Registro, com preocupação
em função da insensibilidade costumeira das autoridades, as
razões da retomada da jornada de ilimitado jejum e orações
do bispo franciscano da diocese de Barra, na Bahia, Dom Luiz Flávio
Cappio.
Dom Tomás Balduíno, conselheiro permanente da CPT, protocolou,
no Palácio do Planalto, carta em que Dom Cappio comunica ao presidente
Lula sua decisão de retomar seu jejum em defesa do São Francisco.
Transcrevo aqui esta epístola, Senhor Presidente, e também
a posição do Conselho Indigenista Missionário - CIMI
em apoio ao Bispo.
Dom Cappio reiniciou seu jejum na Capela de São Francisco, em
Sobradinho (BA), ao pé da barragem de Sobradinho, chamando a atenção
para o estado de mingua em que se encontra o rio. O lago vem diminuindo
suas reservas e nesse momento se encontra com menos de 14% da sua capacidade.
Esta retomada do jejum acontece pouco mais de dois anos depois em que
o franciscano passou 11 dias em jejum, em Cabrobó (PE).
Entre os argumentos para reiniciar o ato está o compromisso firmado
entre ele e o presidente da República de "suspender o projeto
de transposição e iniciar um amplo diálogo governo
e sociedade civil brasileira, em que a resposta foi o início da
obra de transposição pelo Exército".
Dessa vez a condicionante para o desfecho do jejum é a "retirada
do Exército do eixo norte e do eixo leste e o arquivamento definitivo
do projeto de transposição de águas do rio São
Francisco".
Eis a carta de Dom Cappio ao Presidente da República:
Barra - BA, 4 de outubro de 2007
Festa de São Francisco
Senhor Presidente
Paz e Bem!
No dia 6/10/05, em Cabrobó-PE, assumimos juntos um compromisso:
o de suspender o processo de Transposição de Águas
do Rio São Francisco e iniciar um amplo diálogo, governo
e sociedade civil brasileira, na busca de alternativas para. o desenvolvimento
sustentável para todo o semi-árido. Diante disso suspendi
o jejum e acreditei no pacto e no entendimento.
Dois anos se passaram, o diálogo foi apenas iniciado e logo interrompido.
Já existem propostas concretas para garantir o abastecimento de
água para toda a população do semi-árido:
as Ações previstas no Atlas do Nordeste apresentada pela
Agência Nacional de Águas (ANA) e as ações
desenvolvidas pela Articulação do SemiÁrido (ASA).
No dia 22 de fevereiro de 2007 protocolei no Palácio do Planalto
documento solicitando a reabertura e continuidade do diálogo, e
que fosse verdadeiro, transparente e participativo. Sua resposta foi o
início das obras de transposição pelo exército
brasileiro.
O senhor não cumpriu sua palavra. O senhor não honrou nosso
compromisso. Enganou a mim e a toda a sociedade brasileira.
Uma nação só se constrói com um povo que seja
sério, a partir de seus dirigentes. A dignidade e a honradez são
requisitos indispensáveis para a cidadania.
Portanto retomo o meu jejum e oração. E só será
suspenso com a retirada do exército nas obras do eixo norte e do
eixo leste e o arquivamento definitivo do Projeto de Transposição
de águas do Rio São Francisco. Não existe outra alternativa.
Acredito que as forças interessadas no projeto usarão de
todos os meios para desmoralizar nossa luta e confundir a opinião
pública. Mas quando Jesus se dispôs a doar a vida, não
teve medo da cruz. Aceitou ser crucificado, pois este seria o preço
a ser pago.
A vida do rio e do seu povo ou a morte de um cidadão brasileiro.
"Quando a razão se extingue, a loucura é o caminho."
Que o Deus da Vida seja penhor de Vida Plena.
"O Brasil é uma terra de grandezas. Terá dirigentes
com a mesma grandeza?" (Bourdoukan Georges in "Capitão
Mouro").
Dom Frei Luiz Flávio Cappio,OFM
Bispo Diocesano de Barra
A seguir, a nota do Cimi em apoio a Dom Luiz Cappio e em defesa do rio
São Francisco:
"Opará. É assim que os povos indígenas que vivem
ao longo do rio São Francisco chamam este rio. É o lugar
onde vivem alguns de seus "encantados" e de onde eles tiram
muito de seu sustento físico e cultural.
Em defesa do rio e de todos os povos que vivem dele, Dom Luiz Cappio,
bispo da Diocese de Barra (Bahia), retomou ontem seu jejum e suas orações
para tentar sensibilizar a sociedade brasileira e o presidente da República
sobre os males que a Transposição do rio São Francisco
pode gerar no nordeste do país.
O Cimi se solidariza a Dom Luiz em seu ato profético. Um recurso
extremo ao qual ele apela novamente, pois o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva não honrou o compromisso assumido em outubro de 2005.
Na ocasião, Dom Cappio suspendeu um jejum de onze dias, após
Lula ter se comprometido a suspender o processo da transposição
e iniciar um amplo diálogo sobre o projeto com a sociedade. Dom
Cappio e toda a sociedade se sentem enganados pelo presidente.
Dom Luiz e todas e todos que lutam em defesa do São Francisco sabem
que a transposição não atenderá à população
pobre do semi-árido. Ela beneficiará as grandes empresas
responsáveis pela obra, os grandes proprietários de terra
da região, os produtores de camarão, de flores e de outros
produtos destinados à exportação.
Para atender à população do semi-árido, o
próprio governo apresentou uma alternativa melhor e mais barata:
as 530 obras sugeridas pela Agência Nacional de Águas (ANA)
em seu Atlas do Nordeste e que seriam suficientes para abastecer os 1,3
mil municípios da região com mais de 5 mil habitantes a
um custo muito inferior ao da transposição: R$ 3,6 bilhões
contra R$ 6,6 bilhões.
A transposição, ao contrário, trará danos
sociais e ambientais irreversíveis. A obra afetará 22 povos
indígenas, desde os territórios Truká (em Pernambuco)
e Tumbalalá (na Bahia) até o povo Anacé, no Ceará.
A vida do franciscano Dom Cappio e do rio São Francisco estão
agora, mais do nunca, atreladas. E a vida do São Francisco é
também a vida dos diversos povos indígenas, das comunidades
dos quilombolas, de ribeirinhos, de camponeses... Todas essas vidas estão
agora atreladas à vida de Dom Cappio. Todas essas vidas dependem
de uma decisão do presidente da República.
Dom Cappio está na Capela de São Francisco, na Vila São
Francisco, no município de Sobradinho (Bahia), às margens
do rio, próximo à barragem de Sobradinho. O testemunho deste
peregrino, que em 1992 realizou uma longa jornada da nascente à
foz do rio, convoca-nos para um compromisso solidário, urgente
e inadiável com esta causa".
Brasília, 27 de novembro de 2007.
Conselho Indigenista Missionário - Cimi
Agradeço a atenção,
Sala das Sessões, 28 de novembro de 2007.
Chico Alencar
Líder do PSOL
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