página inicial
artigos
Rio de Janeiro, 09 de fevereiro de 2010
Digite seu E-MAIL para receber o Boletim Eletrônico
 
  Segunda-feira
8h: programa Faixa Livre, na Rádio Bandeirantes (1360 AM)
 

Toda sexta-feira às 13h, (confluência da rua São José e Av. Rio Branco).
ARTIGOS
  enviar por e-mailversão para impressão     fonte menorfonte padrãofonte maior
 
Título: MAIS DO MESMO
Autor: Paulo Passarinho
Publicado:
Data: 08/11/2007
   
  Foi dado início à temporada de mais uma rodada de apresentação dos resultados dos bancos brasileiros, com a divulgação dos balanços trimestrais referentes ao período de julho a setembro, bem como do desempenho dessas instituições neste ano.

O Bradesco lucrou, por exemplo, R$ 5,817 bilhões de janeiro a setembro, resultado superior em 73,6% - isto mesmo, mais de 70% – ao conseguido no mesmo período do ano passado, e superior também ao próprio lucro de todo o ano de 2006, de R$ 5,205 bilhões (janeiro a dezembro, ajustado pelo IPCA). A rentabilidade do banco em relação ao seu patrimônio líquido igualmente apresentou um resultado para nenhum acionista reclamar: 32,6% nos últimos 12 meses!

O Banco Itaú não ficou atrás. Tendo divulgado os seus resultados na terça-feira dessa semana e um dia após o seu maior concorrente, apresentou um lucro ainda maior - de R$ 6,444 bilhões. É um resultado superior ao lucro anual obtido por qualquer banco brasileiro. O lucro divulgado pelo Itaú significa um crescimento de 112,7% - isto mesmo, mais de 100% - em relação ao resultado obtido no mesmo período de 2006, de R$ 3,029 bilhões. O patrimônio líquido do banco, por sua vez, teve um crescimento de 29,1% nos últimos doze meses.

Os três maiores bancos que já publicaram seus números dos nove meses de 2007 (Itaú, Bradesco e Santander) já ultrapassam os seus respectivos lucros, em 2006. O Santander teve R$ 1,309 bilhão de lucro nos nove meses de 2007 contra R$ 828 milhões no ano passado. E a soma desses seus lucros, até setembro - R$ 13,570 bilhões -, supera a verba prevista pelo governo, neste ano, para o financiamento do festejado Programa Bolsa-Família.

Enfim, em relação aos lucros, rentabilidade e crescimento patrimonial dificilmente iremos encontrar desempenhos tão escandalosamente positivos. E isso não se dá em função de alguma virtude especial dos “nossos” banqueiros ou executivos da área. Muito ao contrário, o grande segredo do negócio está nas mãos do Estado brasileiro e tem um grande e poderoso responsável. O Estado, no caso, refere-se ao Poder Executivo e o responsável é justamente o seu chefe, Luiz Inácio Lula da Silva. O que responsabiliza o Presidente da República é a política econômica. É através dela – de total competência política do presidente – que as regras de funcionamento objetivo da economia brasileira são estabelecidas. E essas são regras extremamente favoráveis aos negócios financeiros, com notórios prejuízos à área produtiva. Muitos poderão afirmar que a economia hoje cresce e produz empregos. Mas a forma como se dá esse crescimento, cada vez mais dependente dos impulsos externos ao nosso ambiente econômico; com uma intensidade muito abaixo do que a totalidade dos países em desenvolvimento; e cada vez mais centrado em um modelo agro-mineral exportador, deixa enormes lacunas que vão se expressando na gravíssima crise social que vivemos e que se agudiza.

Com uma taxa de crescimento em torno de 4,5%, há um aumento do emprego, porém muito aquém das nossas necessidades. Com um mercado interno comprimido, frente às suas imensas possibilidades, mas em expansão pela ampliação de mecanismos de crédito ao consumidor - para uma enorme população desprovida de serviços públicos decentes, mas igualmente carente de bens de consumo dos mais variados -, muita ilusão é criada pelos efeitos imediatos provocados.

O fato é que a taxa de juros definida pelo Banco Central; a taxa de juros praticada pelos bancos comerciais, nas diferentes modalidades de empréstimos e financiamentos; a liberdade de movimentação financeira no exterior, permitindo captação em dólares a taxas reduzidas, e aplicação, em reais e com taxas muito mais elevadas, nos títulos da dívida pública; as tarifas cobradas pelos serviços bancários; a criação do empréstimo consignado e o direto envolvimento do governo federal na publicidade e operação desse mecanismo, de enorme e segura rentabilidade aos bancos, tudo isso, são fatores que explicam as razões de balanços financeiros tão absurdamente lucrativos. E todos esses fatores são determinados, ou podem ser fortemente influenciados, por decisões de natureza econômica, de responsabilidade direta do governo federal, presidido por Lula.

Isto mostra de maneira cristalina a forma como a política econômica é determinada pelos interesses dos setores econômica e politicamente mais fortes. Demonstra o caráter político das opções de natureza econômica. Lula optou por esse caminho, por uma concepção de governabilidade – de acordo com a versão oficiosa; ou pela mera renúncia a princípios e políticas anteriormente defendidos, em prol de uma concepção de apenas aproveitar-se do poder, sem pretender alterá-lo – de acordo com visão que me parece mais adequada. Ao assim agir, golpeou magistralmente o principal instrumento da esquerda brasileira dos últimos vinte anos anteriores, o PT – ao domesticá-lo de uma forma deprimente, em prol do projeto liberal, e ainda trazendo junto de si a maior parte dos demais partidos de esquerda.

Conferiu uma vitória política aos derrotados nas eleições e reduziu a uma caricatura as principais forças que combatiam o liberalismo. O preço de tudo isso é que hoje temos apenas um pouco mais do mesmo, através de novas mãos. Mãos que jamais imaginamos que pudessem se mostrar como condutoras do processo de enfraquecimento do Estado brasileiro, impulsionado a partir da eleição de Collor.

O mais do mesmo não é algo relativo apenas à política econômica e ao descarado favorecimento ao sistema financeiro. A conseqüência mais gritante da asfixia orçamentária do governo, provocada pela carga de juros imposta pelo modelo liberal, é o comprometimento da própria capacidade do Estado planejar, regular e investir. Contudo, a difusão da idéia do mercado encontrar os melhores caminhos para prover a sociedade de serviços de qualidade e a um menor custo – carro-chefe da propaganda liberal – vai se mostrando inteiramente falsa e desmoralizada.

O prenúncio de nova crise energética; a continuidade dos leilões de petróleo, apesar do preço do barril se aproximar dos US$ 100; a crise no setor aéreo e nas empresas de aviação; a falência e incapacidade das políticas públicas de saúde, educação e segurança; a paralisia da reforma agrária são exemplos gritantes dos descaminhos dos liberais, das “soluções” de mercado e das próprias opções de Lula. Mostram a faceta - prolongada e renovada - de crises que apenas se agravam.

Paulo Passarinho é economista.
   
Enviar por e-mail Versão para impressão Voltar Topo

 

   
Gabinete no Rio de Janeiro:
Rua Morais e Vale, 5 - Lapa
CEP: 20230-150
Telefones: (021) 2232-4532 / 2232-4413
Gabinete em Brasília:
Câmara dos Deputados
Anexo IV - gabinete 848 CEP: 70160-900
Telefone: (61) 3215-1848/3215-2848/3215-3848/3215-5848