O SR. PEDRO SIIMON
(PMDB - RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.)
- Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, o seu nome é Heloísa.
Tem um outro de pia: Helena. Heloísa Helena. Poderia ser Maria, Dolores,
ou tantos outros nomes, naquela "serra magra e ossuda em que vivia".
Heloísa Helena viu a morte e viveu a vida Severina. Menos a do pai,
o finado Luiz, que poderia ser Raimundo, Zacarias, ou tantos outros nomes
"iguais em quase tudo na vida", porque a hora da chegada da menina
Heloísa foi, dois meses depois, de despedida. O sustento lhe deu
a mãe, costureira na lida, também de nome Helena, mas que
poderia ser, da mesma forma, Maria, Dolores ou, como tantas outras, igualmente,
Severina.
Heloísa acompanhou a dor dos retirantes. Mas ela não testemunhou
apenas a lágrima de quem partia. Viveu também o choro de quem
via, de quem permanecia. Dos homens em seus paus-de-arara e das "viúvas
da seca em seus paus-a-pique. Vivenciou a miséria. Gente morrendo
"de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte e de fome
um pouco por dia". Testemunhou a desgraça alheia, testemunhou
a desgraça humana, estampada nos rostos de milhões de conterrâneos
nordestinos, sem a "parte que lhes cabe, neste latifúndio",
sem trabalho, sem cidadania.
Inquieta, ela não poderia permanecer indolente ante tamanha miséria
humana. Guerreira, não fugiria à luta. Cresceu e engajou-se
nos movimentos sociais. Atuou nas lutas sindicais. Militou na política
estudantil. Talvez pela angústia de atenuar a dor e o sofrimento
daquela gente de "mesma cabeça grande, que a custo é
que se equilibra", decidiu ser enfermeira. Quem sabe o melhor remédio,
quem sabe uma última oração, quem sabe uma palavra
amiga, quem sabe um aperto derradeiro de mão... Mas ela tinha a convicção
de que tão-somente os curativos que faria não seriam suficientes
para sarar todas as feridas daquele povo, daquela gente. Teria que atuar
também em outro plano, mais amplo, o plano político.
Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores, jurou cumprir os seus estatutos
e o seu programa. Ocupou as ruas. Eleições diretas, liberdades
democráticas. Melhoria das condições de vida de seu
povo. Foi, com essas mesmas bandeiras, Vice-Governadora, Deputada Estadual,
Senadora da República.
O seu Partido chegou, enfim, à Presidência da República.
Ao poder. Oportunidade, enfim, para transformar o discurso em prática.
Mas o poder... Ah! O poder! O poder e suas metamorfoses! O poder subiu ao
planalto e, do mais alto de seus palácios, mostrou a Heloísa
os Ministérios, as esplanadas, as autarquias. "Eu te darei toda
a riqueza destes reinos, porque tudo isso foi entregue a mim, e posso dá-lo
a quem eu quiser. Portanto, se te ajoelhares diante de mim, tudo isso será
teu". "Tudo o que vês será teu, se me adorares..."
E, como na passagem bíblica de São Lucas e no Operário
em construção, de Vinicius de Moraes, ela disse "Não!".
Heloísa não caiu na tentação da reforma da previdência,
dos juros altos, do lucro bancário, do superávit fiscal, do
mensalão, do financiamento de campanha, do toma-lá-dá-cá,
dos campos majoritários. Então, ao contrário dos textos
bíblicos, "tendo afastado todas as formas de tentação",
não foram expulsos os vendilhões do templo, e sim ela, exatamente
uma de suas mais dedicadas guardiãs.
E a Senadora-operária "ouviu a voz/de todos os seus irmãos/os
seus irmãos que morreram/por outros que viverão/uma esperança
sincera/cresceu no seu coração". E ela permaneceu na
luta. Não mudou. Continuou aquela mesma menina que revolucionou discursos
e comportamentos neste Senado, leal aos ensinamentos de sua mãe,
Helena, e às aspirações de seu povo. Encanta-me, portanto,
a sua fidelidade ética!
