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Título: Servidão Voluntária
Autor: Léo Lince
Publicado:
Data: 19/01/2006
   
  Paulo Nogueira Batista, o economista diferente que aprecia Nelson Rodrigues, escreveu não faz muito um artigo que deve ser registrado como um aviso de incêndio. O seu tema foi a estranha decisão do governo brasileiro de antecipar o pagamento ao Fundo Monetário Internacional de uma dívida que só venceria mais adiante. Uma quantia bestial de dinheiro: 15,5 bilhões de dólares. Mudou de mão, de uma sacada só, quase um quarto das nossas reservas internacionais

Em primeiro lugar, ele estranhou não ter lido, na grande imprensa brasileira, nenhuma crítica ou ressalva a essa decisão. O coral dos contentes aplaudiu e a cidadania, em torpor, conservou aparente indiferença. Depois, arriscou números que mostram de maneira categórica a imprudência da decisão. Como a recomposição das reservas se faz pela colocação de títulos públicos no exterior e de títulos da dívida mobiliária federal dentro do país, nos dois casos com juros muito maiores, o que aconteceu na realidade foi uma roubada. Para gáudio do patronato financeiro, trocamos reservas baratas por reservas caras.

A decisão do pagamento antecipado, que foi gestada naquela parte do governo mais sintonizada com os desígnios do cassino financeiro, já vinha sendo anunciada com estardalhaço desde o final do ano passado. O primeiro evento do ano seria o que foi chamado de “celebração histórica”: o presidente da República e diretor-gerente do Fundo anunciariam, juntos, o fim da dívida e a abertura de uma nova era. Apesar das fanfarras e das falas em rede nacional, fora dos círculos diretamente interessados, ninguém do povo se entusiasmou com os argumentos oficiais. Sem trocadilhos, a montanha pariu um rato.

Ninguém vai sair comemorando o “Fora FMI”. Todos sabem, até as pedras da rua, que o Fundo levou a grana e continua mandando aqui. Os artífices da subordinação estão incrustados no cerne do governo e fazem o dever de casa com a desenvoltura. O cidadão, cada vez mais desconfiado, observa o jogo de cena com a indiferença típica dos que preparam surpresas. Na feira onde tomam assento os fornecedores de mentiras políticas, o público exibe o sorriso de ironia dos que estão à procura de produto melhor.

E, por fim, houve aquela fotografia nos jornais. Estampada na primeira página, ela fez a festa dos cartunistas no dia seguinte. O ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central, em postura de genuflexão, espinhas dobradas a não mais poder, cara colada no tampo da mesa, expressavam com perfeição a coreografia da vassalagem. O presidente da República, encolhido na sua cadeira, exibia na cara de paisagem um esgar de incômodo. Do outro lado, refestelado como um soberano, estava o manda-chuva atual do FMI, que atende pelo significativo nome de Rato. Como legenda da fotografia, vem a fala do soberano. Além de elogiar, ele ainda passou um sabão nos seus pupilos: quer mais. Se existem imagens que falam mais do que mil palavras, essa é uma delas. Sem dúvida, um retrato perfeito da servidão voluntária.
   
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