qualquer
votação importante e as galerias começam a se encher,
o incômodo dos representantes do povo é enorme. "Que
pessoal é esse? Quem está trazendo? 'Presidente, limita:
ó, já lotou o espaço'." Deve ser o contrário
do craque do futebol, que vibra com o estádio cheio. Como nós
somos, na maioria, uns pernas-de-pau, ficamos com medo. Então,
o desencanto com a política interessa muito aos que estão
cada vez mais voltados para o mundo particular deles mesmos.
Sérgio de Souza - Mas e os meios de comunicação?
Não têm uma responsabilidade grande?
Têm muita. Qual o programa que você tem na televisão
hoje? Outro dia fui numa tevê em Brasília, UHF, um universo
pequeníssimo. É ligada à igreja evangélica.
Foi um programa de debates sobre o cartão corporativo, votação
de orçamento, com um cientista político da Comissão
de Direitos Humanos. E lá o telespectador está assistindo,
telefona e fala. Eu até, depois, falei pro apresentador, "e
se o cara mandar pra...?" "Bom, a gente tem que ter fairplay,
se ele xingar." Agora, imagine se a Globo vai fazer isso! Ou qualquer
rede grande. Só a TV Cultura tem programa de debate, Roda Viva
e outro.
Léo Arcoverde - Opinião Nacional.
Opinião Nacional, né? Tem um na TV Brasil também.
O resto é noticiário, mais ou menos aberto, mais ou menos
induzido ou censurado. E só. E vamos passar rápido pra novela
e pro entretenimento, que são fundamentais - cada vez mais - pra
estimular a vaidade, o ego, o hedonismo. E isso não é um
discurso moralista, não, a gente apenas quer a grandeza do ser
humano.
Sérgio de Souza - Você já é candidato a
prefeito do Rio?
Sou pré-candidato porque não existe candidatura oficial.
Senão, vem o TSE (Tribunal Superior Eleitoral)...
Sérgio de Souza - E o PSOL vai com você?
Vai. Um partido de esquerda sem disputa interna! Por outro lado, suspeito
que o poder local, hoje, pode ser muito mais gerador de políticas
públicas amplas, efetivas. O Márcio Moreira Alves, ex-deputado,
jornalista, fez um livrinho da experiência de Lages, Santa Catarina,
que ficou famoso: "Lages, a Força do Povo". A gente tinha
alguns encontros ainda em plena ditadura. Encontro Nacional de Prefeituras,
onde havia experiências de participação popular. Nem
se sonhava ainda com orçamento participativo, mas acho que, mesmo
com esse refluxo dos grandes temas, há um crescimento de mobilizações
mais localizadas. Você pode, a partir dos municípios, recuperar
essa dimensão política.
Roberto Manera - Você acha que o PT tentou isso no Rio Grande
do Sul?
Tentou. Viveu contradições, é uma experiência
ainda recente. Tem que ver o que permaneceu e o que se diluiu. Porque,
se governos - depois do Olívio - desconstituíram as experiências
participativas do governo, é sinal de que não se consolidou
uma nova relação.
Thiago Domenici - Você falou que Brasília cheira podre.
É isso mesmo?
Brasília, não.
Thiago Domenici - O Congresso.
Aliás, botei na minha agenda um poema maravilhoso, do Nicolas Behr,
um brasiliense da época da contracultura: "O que mais fascina
em Brasília? A cidade ou o poder? O céu." Mas olha
as contradições do poder em Brasília: a Câmara
dos Deputados aprovou, contra o nosso voto, mais 185 milhões para
as obras de transposição do rio São Francisco. Fez-se
uma audiência pública. Os artistas lá. E vai o Osmar
Prado à tribuna do Senado e começa a chorar. Sabe por quê?
Ele disse: "Eu ouvi muitos discursos, muita informação
técnica, palavras muito colocadas. Mas ouvi pouca gente aqui falar
do nosso povo, demonstrar autenticidade de compromisso com nossa gente".
A representação política está muito degradada.
Léo Arcoverde - Já dá pra saber quem manda mais
no Congresso? A bancada ruralista ou a que você chama de partidos
empreiteiros?
Quem manda mais no Congresso é o governo. Sem dúvida nenhuma,
manda muito. E qualquer governo. Há uma atrofia dos legislativos,
é um fenômeno mundial, mas no Brasil isso é particularmente
forte. E há uma tendência atávica de o governo, qualquer
que seja, formar maioria. O adesismo é a regra. Bom, basta ver
o que você tem aqui: quem adere ao governo Lula, hein? Houve uma
reação inicial, mas, olha, tudo para cobrar espaços,
os cargos resolvem tudo. Dentro do Congresso Nacional, um terço
dos parlamentares foi eleito com dinheiro de empreiteiras. Outro terço
com dinheiro dos bancos, do sistema financeiro. Então, dois terços
representam grandes empreiteiras e o sistema financeiro, incluído
aí o agronegócio. O resto são corporações
menores, representações de trabalhadores, de movimentos
rurais. Mas nós, deputados que representamos os interesses da grande
maioria da população, a tal "nova gramática
do poder", de novas formas de governar, somos menos de cem, em 513
deputados.
