20/04/2014
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Pinheirinho: 5 elementos do Brasil real e a greve de fome de Pedro Rios

foto: Thanny Vidigal
 

Chico apresentou à Comissão de Direitos Humanos da Câmara, junto com Ivan Valente e Jean Wyllys, requerimento de audiência pública para que os atores envolvidos na tragédia de Pinheirinho sejam ouvidos. Em pronunciamento (abaixo), ele lista cinco elementos do episódio que revelam a face do Brasil real, e poema de Sílvio Prado. Por quase duas semanas, o ativista Pedro Rios Leão fez greve de fome em frente à Rede Globo, em protesto contra a omissa cobertura dada ao caso pela mídia grande.

Pinheirinho e o Brasil real

A desocupação de Pinheirinho, bairro popular de São José dos Campos (SP), revela a face cruel do Brasil Real. É tragédia de erros:

- de uma Justiça parcial, que só tem olhos para o poder da especulação imobiliária e financeira;

- dos governos estadual de São Paulo e municipal de São José dos Campos, ambos controlados pelo PSDB, insensíveis aos direitos dos mais pobres e cujo braço armado funciona para oprimir covardemente;

- do governo federal omisso e lento, que não usou sua enorme capacidade de mediação de conflitos, nem implementa uma política habitacional que atenda à população mais necessitada;

- da estrutura jurídico-política que considera sagrado o direito de propriedade, esquecendo convenientemente a função social da propriedade prevista na Constituição;

- da omissão de parte da mídia grande, que não cumpre seu papel de investigar e informar a população – o que provocou até mesmo a greve de fome de um indignado ativista, Pedro Rios, em frente à sede da Rede Globo no Rio de Janeiro.

Muitas coisas ainda estão por serem explicadas:

- Por que os policiais que participaram da desocupação não usavam identificação?

- Por que a mídia não pôde acompanhar a ação de “reintegração”?

- Por que o Judiciário autorizou uma desapropriação na madrugada de um domingo?

- Por que os moradores não puderam sequer acondicionar seus pertences antes da derrubada das casas?

- Houve abusos sexuais, feridos e até mortos, como os moradores denunciam – sem qualquer resposta suficiente dos governos?

- Como as famílias poderão conseguir uma moradia com um aluguel social de R$ 500 disponibilizados pela prefeitura de São José dos Campos? Como viabilizarão fiadores para firmar estes contratos de locação?

- Como poderão as famílias matricular suas crianças nas escolas públicas, agora que não têm endereço fixo?

- Ao invés de mobilizar tamanho aparato para a desapropriação, os governos locais não poderiam ter providenciado uma moradia digna para aqueles moradores?

- Em que situação estão os alojamentos da prefeitura? As famílias têm estrutura de higiene, alimentação e descanso?

Para que essas questões sejam respondidas apresentarei na Comissão de Direitos Humanos da Casa, junto com os deputados Ivan Valente e Jean Wyllys, requerimento de audiência pública para que os atores envolvidos se pronunciem e a sociedade brasileira tome conhecimento do que realmente aconteceu em São José dos Campos.

Sr. Presidente,
  registro nos anais da Câmara dos Deputados trechos de um poema cordel do professor paulista Silvio Prado sobre essa barbárie que não pode ser esquecida:

“Terror em Pinheirinho

Como se fosse uma luta
Contra um povo invasor
Ou tropas do estrangeiro
Portadoras de terror
A polícia bateu pesado
E agrediu sem ter pudor
Machucando até criança
E também trabalhador.

Foi assim o dia todo
Num domingo de janeiro
O povo sendo expulso
Como povo desordeiro
Arrancado de suas casas
Humilhado por inteiro
Jogado pra viver na rua
Como se fosse cordeiro.

Foi um festival de bombas
Numa brutal repressão
Botando por cima de tudo
Um rolo de compressão,
Mesmo assim aquele povo
Com muita resolução
Armado de pau e pedra
Respondeu à agressão.

Sob ordens tão injustas
Agredindo o oprimido
A polícia de São Paulo
Parece ter desistido
De produzir segurança
Que proteja o desvalido
Pois agora se incumbe
De substituir o bandido.

Por isso vemos nas ruas
Do Pinheirinho aguerrido
Casas que viraram pedras
Templo cristão demolido
Animais soltos no tempo
Quanto metal retorcido
Panelas, restos de móveis
Muito sonho destruído.

Onde até recentemente
Alguém ganhava seu pão
Num comércio necessário
Anônimo e sem distinção
Hoje não se vê mais nada
A não ser desolação
E um grito silencioso
Chorando sua maldição.

Choro de quanta criança
E muita mãe desesperada
Lágrima dura pelo rosto
E na alma atravessada
Uma lâmina cortante
Feito dor descontrolada,
Vida sem nenhum sentido
Dentro dos olhos, o nada.

Perdeu juízo a Justiça
E também toda moral
Pois agora o que vemos
É um escândalo nacional
Com gente de fina toga
Como se fosse normal
Ficando sempre de quarto
Diante do capital.

Mas a justiça sozinha
Talvez não fizesse tanto
Se o governo de São Paulo
Demonstrasse algum espanto
Com a proposta absurda
De arrancar de seu canto
Milhares de brasileiros
Pra viver no desencanto.

E o que se deu por aqui
É um fato temerário
Um consórcio poderoso
Com gente do Judiciário
Além do governo tucano
Que controla o noticiário
Todos guardados no bolso
Do sistema imobiliário.

Pra essa gente não vale
O choro de um ancião
Ou a mãe desesperada
Vivendo vida de cão
Com o filho à sua frente
Dormindo no frio chão
A vida sem horizontes
E muita dor sem solução.

Mas a própria Bíblia diz
Que quem o pobre aflita
Não olhando sua vida
Como preciosa e bendita
Humilhando os indefesos
Na sua triste desdita
Essa gente está inclusa
No rol de gente maldita.

E que caia sobre todos
O castigo prometido
De ter os bens confiscados
E seu cargo suprimido
E de governar de novo
Seja a todos proibido
Pois uma vez no governo
São serviçais de bandido.”


 
 
 
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