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Falar do Dia do Professor é falar em especial daquele gênero
predominante nas tarefas da educação, a mulher. O correto
mesmo era falar dia da professora, dia da educadora, embora todos nós,
e me incluo nessa condição com muita honra, também
participemos desse ofício permanente, porque se o mandato Parlamentar
é provisório, o que vale mesmo é nossa escolha de
vida profissional. Ser Parlamentar não é profissão,
não é sequer carreira.
No Rio de Janeiro - e aproveito para cumprimentar os Srs. Daniel Cara,
Roberto Franklin de Leão e Marta - , hoje há uma coincidência
curiosa, é também feriado para os comerciários e
os trabalhadores da construção civil. Houve uma compressão
lá de datas, e a cidade está um pouco parada, com as praias
cheias desde ontem. Vindo para cá, fiquei pensando na proximidade
desses ofícios, porque os verdadeiros educadores, aqueles que,
de fato, assumiram o ofício de ensinar, têm um quê
de comerciários, tirada toda a atividade mercantil disso, na qual
muitos querem transformar a educação; a venda de um produto,
a concepção neoliberal da educação, discutida
inclusive na OMC, tem muito a ver com isso. Mas a tarefa do convencimento
e o trato quotidiano com pessoas, esse encontro artesanal da professora,
do professor, dos trabalhadores da educação com os alunos
é algo essencial.
O professor também é um operário da construção
civil, na medida em que ergue casas e se parece com todos nós que
procuramos construir o pensamento crítico e o conhecimento.
Como todos sabem, vivemos na era da informação aceleradíssima,
mas essa informação não é necessariamente
conhecimento. A tarefa da educação, da educadora, do educador
é exatamente transformar essa matéria bruta da profusão
de informações, no século XXI, em conhecimento profundo.
Ensinar, disse anteriormente, é ensinar a olhar para fora e para
dentro; qualquer tarefa educacional que não tiver essa dimensão
da objetividade e da subjetividade ficará capenga, não descentrará
a criança ou mesmo o jovem e o adulto, não humanizará
o adulto, o jovem e a criança. Precisamos rever inclusive todas
as nossas categorias nesse tempo em que algumas palavras-chave parecem
determinar tudo.
É curioso lembrar que "aluno" vem do grego e significa
"sem luz". "A" como negativa, aquele a quem falta
a luz. E o mestre, na concepção tradicional, seria o portador
de uma chama divina. Não por acaso o 15 de outubro é consagrado
aos mestres por causa da mestra da espiritualidade, Santa Teresa DÁvila,
mas não temos de ter a pretensão da santificação
nem de iluminações especiais.
Infelizmente, devido ao atraso do meu avião, só pude ouvir
a fala do meu colega Carlos Abicalil, que mencionou: Paulo Freire ensinava
que ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo, aluno algum
é uma folha em branco, onde o mestre sabichão vai escrever
de maneira indelével aqueles valores decisivos para a vida da pessoa.
Não! A educação cada vez mais é uma troca
dialética, é um encontro de saberes e é óbvio
que os profissionais e as profissionais da educação têm
nessa tarefa uma responsabilidade maior.
Anísio Teixeira dizia que as escolas são sobretudo os seus
professores, mas sabemos também que as escolas sem os alunos, sem
os estudantes, qualquer que seja a sua idade, não têm vida,
não têm sentido, não têm razão de ser.
Por isso, desde Napoleão, o ensino universal gratuito, oferecido
pelo Estado, de caráter público e democrático, é
fundamental e decisivo para qualquer sociedade que pretenda se tornar
uma nação.
Na definição de Santo Agostinho, nação é
um conjunto de pessoas movido por um sonho comum. Olha que diferença
das definições costumeiras de território, fronteiras,
hino, pátria, bandeira! Nação significa um conjunto
de cidadãos que têm um sonho comum, que reconhecem suas características
no concerto da pluralidade, da diversidade humana. Mas isso é apenas
um elemento diferenciador, não opressor, nem de reconhecimento
de que somos inferiores a quem quer que seja. Como disse Nelson Rodrigues,
o Brasil não pode ter complexo de vira-lata. A educação
é um elemento fundamental para nossa constituição
como Nação, para nossa assunção como povo
consciente.
