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LOUVAÇÃO A HELOÍSA HELENA
 
O Senador Pedro Simon (PMDB-RS) fez pronunciameneto no Senado (18/04/2007) em que enaltece a coerência de Heloísa Helena. Como constata o senador gaúcho, "Heloísa não caiu na tentação da reforma da previdência, dos juros altos, do lucro bancário, do superávit fiscal, do mensalão, do financiamento de campanha, do toma-lá-dá-cá, dos campos majoritários. Então, ao contrário dos textos bíblicos, 'tendo afastado todas as formas de tentação', não foram expulsos os vendilhões do templo, e sim ela, exatamente uma de suas mais dedicadas guardiãs". Leia o pronunciamento.
 
O SR. PEDRO SIIMON (PMDB - RS. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) - Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, o seu nome é Heloísa. Tem um outro de pia: Helena. Heloísa Helena. Poderia ser Maria, Dolores, ou tantos outros nomes, naquela "serra magra e ossuda em que vivia".
Heloísa Helena viu a morte e viveu a vida Severina. Menos a do pai, o finado Luiz, que poderia ser Raimundo, Zacarias, ou tantos outros nomes "iguais em quase tudo na vida", porque a hora da chegada da menina Heloísa foi, dois meses depois, de despedida. O sustento lhe deu a mãe, costureira na lida, também de nome Helena, mas que poderia ser, da mesma forma, Maria, Dolores ou, como tantas outras, igualmente, Severina.
Heloísa acompanhou a dor dos retirantes. Mas ela não testemunhou apenas a lágrima de quem partia. Viveu também o choro de quem via, de quem permanecia. Dos homens em seus paus-de-arara e das "viúvas da seca em seus paus-a-pique. Vivenciou a miséria. Gente morrendo "de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte e de fome um pouco por dia". Testemunhou a desgraça alheia, testemunhou a desgraça humana, estampada nos rostos de milhões de conterrâneos nordestinos, sem a "parte que lhes cabe, neste latifúndio", sem trabalho, sem cidadania.
Inquieta, ela não poderia permanecer indolente ante tamanha miséria humana. Guerreira, não fugiria à luta. Cresceu e engajou-se nos movimentos sociais. Atuou nas lutas sindicais. Militou na política estudantil. Talvez pela angústia de atenuar a dor e o sofrimento daquela gente de "mesma cabeça grande, que a custo é que se equilibra", decidiu ser enfermeira. Quem sabe o melhor remédio, quem sabe uma última oração, quem sabe uma palavra amiga, quem sabe um aperto derradeiro de mão... Mas ela tinha a convicção de que tão-somente os curativos que faria não seriam suficientes para sarar todas as feridas daquele povo, daquela gente. Teria que atuar também em outro plano, mais amplo, o plano político.
Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores, jurou cumprir os seus estatutos e o seu programa. Ocupou as ruas. Eleições diretas, liberdades democráticas. Melhoria das condições de vida de seu povo. Foi, com essas mesmas bandeiras, Vice-Governadora, Deputada Estadual, Senadora da República.
O seu Partido chegou, enfim, à Presidência da República. Ao poder. Oportunidade, enfim, para transformar o discurso em prática. Mas o poder... Ah! O poder! O poder e suas metamorfoses! O poder subiu ao planalto e, do mais alto de seus palácios, mostrou a Heloísa os Ministérios, as esplanadas, as autarquias. "Eu te darei toda a riqueza destes reinos, porque tudo isso foi entregue a mim, e posso dá-lo a quem eu quiser. Portanto, se te ajoelhares diante de mim, tudo isso será teu". "Tudo o que vês será teu, se me adorares..." E, como na passagem bíblica de São Lucas e no Operário em construção, de Vinicius de Moraes, ela disse "Não!".