Léo Arcoverde - A influência dessas oligarquias que você
falou não é mais acentuada no próprio Congresso que
no governo Lula em especial? Porque você pega hoje a mesa diretora
do Senado, onze caras. Sete são caciques, isso não tem como
negar.
Eu não saberia afirmar, mas elas parecem muito satisfeitas com
o governo Lula. Isso é uma realidade, não é discurso
de psolista, não. É realidade, porque a gente vê lá.
De vez em quando fazem uma pressão e o governo sempre cede, inclusive
nos projetos de lei. Porque eles têm força mesmo. Aí
fica aquela história: bom, não dá pra peitar. Agora,
você só peita com mobilização! Vou dar um exemplo
claro. Luiza Erundina, prefeita de São Paulo. Ela enfrentava problemas
inclusive dentro do próprio PT. Ela, que veio de um setor mais
à esquerda do PT, teve um processo de cassação na
Câmara, porque talvez não tenha cedido os cargos que a governabilidade
pedia. E aí tava tudo já encaminhado, porque qualquer parlamento,
querendo criar uma situação de impeachment pra um governante,
cria. É claro que o governante tem como se defender fora do parlamento
também. Houve uma baita duma mobilização. Eu me lembro,
eu vim aqui e havia 10.000 pessoas cercando a Câmara no dia que
iam votar o impeachment dela. Aí a coisa recuou. A maior parte
dos prefeitos lá de Porto Alegre, o Olívio, o Tarso, o Raul,
governou sem maioria. Só que naquela época o PT apostava
na força social de mudança e de pressão, ia para
a briga. Mas a escolha política do governo Lula foi esta: vamos
contemporizar. Quando um governo de esquerda se alia com a direita, quase
sempre é a direita que dá a linha. Porque ela tem mais experiência,
mais capacidade de exercer o poder, de se infiltrar nos escaninhos, nos
mecanismos. É insidiosa, esperta, e tem cinco séculos.
Wagner Nabuco - Como é que você acha que o governo perdeu
a votação da CPMF, o "imposto do cheque"?
Na Câmara, eles tinham maioria, passou com folga. Não negociaram
minimamente. A gente ainda apelava, pois havia uma discussão dentro
do PSOL, porque não era o pior dos tributos, embora haja muito
engodo dizendo que é imprescindível, taxa grandes movimentações,
é justo... Não é bem assim, não. Mas isso
é uma discussão específica. De qualquer maneira,
passou tranqüilo lá. Mas o governo foi de uma empáfia,
de uma arrogância total. No Senado, vai e vem e, quando resolveu
bater o martelo, "vota hoje", faltou voto. Quem derrotou a CPMF
foi a própria base do governo. Senadores da base não votaram.
Talvez tenha faltado a garantia dos últimos cargos... Porque é
assim que funciona.
Sérgio de Souza - E o Rio?
Continua lindo, inferno e céu. O Rio é uma cidade singular,
né? É uma belíssima paisagem pra uma humanidade muito
machucada. E que tem vivido, do ponto de vista do poder político,
algo que contraria a tal proverbial rebeldia do povo carioca. Ultimamente,
acabou fazendo nas urnas a opção por um padrão técnico-burocrático-autoritário.
Então, a gente vive uma era de governos absolutamente tecnocráticos
que operam no senso comum e não mobilizam. Montam uma câmara
de vereadores com base no que eles chamam de vereadores da comunidade,
do clientelismo, do paroquianismo, e assim vai... Quer dizer, a política
carioca tá apequenada.
Sérgio de Souza - E o governador, os problemas que estão
aí?
Qual problema?
Sérgio de Souza - Violência, por exemplo.
Não é apenas o governador. A questão da segurança
pública e da violência só é enfrentada a médio
e a longo prazos, com políticas integradas que envolvam todas as
instâncias da federação - Estado, município
e União -, com a transversalidade de políticas públicas.
A segurança pública é algo tão grave, tão
dilacerador, que não pode ser só um caso de polícia,
mesmo a polícia investigativa, inteligente e honesta. Nesse momento
em que a gente está conversando aqui, já 8 da noite de sexta,
até segunda de manhã, no mínimo 25 jovens terão
sido executados, mortos a bala, nas três grandes regiões
metropolitanas mais violentas: Rio, São Paulo e Recife. Vitória
está nesse caminho. Salvador também. Por ano, o Brasil perde,
por homicídios, 45.000 pessoas. Então a gente está
numa situação muito dramática. Agora, a pura repressão
não resolve. Nesse sentido, de novo a frustração:
o governo federal elaborou um programa nacional de segurança pública,
lá em 2002, acompanhei. Era do Luiz Eduardo Soares, não
sei se vocês já ouviram falar, acho que já, né?
