| Chico, em pronunciamento na
Câmara dos Deputados, manifesta o apoio do PSOL à realização
do Pan-americano, mas critica a Medida Provisória 356 que "abre
crédito extraordinário de R$ 100 milhões a ser destinado
ao financiamento de infra-estrutura e logística dos jogos".
Chico assinala que os "recursos não têm um objeto específico
para investimento, mas é previsto numa rubrica genérica, sem
que se possa saber com precisão como serão gastos e qual sua
real dimensão e importância para agilizar e viabilizar, em
tempo hábil, um evento esportivo de dimensão continental".
E chama a atenção para o fato de essa ser "a quarta medida
provisória que libera recursos para o PAN-Americano", o que
"demonstra como tem sido precária a gestão administrativa
para se estruturar, com planejamento adequado e critérios técnicos
eficientes, as condições de infra-estrutura e logística".
Leia o pronunciamento. |
Sr. Presidente, Srªs.
e Srs. Parlamentares,
A MP 356 abre crédito extraordinário de R$ 100 milhões
a ser destinado ao financiamento de infra-estrutura e logística dos
jogos Pan-Americanos, a ser realizado na cidade do Rio de Janeiro, entre
os dias 13 e 29 de julho de 2007.
Estes recursos não têm um objeto específico para investimento,
mas é previsto numa rubrica genérica, sem que se possa saber
com precisão como serão gastos e qual sua real dimensão
e importância para agilizar e viabilizar, em tempo hábil, um
evento esportivo de dimensão continental.
Esta é a quarta medida provisória que libera recursos para
o PAN-Americano. A realidade deste fato demonstra como tem sido precária
a gestão administrativa para se estruturar, com planejamento adequado
e critérios técnicos eficientes, as condições
de infra-estrutura e logística. A urgência alegada e a imprevisibilidade
financeira recorrente revelam o espírito aventureiro como tem se
conduzido os responsáveis por organizar este mega-evento.
É injustificável o descontrole nas previsões orçamentárias.
Os custos iniciais, apontados em fevereiro de 2003, eram de cerca de R$
800 milhões. Hoje, se fala em valores na ordem de R$ 3,5 bilhões.
As medidas provisórias com créditos extraordinários
já liberaram cerca de R$ 700 milhões.
Mas o que nos deixa temerosos e inseguros quanto a lisura dos procedimentos
é o alerta do Tribunal de Contas da União, que aponta diversas
suspeitas referentes a má aplicação do dinheiro público,
em especial, dos gastos do Governo Federal. O documento revela suspeitas
graves de ilícitos na construção do Complexo de Deodoro,
sob a responsabilidade do Governo Federal, que aumentou os gastos previstos
inicialmente de R$ 76,8 milhões para R$ 87,7 milhões ( sendo
que hoje a previsão de investimento é de R$ 94 milhões).
Elenca, ainda, indícios: pagamento direto a empresas subcontratadas,
provável existência de duplicidade de orçamentação,
superfaturamento nos custos das obras, erros na planilha de custos e cronograma
de trabalho, execução de serviços sem prévia
licitação, ausência de fiscalização no
cumprimento do contrato, pagamento antecipado de serviços, entre
outras irregularidades detectadas em relação às obras
do Parque Aquático e Vila Militar, a cessão do uso dos imóveis
da Vila Pan-americana e aos atrasos nas obras da Marina da Glória,
do Maracanãzinho, do Estádio João Havelange, que inclusive,
segundo o TCU, podem comprometer a realização dos jogos.
A contratação de empresas e serviços sem licitações
também é uma fonte de preocupações do TCU. O
Governo Federal não licitou um contrato de R$ 161 milhões
para a segurança dos jogos, fazendo com que a Prefeitura do Rio de
Janeiro procedesse de forma também irregular na contratação
de empresa de segurança envolvendo R$ 134 milhões. As empresas
responsáveis pelo cerimonial e a venda de bilhetes, igualmente foram
contratadas sem licitação.
Estes fatos precisam ser esclarecidos. Foi constituída uma subcomissão
especial da Comissão de Turismo e Desporto com a incumbência
de acompanhar os preparativos e a realização dos jogos pan-americanos
no Rio. É preciso saber se estas suspeitas têm sido tratadas
nesta subcomissão. Não podemos ficar reféns de fatos
obscuros no manuseio de recursos públicos. Será uma leviandade
e ato irresponsável se aprovarmos mais um crédito extraordinário
de R$ 100 milhões, retirando recursos de R$ 16 milhões da
saúde pública, 43 milhões do Ministério das
Cidades e 12 milhões do Ministério dos Transportes, fragilizando
a qualidade da assistência e prevenção à saúde,
o sistema de abastecimento e saneamento ambiental e o transporte coletivo.
A população brasileira espera seriedade de seus governantes.
A população brasileira espera que se realizem os jogos pan-americanos.
A população brasileira espera a melhoria dos serviços
públicos e o respeito aos seus direitos sociais, que inclui saúde
pública, água potável e esgotamento sanitário
e transporte coletivo com qualidade.
Nosso compromisso é que seja resgatada a ética na gestão
administrativa que cuida da infra-estrutura para a realização
dos jogos pan-americanos no Rio de Janeiro. O Governo Federal precisa intervir
para corrigir os desvios e abusos praticados na aplicação
dos recursos públicos destinados às obras e segurança
do pan-americano. É falso o argumento da necessidade de se retirar
recursos de políticas públicas essenciais para a população
brasileira para se financiar um evento esportivo de importância continental.
O governo desperdiça bilhões de reais para sustentar a especulação
financeira e pagar juros da dívida( juros e amortizações
consumiram R$ 275 bilhões em 2006). A decisão de reduzir o
superávit primário permitiria não só financiar
a realização do pan-americano, mas alavancar o crescimento
econômico de forma efetiva, preservando e melhorando a qualidade dos
serviços públicos.
O Comitê Social do PAN, que reune 17 entidades, divulgou " Manifesto
Pela Cidade do Rio de Janeiro", denunciando o desrespeito e a falta
de transparência na condução da organização
e preparação do XV Jogos Pan-americanos, inclusive de privatizações
do espaço público, da ausência de diálogo e debate
com moradores e esportistas.
Entendemos que a realização dos jogos pan-americanos é
uma oportunidade de se abrir às fronteiras mundiais para projetar
o Brasil. Mas o Brasil decente, da riqueza cultural, da beleza natural,
da alegria e hospitalidade, da paz e do amor. Não o Brasil da corrupção,
da violência e da injustiça social.
Este evento merece o pleno apoio da bancada do PSOL, pois simboliza um momento
de confraternização entre os povos americanos e a valorização
do esporte como um componente saudável para a vida. E os investimentos
realizados com prudência e lisura administrativa, com participação
e controle da sociedade, significará a incorporação
de benefícios para a cidade do Rio de Janeiro, beneficiando a qualidade
de vida das atuais e futuras gerações.
Deputado CHICO ALENCAR - Líder do PSOL
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