Heloísa não caiu na tentação da reforma da previdência, dos juros altos, do lucro bancário, do superávit fiscal, do mensalão, do financiamento de campanha, do toma-lá-dá-cá, dos campos majoritários. Então, ao contrário dos textos bíblicos, "tendo afastado todas as formas de tentação", não foram expulsos os vendilhões do templo, e sim ela, exatamente uma de suas mais dedicadas guardiãs.
E a Senadora-operária "ouviu a voz/de todos os seus irmãos/os seus irmãos que morreram/por outros que viverão/uma esperança sincera/cresceu no seu coração". E ela permaneceu na luta. Não mudou. Continuou aquela mesma menina que revolucionou discursos e comportamentos neste Senado, leal aos ensinamentos de sua mãe, Helena, e às aspirações de seu povo. Encanta-me, portanto, a sua fidelidade ética!
Aliás, ela foi, no Senado, um dos principais contrapontos do comportamento político de seu tempo. Dela nada se ouviu sobre qualquer desvio de conduta, em tempos de mensalão e de sanguessugas. Ao contrario, ela foi e continua sendo uma das mais incansáveis batalhadoras contra qualquer tipo de corrupção e de desvio de conduta política. Nesses casos, valendo-me de uma expressão popular, ela é o exemplo mais perfeito da "adrenalina pura". Ou seria de um "ferrinho de dentista"? Doce e meiga com os bons. Amarga e valente contra os maus. Para os bons, "minha flor!". Para os maus, todos os espinhos.
Para mim, o discurso da Senadora Heloísa Helena soava neste plenário algo assim como um corretor de textos. Ao primeiro sinal de erro político, ela o sublinhava, ao mesmo tempo em que apontava as melhores e mais corretas alternativas de sua correção. Bastava, então, dependendo do julgamento de cada um, ignorar, alterar ou acrescentar. De minha parte, eu jamais ignorei o seu texto, o seu discurso, a sua voz. No máximo, propus algumas alterações muito mínimas. Na quase totalidade das vezes, acrescentei as suas sugestões corretivas ao meu próprio texto, ao meu discurso. Para meu orgulho, na linguagem política, sempre tivemos o mesmo vernáculo.
Eu já disse um dia, a importância de uma pessoa se mede principalmente pela falta que ela nos faz. São aquelas que não se contentam em viver a história. Fazem a história. Hoje, sem a presença física da Senadora Heloísa Helena neste plenário, é que a gente mede a saudade que ela nos deixou. Saudade temporária, para o nosso consolo. Duradoura, para as nossas necessidades.
A Senadora Heloísa Helena juntou-se a nós, neste plenário, em 1999, no calor da juventude dos seus 37 anos, para representar o seu Estado, Alagoas. Foi uma das Senadoras mais laboriosas nas Comissões Permanentes desta Casa. Nas Comissões Parlamentares de Inquérito, debruçava-se, horas a fio, noites adentro, sobre calhamaços de documentos, guiada e iluminada pela luz da verdade. Em novembro de 2005, em eleição livre, promovida pela revista Forbes Brasil, foi eleita a mulher mais influente na política e no Legislativo brasileiro. Em dezembro do mesmo ano, os profissionais de comunicação, agências de publicidade e leitores da Revista Istoé/Gente elegeram Heloísa Helena como "Personalidade do ano de 2005".
Católica, devota de São Francisco de Assis, ela mostrou desde o início de seu mandato que inauguraria, a partir dali, uma nova era de comportamento no Senado Federal. "Pedi a Deus para, em todos os momentos, vencer a vaidade e vencer o luxo", dizia ela. Abandonou as maquiagens, adotou uma espécie de uniforme para o trabalho: blusa branca e calça jeans desbotada; cabelo preso, estilo rabo-de-cavalo; dispensou o carro oficial com motorista e outras facilidades que os regimentos lhe permitiam. "Fui testada pelos rituais esnobes, cínicos e mentirosos, porém sedutores, e não me dobrei. Isso me dá uma suprema satisfação moral", dizia Heloísa.