Por isso, apesar de tudo, inscrevo-me entre os otimistas. Esta sessão
solene, realizada pela Deputada Fátima Bezerra e por vários
Parlamentares presentes, com a presença de todos vocês e
daqueles que nos assistem ou escutam, é uma afirmação
de otimismo. Não apenas a lamentação que só
vale se se transformar em luta.
É bom saber que a categoria dos educadores o Deputado Carlos Abicalil
é um desses líderes, nos últimos 20, 30 anos foi
a que mais se organizou neste País. No meu Estado, o Sindicato
Estadual dos Profissionais de Educação celebra agora 30
anos de lutas. Se o lamento não passar disso, não adianta
nada. Se ele, a partir da crítica, da queixa coletiva, se transforma
em luta, por melhores condições de trabalho, de salário,
de ensino, é fecundante, é fundamental. Para além
da luta, celebramos este dia muito importante, porque insistimos na tarefa
de educar como elemento de libertação. É um dia de
denúncia? Claro que sim!
Li no jornal O Estado de S. Paulo, há pouco, que muitas pessoas
se formam com a licenciatura, mas desistem de exercer o magistério.
Buscam outras profissões, outras atividades que remunerem melhor.
A atratividade da sala de aula, dessa relação tão
bonita, anda pequena, porque, como já vimos aqui, só agora
no Brasil se discute um piso salarial nacional. Há vetos ao Plano
Nacional de Educação, apostos pelo ex-Presidente Fernando
Henrique, jamais apreciados pelo Congresso Nacional. Há frustrações
nos planos municipal, estadual e federal.
Na minha cidade, Rio de Janeiro, o Prefeito, de forma autocrática,
arbitrária e absurda, proibiu que vestibulares populares e gratuitos,
organizados em geral por jovens universitários para a população
pobre, uma forma de arrombar as portas tão fechadas da universidade
brasileira, funcionem nas escolas municipais. A desculpa foi que atrapalhavam
o bom andamento pedagógico durante o dia e sujavam os banheiros.
Toda a sorte de argumento elitista, preconceituoso, burocrático
e autoritário impede a educação, fora o nosso discurso
- falo dessa categoria enganosa e falsa da classe política, que,
em campanhas da Direita à Esquerda, prioriza a educação
de maneira arrebatadora. Depois, na prática, vemos que nem sempre
é assim.
Os mecanismos e os escaninhos burocráticos também fazem
com que mesmo o dinheiro investido em educação não
chegue com a quantidade e a força que deveria àquele momento
fundamental da relação professor/estudante: ao laboratório,
à quadra, à sala de aula. Os papéis da burocracia,
os planejamentos que muitas vezes não saem do papel, consomem boa
parte desses recursos. Portanto, é preciso otimizá-los com
este eixo: o fundamental da educação são os estudantes
e os profissionais da educação.
Precisamos fazer do saber algo que tenha sabor e aproveitar todo o arsenal
incrível de informações. Milton Santos, nosso grande
professor e geógrafo, dizia que nunca a humanidade produziu tantos
bens, tantas utilidades, tantos artefatos, mas nunca também essa
riqueza, que é patrimônio comum, foi tão mal distribuída
ou tão usada não para informar, mas para divertir ou diversionar.
Portanto, é preciso otimizar o conhecimento com conteúdo
emancipatório. Uma educação sistemática que
tenha como eixo o ensino público, gratuito e de qualidade é
fundamental; também a remuneração condigna para quem
educa deve ser uma batalha de todos nós.
Portanto, este é um dia de luta, de celebração,
de afirmação da educação como elemento decisivo
para a própria sobrevivência da humanidade. Sem ela, não
nos constituiremos como pessoas, não nos constituiremos como Nação,
não nos constituiremos como civilização planetária
que sabe da riqueza que é conhecer, permanentemente. E essa é
uma tarefa coletiva.
Encerro com o grande Paulo Freire, nosso mestre de todas as horas: Ninguém
educa ninguém; as pessoas se educam em comunhão.
Vivam todos os que educam!
Chico Alencar
Líder do PSOL/RJ
15 de outubro de 2007
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