Aliás, ela foi, no Senado, um dos principais contrapontos do comportamento
político de seu tempo. Dela nada se ouviu sobre qualquer desvio de
conduta, em tempos de mensalão e de sanguessugas. Ao contrario, ela
foi e continua sendo uma das mais incansáveis batalhadoras contra
qualquer tipo de corrupção e de desvio de conduta política.
Nesses casos, valendo-me de uma expressão popular, ela é o
exemplo mais perfeito da "adrenalina pura". Ou seria de um "ferrinho
de dentista"? Doce e meiga com os bons. Amarga e valente contra os
maus. Para os bons, "minha flor!". Para os maus, todos os espinhos.
Para mim, o discurso da Senadora Heloísa Helena soava neste plenário
algo assim como um corretor de textos. Ao primeiro sinal de erro político,
ela o sublinhava, ao mesmo tempo em que apontava as melhores e mais corretas
alternativas de sua correção. Bastava, então, dependendo
do julgamento de cada um, ignorar, alterar ou acrescentar. De minha parte,
eu jamais ignorei o seu texto, o seu discurso, a sua voz. No máximo,
propus algumas alterações muito mínimas. Na quase totalidade
das vezes, acrescentei as suas sugestões corretivas ao meu próprio
texto, ao meu discurso. Para meu orgulho, na linguagem política,
sempre tivemos o mesmo vernáculo.
Eu já disse um dia, a importância de uma pessoa se mede principalmente
pela falta que ela nos faz. São aquelas que não se contentam
em viver a história. Fazem a história. Hoje, sem a presença
física da Senadora Heloísa Helena neste plenário, é
que a gente mede a saudade que ela nos deixou. Saudade temporária,
para o nosso consolo. Duradoura, para as nossas necessidades.
A Senadora Heloísa Helena juntou-se a nós, neste plenário,
em 1999, no calor da juventude dos seus 37 anos, para representar o seu
Estado, Alagoas. Foi uma das Senadoras mais laboriosas nas Comissões
Permanentes desta Casa. Nas Comissões Parlamentares de Inquérito,
debruçava-se, horas a fio, noites adentro, sobre calhamaços
de documentos, guiada e iluminada pela luz da verdade. Em novembro de 2005,
em eleição livre, promovida pela revista Forbes Brasil, foi
eleita a mulher mais influente na política e no Legislativo brasileiro.
Em dezembro do mesmo ano, os profissionais de comunicação,
agências de publicidade e leitores da Revista Istoé/Gente elegeram
Heloísa Helena como "Personalidade do ano de 2005".
Católica, devota de São Francisco de Assis, ela mostrou desde
o início de seu mandato que inauguraria, a partir dali, uma nova
era de comportamento no Senado Federal. "Pedi a Deus para, em todos
os momentos, vencer a vaidade e vencer o luxo", dizia ela. Abandonou
as maquiagens, adotou uma espécie de uniforme para o trabalho: blusa
branca e calça jeans desbotada; cabelo preso, estilo rabo-de-cavalo;
dispensou o carro oficial com motorista e outras facilidades que os regimentos
lhe permitiam. "Fui testada pelos rituais esnobes, cínicos e
mentirosos, porém sedutores, e não me dobrei. Isso me dá
uma suprema satisfação moral", dizia Heloísa.
Heloísa era uma iluminada. Aquela aparência franzina e frágil
de menina corporificava a força e a coragem de mulher guerreira.
Sem meias palavras, travou debates dos mais intensos com seus adversários
políticos. Em plenário e nas Comissões, transformou-se
na voz mais firme em defesa do seu povo, ao mesmo tempo em que destilava
ataques devastadores contra o que ela chamava sempre de "elites putrefatas",
"políticos parasitas do poder" e "bajuladores de plantão".
