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¯ Nesta noite, como diz o profeta, "nasceu para
nós um menino e um filho nos foi dado". Tudo nesta noite,
durante 2008 anos, emerge de um centro misterioso onde se dá o
encontro definitivo entre o tempo e o espaço dos homens e a insondável
eternidade de Deus. Tudo acontece na calada de uma noite sem tempo, absorvida
pelo Eterno, pelo que é imorredouro e a traça não
corrói.
¯ O paradoxo do Natal é o da alegria de um
Deus que nasce na extrema pobreza. Este é o acontecimento: o Filho
do Altíssimo - "Conselheiro Admirável", "Deus
Forte", "Pai dos Tempos Futuros" e "Príncipe
da Paz" - chega até nós na pobreza de um estábulo
para participar e partilhar, desde o início, da indigência
do mundo, das dores da nossa limitação temporal.
¯ Jesus nasce pobre e segregado da vida social e religiosa
do seu tempo. Eram pastores os que foram "envolvidos em luz na glória
do Senhor". Eles também viviam à margem da sociedade
e da religião, pois os fariseus devotos e os doutores da Lei os
olhavam com desdém, os consideravam ignorantes. Os pastores não
conheciam as leis e as regras da religião. Estavam, portanto, destinados
à condenação.
¯ Eles "ficaram com muito medo" por receberem
com prioridade este anúncio; afinal, acontecera uma reviravolta.
Deus anulou a precedência que sempre tiveram os ricos, desrespeitou
as vias hierárquicas, a observância dos cerimoniais e as
reverências devidas aos privilegiados. Deus escolheu os pastores
para que, a partir deles, se inicie uma série desconcertante de
surpresas evangélicas.
¯ Como os pastores da noite, devemos saber que o mais
importante não é o Anjo, mas o conteúdo de sua palavra:
"um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura"
- que em nada lembra a glória celestial. Pelos nossos padrões
sociais, naquele estábulo não há nada medianamente
digno de se ver. A pobreza do Menino pode ser decepcionante e aniquilar
as nossas ilusões, pois somos confrontados com algo verdadeiramente
humano e profano.
¯ Na aparência, é um menino e não
o Menino. Um menino como outro qualquer e não um menino especial
irradiando uma luz gloriosa, como sempre o representaram piedosos e românticos
artistas. Assim, o caminho desta noite nos leva da glória de Deus
ao menino pobre, seu Filho, reclinado na manjedoura do estábulo,
humaníssimo na sua fragilidade. Do cósmico ao mais miúdo
e despojado.
¯ O Natal, assim, pertence a toda a humanidade, pois
é a encarnação da alegria e do riso de Deus na pobreza.
É uma resposta ao mundo desamparado no qual vivemos e no qual poderemos
sucumbir numa amargura sem esperança. Se a perdermos, fecharemos
a porta de entrada que nos conduz a Belém, rebaixada a uma porta
de saída onde digladiaremos entre nós, destruindo a paz
possível e a utopia do que ainda não é mas pode ser.
¯ Deus se encarna numa criança, escândalo
e loucura, porque um recém-nascido é sempre o absolutamente
novo, desconhecido e imprevisível. Essa criança revela,
na perspectiva cristã, o que Deus espera de nós: permanente
gênese, entrega e despojamento amorosos e infantis, atitude inaugural,
aventureira e generosa na caminhada.
¯ O Menino só é Natal se nos faz sair
de nós mesmos, encontrar a manjedoura e ultrapassar os limites
do estábulo para expor as nossas vidas, mesmo que isto pareça
um absurdo. Mas é exatamente isto que o Menino chamará de
Fé: um abandono na esperança que nos compromete com essa
Glória que envolve as condições mais humildes e sublimes
da existência. E com essa Paz que é o gozo da fraternidade
e o fruto da justiça nas relações humanas.
¯ A partir desta noite, falar do Messias é falar da capacidade
que temos, sem messianismos, de ser salvação para os outros.
O Menino foi capaz de ser para os outros a expressão da solidariedade
e da compaixão e esta sua prática nos convida a desenvolvermos
e expandirmos a nossa dimensão crística: consolar, secar
lágrimas, anunciar a justiça, vingar a paz e salvar vidas.
Sem presunção, sendo unção, a partir da ação
molecular, cotidiana.
¯ É o que Ele chama de amor. E o amor cristão
é o desafio para que pratiquemos a paz que Ele praticou. Vivendo,
ofereceu a paz; ao morrer deixou a paz e ressuscitando ratificou a paz.
Tudo Nele respira paz, soa amizade e ternura com sabor de fraternidade.
Por essa razão, nesta Noite em que mais uma vez nasce o Menino,
os anjos não cantam a guerra nem seus triunfos, mas sim a paz.
A paz verdadeira, fruto do amor e da justiça.
¯ Na década de 70, em plena ditadura militar,
um jovem estudante, Stuart Angel, morreu sob tortura na Base Aérea
do Rio de Janeiro. Seu corpo dilacerado foi atirado ao mar na Restinga
da Marambaia. Sua mãe, a estilista Zuzu Angel, também foi
morta por reclamar, por direito, o corpo do seu filho para ser enterrado.
Antes de ser preso, Stuart havia escrito uma carta para a sua mãe
que exprime a própria dimensão da Encarnação:
"Mãe, você me pergunta se eu acredito em Deus. Eu te
pergunto: mas, que Deus? Tem sido minha missão te mostrar Deus
no homem, pois somente no homem Ele pode existir. Não há
homem pobre, por mais insignificante que pareça ser, que não
tenha uma missão. Todo homem por si só influencia a natureza
do futuro. Através de nossas vidas nós criamos ações
que resultam na multiplicação de reações.
Esse poder, que todos nós possuímos, esse poder de mudar
o curso da história, é o poder de Deus. Confrontado com
essa responsabilidade divina, eu me curvo diante do Deus dentro de mim!"
¯ Nesta noite, começa a travessia deste Menino como um acontecimento
e uma revelação: Deus fez-se humano para poder, por amor,
morrer e renascer sempre dentro de nós. Que ela seja para nós,
mais do que nunca e apesar de tudo, uma Noite Feliz, carregada de auroras.
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