Ele é uma pessoa muito preparada, que poderia dar uma contribuição
grande, mas é sempre escanteado. Foi escanteado pelo Garotinho:
ele tem cabedal, os governos chamam, mas depois, opa! Está indo
muito longe.
Sérgio de Souza - Teve que fugir, né?
Pois é.
Renato Pompeu - Você falou do prefeito César Maia, mas
não falou do governador Sérgio Cabral
O governador Sérgio Cabral tem uma trajetória política
conservadora, do sistema. Ele é homem de composições,
é também um político pragmático, sem uma nitidez
ideológica, tanto que começou muito jovem ainda. Formado
em jornalismo, nunca exerceu a profissão, a não ser brevemente.
Fui colega vereador do pai dele, grande figura humana, Sérgio Cabral
pai, que estimo. E com o Serginho já tive muitos embates, porque
compôs na Assembléia - da qual foi presidente por muito tempo
- um segmento fisiológico, corrupto, da política mais rebaixada
do Rio de Janeiro, nessa de que "tem que compor". Não
é à toa que ele e o Lula estão num love impressionante,
se admiram mutuamente. Eles têm esse mesmo pragmatismo. Ele só
foi eleito governador porque a polarização foi com a juíza
Denise Frossard, que é muito conservadora, apesar de pessoa de
ética inabalável. O Sérgio tem muito mais traquejo
político, experiência, e deu um banho nela nos poucos debates,
típicos das eleições de hoje. Foi eleito no segundo
turno com ampla margem.
Pelo que pressinto, ele vai fazer um governo conservador, muito no senso
comum. Por exemplo, essa política de segurança, que prioriza
a repressão, já se metabolizou, tem o aplauso da sociedade.
Porque quando o cidadão está inseguro, qualquer coisa que
represente o fim de um bandido que seja, nem que seja uma execução
sumária, como ocorreu no Morro do Alemão, tem o aplauso
da população. Então o Sérgio é habilidoso,
até por ambiente familiar, é muito aberto, gosta da cultura,
tem esse espírito carioca, vascaíno, do samba, é
simpático, envolvente. Mas é um político conservador
que não vai introduzir elementos participativos no governo, e nenhuma
transparência. É difícil analisar um governo que não
tem um programa pra educação, pra habitação,
pra saúde pública, pra segurança pública,
a não ser esse programa convencional da repressão. A gente
ainda não sabe o projeto do governo Cabral. Foi eleito pelo PMDB,
que é um saco de gatos: lá, você pode ter uma figura
como Pedro Simon e uma figura como Orestes Quércia, ou como Renan
e Jader. Então, o Cabral está aparecendo mais nacionalmente
agora, sempre foi um político mais local, foi senador com um mandato
muito inexpressivo. Como presidente da Assembléia, cortou certos
salários corretamente: gente que ganhava 35.000, 40.000, chefe
da garagem que ganhava 30.000. Mas eles ganharam na Justiça, e
ele disse que vai pagar em precatórios, está essa confusão
lá... Mas isso reforça a aura que ele construiu, de pessoa
austera. Ele montou um governo a exemplo do Lula. Por isso eles têm
tanta identidade.
Roberto Manera - Concretamente, o que é que o PSOL, no caso
de eleito, tem a fazer?
Tem gente dizendo que, se o PSOL entrar de cabeça em eleição
municipal, vai acabar como partido e virar uma maquineta apequenada. A
maioria de nós discorda. A gente quer estabelecer um programa mínimo
básico nacional, seja para administrar Vila Risonha de Santo Antônio
da Manga de São Romão, lá nas margens do São
Francisco, ou qualquer capital. Para socializar cada vez mais os mecanismos
de governar, criar conselhos de bairros, descentralizar o poder, manter
interlocução com outras comunidades, ter uma postura autônoma
e de cobrança de maior independência em relação
a outras instâncias de poder. Porque segurança pública,
por exemplo, também é um assunto municipal. E há
hoje, numa sociedade com melhores redes de intercomunicação,
experiências de cidades superinteressantes, mesmo nos Estados Unidos.
Lá você tem cidades - como San Francisco - que contestam
a política ambiental destrutiva do Bush. Por isso eu falei que
os Estados nacionais estão esmaecidos, mas os poderes locais podem
muito. Então a gente quer fazer governos democráticos, participativos,
transparentes, que denunciem a guerra do Iraque, além de prestar
assistência odontológica.
Sérgio de Souza - Mas isso não passa na Globo.
Não, não passa na Globo, mas isso a gente também
pode ir mudando.
(*) Entrevista publicada na revista Caros Amigos, edição
de abril de 2008.
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