Os efeitos da crise mundial na economia brasileira
Luiz Filgueiras - 18/11/2008
 
Os impactos da atual crise econômica mundial – difundida a partir da crise dos mercados imobiliário e financeiro dos EUA – sobre a economia brasileira têm duas portas de entrada interligadas. A primeira é o mercado financeiro, em razão da desregulamentação da conta de capital do balanço de pagamentos do Brasil, que concede uma grande liberdade aos fluxos de capitais, para a compra e venda de ações, de títulos da dívida pública e de outros papéis.

Nesta porta, os impactos têm sido imediatos e severos: queda da bolsa de valores, subida do risco Brasil e desvalorização do câmbio; em razão da venda de papéis brasileiros (ações, títulos públicos e outros papéis de empresas) pelos fundos de investimentos, com o objetivo de compensar as perdas nos mercados americano e europeu, bem como em busca de uma maior segurança nos títulos do governo dos EUA. Adicionalmente, a redução da liquidez nos mercados financeiros internacionais vem implicando em aumento do custo do (re)financiamento externo para as empresas brasileiras, além de diminuição do crédito na economia brasileira (para exportadores, agricultura, bancos menores e consumo de bens duráveis). Para agravar ainda mais a situação, empresas exportadoras vêm tendo elevados prejuízos no mercado de câmbio, em operações com derivativos.

Com a transformação da crise financeira em crise econômica geral, especialmente na ausência de controle dos fluxos de capitais, a fuga de capitais tende a se acentuar, em que pese o acúmulo de reservas da ordem de US$ 200 bilhões – o que implicou, até o ano passado, a redução conjuntural da vulnerabilidade externa do país. No entanto, a motivação dessa fuga não dependerá, principalmente, dos chamados “fundamentos da economia”: controle da inflação e trajetória da dívida pública, entre outros. A razão maior se situará, como das outras vezes, na própria dinâmica da especulação financeira, isto é, a crescente aversão ao risco levará à busca por maior segurança através da aquisição de títulos do governo americano.

Essa nova realidade tem levado à desmoralização do discurso liberal em todo o mundo, com o Estado aparecendo, mais uma vez, como é comum nos momentos de crise do capitalismo, como o “salvador da pátria”. Mesmo assim, não há a menor segurança de que o pacote de US$ 850 bilhões (6% do PIB dos EUA) para compra de ativos podres em mãos das instituições financeiras privadas, que foi recentemente aprovado com dificuldades pelo Congresso dos EUA, resolva, no curto prazo, a crise financeira. Além disso, é certo que também não impedirá a difusão e o aprofundamento da crise para a esfera produtiva e os demais países do mundo. E isto se deve, sobretudo, à amplitude e profundidade da desregulacão e liberalização dos mercados financeiros ocorridas nos últimos trinta anos, mas também ao atraso do Banco Central dos EUA em intervir mais prontamente e com instrumentos adequados – pois julgava, inicialmente, que a crise era de liquidez e não, como se evidencia agora, de solvência.

No Brasil, o agravamento da crise obrigou o governo a mudar o discurso da “blindagem” ou do “descolamento” da economia brasileira em relação aos EUA, levando o Banco Central do Brasil a adotar as seguintes medidas: 1- leilões para venda de dólares com cláusula de recompra, vendas de dólares das reservas e vendas de dólares no mercado futuro; 2- reduções sucessivas dos depósitos compulsórios e 3- edição de uma medida provisória que possibilita ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal comprarem instituições financeiras privadas e tornarem-se sócios de empresas construtoras. Por outro lado, a estratégia de elevação da taxa de juros – num momento de clara tendência de desaceleração da atividade econômica –, já é questionada no interior do próprio governo. No entanto, essa não vai ser uma escolha trivial; numa economia sem controle dos fluxos de capitais, a elevação da taxa de juros também é utilizada com o objetivo de tentar impedir a fuga de capitais nos momentos de crise. Ademais, as restrições externas - com redução dos saldos da balança comercial e crescimento do déficit da conta de transações correntes - forçarão a redução do ritmo de atividade econômica. E aqui, encontra-se o outro caminho de entrada da crise na economia brasileira.

