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O Desafio de Renascer

Frei Paulo Cezar Botas

 

¯ Nesta noite, como diz o profeta, "nasceu para nós um menino e um filho nos foi dado". Tudo nesta noite, durante 2008 anos, emerge de um centro misterioso onde se dá o encontro definitivo entre o tempo e o espaço dos homens e a insondável eternidade de Deus. Tudo acontece na calada de uma noite sem tempo, absorvida pelo Eterno, pelo que é imorredouro e a traça não corrói.

¯ O paradoxo do Natal é o da alegria de um Deus que nasce na extrema pobreza. Este é o acontecimento: o Filho do Altíssimo - "Conselheiro Admirável", "Deus Forte", "Pai dos Tempos Futuros" e "Príncipe da Paz" - chega até nós na pobreza de um estábulo para participar e partilhar, desde o início, da indigência do mundo, das dores da nossa limitação temporal.

¯ Jesus nasce pobre e segregado da vida social e religiosa do seu tempo. Eram pastores os que foram "envolvidos em luz na glória do Senhor". Eles também viviam à margem da sociedade e da religião, pois os fariseus devotos e os doutores da Lei os olhavam com desdém, os consideravam ignorantes. Os pastores não conheciam as leis e as regras da religião. Estavam, portanto, destinados à condenação.

¯ Eles "ficaram com muito medo" por receberem com prioridade este anúncio; afinal, acontecera uma reviravolta. Deus anulou a precedência que sempre tiveram os ricos, desrespeitou as vias hierárquicas, a observância dos cerimoniais e as reverências devidas aos privilegiados. Deus escolheu os pastores para que, a partir deles, se inicie uma série desconcertante de surpresas evangélicas.

¯ Como os pastores da noite, devemos saber que o mais importante não é o Anjo, mas o conteúdo de sua palavra: "um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura" - que em nada lembra a glória celestial. Pelos nossos padrões sociais, naquele estábulo não há nada medianamente digno de se ver. A pobreza do Menino pode ser decepcionante e aniquilar as nossas ilusões, pois somos confrontados com algo verdadeiramente humano e profano.

¯ Na aparência, é um menino e não o Menino. Um menino como outro qualquer e não um menino especial irradiando uma luz gloriosa, como sempre o representaram piedosos e românticos artistas. Assim, o caminho desta noite nos leva da glória de Deus ao menino pobre, seu Filho, reclinado na manjedoura do estábulo, humaníssimo na sua fragilidade. Do cósmico ao mais miúdo e despojado.

¯ O Natal, assim, pertence a toda a humanidade, pois é a encarnação da alegria e do riso de Deus na pobreza. É uma resposta ao mundo desamparado no qual vivemos e no qual poderemos sucumbir numa amargura sem esperança. Se a perdermos, fecharemos a porta de entrada que nos conduz a Belém, rebaixada a uma porta de saída onde digladiaremos entre nós, destruindo a paz possível e a utopia do que ainda não é mas pode ser.

¯ Deus se encarna numa criança, escândalo e loucura, porque um recém-nascido é sempre o absolutamente novo, desconhecido e imprevisível. Essa criança revela, na perspectiva cristã, o que Deus espera de nós: permanente gênese, entrega e despojamento amorosos e infantis, atitude inaugural, aventureira e generosa na caminhada.

¯ O Menino só é Natal se nos faz sair de nós mesmos, encontrar a manjedoura e ultrapassar os limites do estábulo para expor as nossas vidas, mesmo que isto pareça um absurdo. Mas é exatamente isto que o Menino chamará de Fé: um abandono na esperança que nos compromete com essa Glória que envolve as condições mais humildes e sublimes da existência. E com essa Paz que é o gozo da fraternidade e o fruto da justiça nas relações humanas.
¯ A partir desta noite, falar do Messias é falar da capacidade que temos, sem messianismos, de ser salvação para os outros. O Menino foi capaz de ser para os outros a expressão da solidariedade e da compaixão e esta sua prática nos convida a desenvolvermos e expandirmos a nossa dimensão crística: consolar, secar lágrimas, anunciar a justiça, vingar a paz e salvar vidas. Sem presunção, sendo unção, a partir da ação molecular, cotidiana.

¯ É o que Ele chama de amor. E o amor cristão é o desafio para que pratiquemos a paz que Ele praticou. Vivendo, ofereceu a paz; ao morrer deixou a paz e ressuscitando ratificou a paz. Tudo Nele respira paz, soa amizade e ternura com sabor de fraternidade. Por essa razão, nesta Noite em que mais uma vez nasce o Menino, os anjos não cantam a guerra nem seus triunfos, mas sim a paz. A paz verdadeira, fruto do amor e da justiça.

¯ Na década de 70, em plena ditadura militar, um jovem estudante, Stuart Angel, morreu sob tortura na Base Aérea do Rio de Janeiro. Seu corpo dilacerado foi atirado ao mar na Restinga da Marambaia. Sua mãe, a estilista Zuzu Angel, também foi morta por reclamar, por direito, o corpo do seu filho para ser enterrado. Antes de ser preso, Stuart havia escrito uma carta para a sua mãe que exprime a própria dimensão da Encarnação: "Mãe, você me pergunta se eu acredito em Deus. Eu te pergunto: mas, que Deus? Tem sido minha missão te mostrar Deus no homem, pois somente no homem Ele pode existir. Não há homem pobre, por mais insignificante que pareça ser, que não tenha uma missão. Todo homem por si só influencia a natureza do futuro. Através de nossas vidas nós criamos ações que resultam na multiplicação de reações. Esse poder, que todos nós possuímos, esse poder de mudar o curso da história, é o poder de Deus. Confrontado com essa responsabilidade divina, eu me curvo diante do Deus dentro de mim!"

¯ Nesta noite, começa a travessia deste Menino como um acontecimento e uma revelação: Deus fez-se humano para poder, por amor, morrer e renascer sempre dentro de nós. Que ela seja para nós, mais do que nunca e apesar de tudo, uma Noite Feliz, carregada de auroras.

 

   
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