Foi a crítica mais severa do que se chamou "política
neoliberal" no Governo Fernando Henrique Cardoso. Colocou-se, frontalmente,
contra as teses do "Estado-mínimo", do "pensamento-único"
e do programa de privatizações, principalmente de empresas
emblemáticas, como o que já havia ocorrido com a Companhia
Vale do Rio Doce e as que o governo daquela época colocava à
venda, no mesmo momento em que veio à tona o tal "limite da
irresponsabilidade". Criticou, severamente, o desmantelamento da economia
genuinamente nacional e do mercado interno, a política de juros altos
e seu efeito esmagador, principalmente para o pequeno empresário,
e as reformas que surrupiavam direitos adquiridos dos trabalhadores. Defendeu,
com igual bravura, a melhor distribuição da terra e da renda,
mais ética no gasto público e uma política de poder
que envolvesse efetivamente a classe trabalhadora.
A Senadora Heloísa Helena foi uma das maiores batalhadoras pela eleição
do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Acreditava, como todos os
brasileiros, que a eleição de um político que surgira
da base trabalhadora constituir-se-ia não apenas em uma era de mudanças,
mas, muito mais, uma mudança de era. Jogou, portanto, todas as suas
fichas num jogo político que, para ela, e para todos nós,
parecia "de carta marcada", tamanha a certeza de que o País,
a partir da "vitória dos trabalhadores", além do
mais democrático e soberano, seria, de fato, cidadão.
Por tudo isso que ela passou, incluindo maledicências de toda a ordem,
não mudou um único milímetro em sua rota política.
Não se curvou às tais tentações do poder. "Dia
seguinte, o operário/ao sair da construção/viu-se súbito
cercado/dos homens da delação/e sofreu por destinado/sua primeira
agressão/teve seu rosto cuspido/teve seu braço quebrado/mas,
quando foi perguntado/o operário disse não". É
que, "em cada coisa que via/misteriosamente havia/a marca de sua mão".
"É muito triste, muito angustiante", dizia ela, quando
da sua expulsão partidária. Acordava, chorando, no meio da
noite. Parecia-lhe um pesadelo aquele calvário que lhe feria a alma.
O golpe que lhe foi dado foi duro demais. Mas, mais uma vez, não
o suficiente para fazê-la esmorecer. Fundou, então, um outro
partido, o P-SOL, Partido Socialismo e Liberdade. Talvez não tenha
sido tão grande o trabalho para elaborar o novo programa partidário.
Bastou, quem sabe, uma nova redação ao mesmo conteúdo
que lhe acompanhara a vida inteira até aquele momento. Bastava projetar
a sua própria história. E a luta continuou.
No ano passado, a Senadora Heloísa Helena partiu, quem sabe, para
o maior desafio de sua vida: com poucos recursos, contra a estrutura de
partidos históricos, "liberais", "democráticos",
"trabalhistas" e "dos trabalhadores", recebeu mais de
seis milhões e quinhentos mil votos, quase sete por cento de todos
os votos válidos dos eleitores brasileiros. Não importa se
ela não foi para o segundo turno: ela é, por toda a sua história,
uma vencedora.
Na despedida do Senado, um retrato de sua simplicidade, conforme interesse
de uma reportagem da revista Istoé daquela época. "Enfermeira
por formação e professora de epidemiologia e planejamento
de serviços públicos da Universidade Federal de Alagoas, a
combativa Senadora começa a se despedir do Parlamento. Em casa, deu
início ao processo de encaixotar as coisas. E haja caixa. 'Loló',
como é conhecida na intimidade, adora fazer coleções.
Sob a estante de sua tevê repousam várias pedras, de todos
os tamanhos e cores que pegou ainda pequena no rio Moxotó, que atravessa
o povoado de Posso Brandão no sertão de Alagoas onde nasceu.