Essa segunda porta de entrada da crise é o comércio internacional, o que inevitavelmente ocorrerá em razão da recessão que já vem tomando conta dos EUA, Europa e Japão. Neste caso, os impactos no balanço de pagamentos – que já vinha se deteriorando antes da crise, em razão da valorização do real e do salto no montante das remessas de lucros e dividendos das multinacionais -, se fará sentir através da queda da demanda e dos preços internacionais das commodities, que representam parte majoritária das exportações do país. A diversificação dos destinos das exportações brasileiras - ocorrida nos últimos anos em virtude do crescimento dos países da periferia do capitalismo – atenua, mas não resolve o problema. A crise tem caráter global; assim como o crescimento dos últimos anos da economia mundial foi alimentado pela dinâmica da economia dos EUA e da China, isto também vale (em sentido oposto) para esse novo momento, de reversão do ciclo econômico.

Desse modo, em ambos os casos, pelas portas financeira e comercial, a vulnerabilidade externa da economia brasileira voltará a se manifestar, com impactos sobre as trajetórias da inflação e da dívida pública; o que restringirá a capacidade de crescimento a partir do mercado interno, afetando o nível de emprego. A divulgação de estatísticas positivas sobre o desempenho (passado) da economia não resolve o problema.

Sem dúvida, todos os países serão atingidos pela crise global. Entretanto, o grau de “sofrimento” de cada um, no curto e longo prazos, dependerá de suas respectivas inserções internacionais (comercial e financeira) e de suas políticas econômicas. Aqueles com menores restrições ao movimento dos fluxos de capitais e dependentes de uma pauta de exportação calcada, sobretudo, em commodities e produtos industriais com baixa intensidade tecnológica tenderão a sentir mais os efeitos da crise. E isto é mais verdadeiro ainda em virtude da pequena margem de autonomia da política econômica desses países – como é o caso do Brasil –, restando-lhes, em geral, a elevação das taxas de juros.

A taxa de crescimento da economia em 2008 deverá ser afetada, por razão óbvia, pelo menor crescimento do último trimestre deste ano, mas o resultado final deverá apresentar um valor próximo dos últimos dois anos. Entretanto, dada a problemática inserção comercial-financeira do país, na economia internacional - com uma grande dependência das exportações de commodities e livre mobilidade dos fluxos financeiros -, a continuação e aprofundamento da crise comprometerão seriamente o crescimento no próximo ano. E isto será mais verdadeiro ainda, se a resposta à crise for a manutenção da mesma política econômica implementada até agora, pois isto implicará, como é de praxe em seu receituário, a retomada do aumento da taxa de juros e o aumento do superávit fiscal primário, isto é, mais aperto fiscal e monetário.

A alternativa a essa política, no curto prazo, é o controle dos fluxos de capitais (regulação da conta capital), a centralização do câmbio, o controle seletivo das importações, uma forte redução do superávit fiscal primário, a renegociação das dívidas das famílias, a estatização de instituições financeiras e do crédito, a ampliação do seguro desemprego e a manutenção dos gastos sociais. E, no médio e longo prazo, a re-configuração da pauta de exportações do país, em direção a produtos com maior intensidade tecnológica, maior valor agregado e com maior dinamismo no mercado internacional. Entretanto, a opção por esse outro tipo de política econômica em um momento de crise não é trivial. Ela implicaria, sem dúvida, em confronto com os interesses econômicos e políticos do capital financeiro, além de exigir uma ação consciente por parte do Estado – com a implementação de políticas industriais, comerciais e tecnológicas – cujos resultados não serão imediatos.

(*) Luiz Filgueiras é Professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal da Bahia (FCE/UFBA) e membro do Núcleo de Estudos Conjunturais (NEC) dessa faculdade. Artigo publicado na edição de novembro do Jornal dos Economistas.
 
 
 
 

 

 

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