| Em pronunciamento na
Câmara dos Deputados, Chico afirma que Sergio Cabral, ao propor mudança
na legislação ambiental, favorece a Aracruz Celulose. "O
irônico de tudo isso é exatamente o fato de que um dos patrocinadores
da revisão da lei é justamente o seu autor, que ocupa hoje
o cargo de secretário de Meio Ambiente do Governo Cabral". Leia
o pronunciamento
Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados e todos os que assistem
a esta sessão ou nela trabalham:
O que era apenas uma ameaça, noticiada em março deste ano,
tornou-se realidade no início deste mês. O Caderno de Negócios
de O Globo, do último dia 3, publicou a seguinte matéria:
"Cabral assina projeto que muda lei ambiental em benefício
da Aracruz Celulose. O investimento será bem-vindo, se depender
do governador. Ontem à tarde, Sérgio Cabral Filho assinou
o novo projeto de lei sobre reflorestamento comercial. O texto muda a
lei 4.063/2003, que inviabiliza o plantio de florestas de eucalipto e
estimula investimentos em solos degradados do Norte e do Noroeste Fluminense.
A proposta, apoiada por Carlos Minc, secretário estadual de Meio
Ambiente e autor da lei original, chega hoje à Alerj".
O irônico de tudo isso é exatamente o fato de que um dos
patrocinadores da revisão da lei é justamente o seu autor,
que ocupa hoje o cargo de secretário do Meio Ambiente do Governo
Cabral. Certamente, foi a preocupação com os impactos sociais
e ambientais da monocultura de eucalipto que fez com que Minc propusesse
uma "reserva" de 30% da área para a mata nativa, bem
como a necessidade de um zoneamento ecológico-econômico para
permitir o seu plantio. Hoje, essa reserva é reduzida à
metade e o zoneamento exigido é apenas regional.
O pesquisador Sérgio Ricardo, que integra a "Rede Alerta contra
o Deserto Verde" denuncia o fato de que "enquanto em outros
estados, logicamente que empurrado pelos movimentos sociais, o Ministério
Público começa a cobrar o expressivo passivo sócio-ambiental
da poluidora Aracruz Celulose, no Rio vemos um retrocesso".
Aliás, é extensa a relação de conflitos do
monocultivo de eucalipto, em especial da Aracruz, em nosso país,
principalmente nos estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia
e Rio Grande do Sul, envolvendo comunidades indígenas, quilombolas
e pequenos agricultores, que ou têm sido expulsos de suas terras,
ou vêem o seu entorno serem degradados, pelo desmatamento, perda
da biodiversidade, utilização de agrotóxicos, contaminação
de solos, lençóis freáticos e nascentes, mas, principalmente,
porque, sendo uma cultura, que demanda uma quantidade muito grande de
água, nada mais nasce ao seu redor. São, por isso, chamados
de "desertos verdes".
No Espírito Santo, por exemplo, sua expansão, denuncia Vinni
Corrêa (www.mcls-rj.org), se deu "através da tomada
das terras dos índios, quilombolas e pequenos proprietários
(...) Além disso, destruiu boa parte da Mata Atlântica onde
220 mil hectares foram utilizados para o plantio dos eucaliptos, o chamado
deserto verde". No Rio Grande do Sul a ameaça se faz contra
o mais importante bioma da região, o Pampa, na metade sul gaúcha.
Na região sudeste, são os rios Paraíba do Sul e Muriaé
que sofrem com os resíduos tóxicos da indústria de
celulose.
Poderia se argumentar, em tese, em favor desse agronegócio, que
ele se instalaria em terrenos degradados. Ainda que se pudesse "esquecer"
todos os impactos ambientais da atividade acima referidos (que não
estão relacionados apenas ao desmatamento), é preciso estar
atento ao alerta da bióloga e professora gaúcha Luiza Chomenko,
para quem:
"A questão dos cultivos de monoculturas, independentemente
do que seja plantado, são sempre um risco. Seja ele ambiental (risco
direto à biodiversidade e a recursos abióticos que lhe dão
sustentação) ou sanitário (...) Pode ser, também,
um risco cultural (as populações locais terão de
se adaptar ao novo modelo de uso da terra) ou econômico (dependência
direta de mercado e de outros fatores que poderão desconsiderar
as realidades locais" (boletim da Unisinos).
Além disso tudo, a contrapartida em empregos não "compensa"
seu passivo ambiental. Enquanto o plantio de feijão emprega 11
trabalhadores por hectare e o de mandioca, 38, o cultivo de eucalipto
emprega, apenas, uma única pessoa por hectare. Daí que a
monocultura de eucalipto é, além de tudo, um dos vetores
da concentração fundiária no Brasil. Para se ter
uma idéia do impacto dessa política pública nas regiões
norte e noroeste do Estado, 80% das terras disponíveis - que são
cobiçadas pela Aracruz - se encontram destinadas à Reforma
Agrária, como ainda denuncia, no Jornal do Brasil, de 4 de abril
deste ano, o ambientalista Sérgio Ricardo.
É por isso, Sr. Presidente, senhoras e senhores parlamentares,
que quero manifestar o meu mais irrestrito apoio à iniciativa da
Central Única dos Trabalhadores (CUT) de meu estado, pela sua comissão
do meio ambiente, que, juntamente com a Rede Alerta contra o Deserto Verde
Fluminense (que tem, dentre suas entidades, o MST, a FETAG e a AGB) de
solicitar uma audiência com o Governador do Estado para tratar da
questão e buscar alternativas que "verdadeiramente apresentem
sustentabilidade social, ambiental e econômica para o Estado do
Rio de Janeiro".
Da Assembléia Legislativa, casa que tive a honra de integrar, se
espera que não seja conivente com esse retrocesso e assegure, não
só a manutenção da lei original, mas também
proponha políticas públicas que sejam, a um só tempo,
socialmente justas, politicamente democráticas e ambientalmente
sustentáveis e responsáveis.
Sala das Sessões, 15 de maio de 2007.
Agradeço a atenção.
Chico Alencar - Deputado Federal, PSOL/RJ - Líder do PSOL
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