É lá que duas vezes por ano ela costuma andar de madrugada
só para apreciar a floração dos cactos, hábito
que mantém desde garota. "Eles dão flores lindas, coloridas
e pequenas, visíveis apenas para quem tem os olhos de um sertanejo,
como eu", diz. "Lá me reencontro com a minha essência,
me deparo com a história da menina pobre e sobrevivente que vivia
com longas tranças no cabelo e pés descalços".
De onde viria tamanha humildade? A resposta pode ser encontrada na mesma
reportagem da Istoé: "Da coleção de imagens de
São Francisco de Assis, seu santo de devoção, às
citações de trechos bíblicos, que sempre procura encaixar
em suas conversas mais íntimas, Heloísa expõe um lado
que pouco combina com a feroz socialista conhecida por todos: o da católica
fervorosa. "Quando me dizem que a religião é o ópio
do povo, eu respondo que a fé é o ópio que suaviza
as minhas dores e me dá forças para ajudar a minimizar a dor
alheia". É assim que ela não deixa que o ódio
ou a vingança domine sua conduta, tanto na vida pública quanto
na sua existência particular.
Hoje, a Senadora Heloísa Helena divide o seu tempo entre o ensino
e a atividade política. Felizes os alunos, que aprendem com a sua
sabedoria. Felizes todos nós, que continuamos a conviver com a sua
obstinação. Ela continua rimando palavra com ação.
Não será, portanto, um mero pó de giz que vai calar
a sua voz. Quem sabe o destino tenha lhe reservado, mais uma vez, a missão
de personificar a verdadeira voz rouca das ruas.
A bênção, São Francisco de Assis, mensageiro
da humildade:
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
A bênção, Vinícius de Moraes, poeta brasileiro:
Uma esperança sincera cresceu no seu coração e dentro
da tarde mansa agigantou-se a razão de um homem pobre e esquecido
razão porém que fizera em operário construído
o operário em construção.
A bênção, João Cabral de Mello Neto, poeta
nordestino:
E não há melhor resposta que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica
que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar como há
pouco em nova vida explodida mesmo quando é assim pequena a explosão,
como a ocorrida como a de há pouco, franzina mesmo quando é
a explosão de uma vida severina.
A bênção, Heloísa Helena Lima de Moraes Carvalho,
nordestina e brasileira:
"Nasci, como nascem milhares de meninas brasileiras... marcadas para
cumprir o destino do quartinho de empregada ou da venda do corpo por um
prato de comida. Fui uma criança muito doente, diziam que eu morreria
antes dos 7 anos, tinha asma, problemas renais, complicações
para todos os gostos. Meu pai, Luiz, era funcionário público,
morreu de câncer quando completei dois meses. Cosme, meu irmão
mais velho, foi assassinado ainda menino. Ficamos eu, meu irmão,
Hélio, e minha mãe. Filha de trabalhadores rurais, ela aprendeu
a ler junto comigo. Minhas brincadeiras eram correr com cabras no sertão.
Muitas vezes, pulava dos trens na cidade, brigava na rua e... apanhava
em casa. Engolia meus medos e protegia os mais fracos. Era uma magrelinha
sobrevivente!... Em casa, dividíamos o pouco que tínhamos
com os outros. Minha mãe tinha criado os irmãos no cabo
da enxada, sabia o que era dificuldade.
Era durona, não dava moleza, não: ensinou que honestidade
estava em primeiro lugar. Ela bordava os vestidos das madames, e eu ficava
encantada, queria usar parte daquelas continhas para fazer uma roupa para
a minha boneca Suzi, velhinha e linda, que encontrei no lixo. Minha mãe
não permitia, colocava as pedrinhas no saquinho, para devolver
[às madames]. "
***
O Senador Pedro Simon foi aparteado, para acrescentar elogios, pelos Senadores
Eduardo Suplicy (PT/SP), Mão Santa (PMDB/PI), José Nery
(PSOL/PA), Flexa Ribeiro (PSDB/PA) e pela Senadora Patrícia Saboya
Gomes (PSB/CE).
|