Heloísa era uma iluminada. Aquela aparência franzina e frágil de menina corporificava a força e a coragem de mulher guerreira. Sem meias palavras, travou debates dos mais intensos com seus adversários políticos. Em plenário e nas Comissões, transformou-se na voz mais firme em defesa do seu povo, ao mesmo tempo em que destilava ataques devastadores contra o que ela chamava sempre de "elites putrefatas", "políticos parasitas do poder" e "bajuladores de plantão".
Foi a crítica mais severa do que se chamou "política neoliberal" no Governo Fernando Henrique Cardoso. Colocou-se, frontalmente, contra as teses do "Estado-mínimo", do "pensamento-único" e do programa de privatizações, principalmente de empresas emblemáticas, como o que já havia ocorrido com a Companhia Vale do Rio Doce e as que o governo daquela época colocava à venda, no mesmo momento em que veio à tona o tal "limite da irresponsabilidade". Criticou, severamente, o desmantelamento da economia genuinamente nacional e do mercado interno, a política de juros altos e seu efeito esmagador, principalmente para o pequeno empresário, e as reformas que surrupiavam direitos adquiridos dos trabalhadores. Defendeu, com igual bravura, a melhor distribuição da terra e da renda, mais ética no gasto público e uma política de poder que envolvesse efetivamente a classe trabalhadora.
A Senadora Heloísa Helena foi uma das maiores batalhadoras pela eleição do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Acreditava, como todos os brasileiros, que a eleição de um político que surgira da base trabalhadora constituir-se-ia não apenas em uma era de mudanças, mas, muito mais, uma mudança de era. Jogou, portanto, todas as suas fichas num jogo político que, para ela, e para todos nós, parecia "de carta marcada", tamanha a certeza de que o País, a partir da "vitória dos trabalhadores", além do mais democrático e soberano, seria, de fato, cidadão.
Por tudo isso que ela passou, incluindo maledicências de toda a ordem, não mudou um único milímetro em sua rota política. Não se curvou às tais tentações do poder. "Dia seguinte, o operário/ao sair da construção/viu-se súbito cercado/dos homens da delação/e sofreu por destinado/sua primeira agressão/teve seu rosto cuspido/teve seu braço quebrado/mas, quando foi perguntado/o operário disse não". É que, "em cada coisa que via/misteriosamente havia/a marca de sua mão".
"É muito triste, muito angustiante", dizia ela, quando da sua expulsão partidária. Acordava, chorando, no meio da noite. Parecia-lhe um pesadelo aquele calvário que lhe feria a alma. O golpe que lhe foi dado foi duro demais. Mas, mais uma vez, não o suficiente para fazê-la esmorecer. Fundou, então, um outro partido, o P-SOL, Partido Socialismo e Liberdade. Talvez não tenha sido tão grande o trabalho para elaborar o novo programa partidário. Bastou, quem sabe, uma nova redação ao mesmo conteúdo que lhe acompanhara a vida inteira até aquele momento. Bastava projetar a sua própria história. E a luta continuou.
No ano passado, a Senadora Heloísa Helena partiu, quem sabe, para o maior desafio de sua vida: com poucos recursos, contra a estrutura de partidos históricos, "liberais", "democráticos", "trabalhistas" e "dos trabalhadores", recebeu mais de seis milhões e quinhentos mil votos, quase sete por cento de todos os votos válidos dos eleitores brasileiros. Não importa se ela não foi para o segundo turno: ela é, por toda a sua história, uma vencedora.
Na despedida do Senado, um retrato de sua simplicidade, conforme interesse de uma reportagem da revista Istoé daquela época. "Enfermeira por formação e professora de epidemiologia e planejamento de serviços públicos da Universidade Federal de Alagoas, a combativa Senadora começa a se despedir do Parlamento. Em casa, deu início ao processo de encaixotar as coisas. E haja caixa. 'Loló', como é conhecida na intimidade, adora fazer coleções. Sob a estante de sua tevê repousam várias pedras, de todos os tamanhos e cores que pegou ainda pequena no rio Moxotó, que atravessa o povoado de Posso Brandão no sertão de Alagoas onde nasceu. É lá que duas vezes por ano ela costuma andar de madrugada só para apreciar a floração dos cactos, hábito que mantém desde garota. "Eles dão flores lindas, coloridas e pequenas, visíveis apenas para quem tem os olhos de um sertanejo, como eu", diz. "Lá me reencontro com a minha essência, me deparo com a história da menina pobre e sobrevivente que vivia com longas tranças no cabelo e pés descalços".
De onde viria tamanha humildade? A resposta pode ser encontrada na mesma reportagem da Istoé: "Da coleção de imagens de São Francisco de Assis, seu santo de devoção, às citações de trechos bíblicos, que sempre procura encaixar em suas conversas mais íntimas, Heloísa expõe um lado que pouco combina com a feroz socialista conhecida por todos: o da católica fervorosa. "Quando me dizem que a religião é o ópio do povo, eu respondo que a fé é o ópio que suaviza as minhas dores e me dá forças para ajudar a minimizar a dor alheia". É assim que ela não deixa que o ódio ou a vingança domine sua conduta, tanto na vida pública quanto na sua existência particular.
Hoje, a Senadora Heloísa Helena divide o seu tempo entre o ensino e a atividade política. Felizes os alunos, que aprendem com a sua sabedoria. Felizes todos nós, que continuamos a conviver com a sua obstinação. Ela continua rimando palavra com ação. Não será, portanto, um mero pó de giz que vai calar a sua voz. Quem sabe o destino tenha lhe reservado, mais uma vez, a missão de personificar a verdadeira voz rouca das ruas.
A bênção, São Francisco de Assis, mensageiro da humildade:

Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
A bênção, Vinícius de Moraes, poeta brasileiro:
Uma esperança sincera cresceu no seu coração e dentro da tarde mansa agigantou-se a razão de um homem pobre e esquecido razão porém que fizera em operário construído o operário em construção.
A bênção, João Cabral de Mello Neto, poeta nordestino:
E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida mesmo quando é assim pequena a explosão, como a ocorrida como a de há pouco, franzina mesmo quando é a explosão de uma vida severina.
A bênção, Heloísa Helena Lima de Moraes Carvalho, nordestina e brasileira:
"Nasci, como nascem milhares de meninas brasileiras... marcadas para cumprir o destino do quartinho de empregada ou da venda do corpo por um prato de comida. Fui uma criança muito doente, diziam que eu morreria antes dos 7 anos, tinha asma, problemas renais, complicações para todos os gostos. Meu pai, Luiz, era funcionário público, morreu de câncer quando completei dois meses. Cosme, meu irmão mais velho, foi assassinado ainda menino. Ficamos eu, meu irmão, Hélio, e minha mãe. Filha de trabalhadores rurais, ela aprendeu a ler junto comigo. Minhas brincadeiras eram correr com cabras no sertão. Muitas vezes, pulava dos trens na cidade, brigava na rua e... apanhava em casa. Engolia meus medos e protegia os mais fracos. Era uma magrelinha sobrevivente!... Em casa, dividíamos o pouco que tínhamos com os outros. Minha mãe tinha criado os irmãos no cabo da enxada, sabia o que era dificuldade.
Era durona, não dava moleza, não: ensinou que honestidade estava em primeiro lugar. Ela bordava os vestidos das madames, e eu ficava encantada, queria usar parte daquelas continhas para fazer uma roupa para a minha boneca Suzi, velhinha e linda, que encontrei no lixo. Minha mãe não permitia, colocava as pedrinhas no saquinho, para devolver [às madames]. "
***
O Senador Pedro Simon foi aparteado, para acrescentar elogios, pelos Senadores Eduardo Suplicy (PT/SP), Mão Santa (PMDB/PI), José Nery (PSOL/PA), Flexa Ribeiro (PSDB/PA) e pela Senadora Patrícia Saboya Gomes (PSB/CE).

 

   
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